Skip to main content

Volkswagen Autoeuropa teve o segundo melhor ano de sempre

Apesar da crise que vai varrendo o sector automóvel, na Autoeuropa, em Palmela, respira-se algum alívio, pois vem aí a produção de um novo modelo elétrico, enquanto se começa a produzir o VW T-Roc híbrido

in Expresso, Vítor Andrade (Coordenador de Economia), Nuno Botelho (Fotojornalista), 26-02-2026


Em 2025 foram produzidos 240.400 carros na fábrica da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, o segundo melhor ano de sempre da marca alemã em Portugal. Em entrevista ao Expresso, Thomas Hegel Gunther, diretor-geral da Volkswagen Autoeuropa, sublinha que aquele número é apenas ultrapassado pelo resultado de 2019, quando a unidade de Palmela atingiu as 254.600 unidades, mas com uma particularidade: nessa altura estavam em produção dois modelos, sendo que em 2025 da Autoeuropa só já saía o Volkswagen T-Roc.

O diretor da fábrica, que agora está de saída para assumir uma função de topo na marca Volkswagen, na sede do gigante automóvel alemão, em Wolfsburg, nota que os números da produção do modelo T-Roc, em Palmela (que agora entra na sua versão híbrida) até podiam aumentar. O gestor explica que aquele número não depende apenas das encomendas. “Se dependesse apenas do cliente poderíamos aumentar, mas também temos algumas tarefas que têm de ser feitas, por exemplo, trabalhos de integração de novos sistemas e máquinas para produzir o novo carro elétrico [o VW ID.Every1] e por isso precisamos de certas paragens”.

Apesar de reconhecer que teve um bom ano de produção, Thomas Hegel Gunther não avança com resultados financeiros relativos a 2025. Reserva-os para a divulgação das contas consolidadas de todo o grupo Volkswagen, o que deverá acontecer a 10 de março. Afirma apenas que os resultados foram “muito bons”. “Também aqui estamos muito perto do melhor ano da história da Autoeuropa”, realça.

Quando perguntamos ao diretor da Autoeuropa se esta unidade vai ficar imune a despedimentos, ou mesmo a encerramentos, dado o contexto de corte de custos em curso em todo o grupo Volkswagen, Thomas Hegel Gunther garante que não tem nenhuma indicação da “casa-mãe” que vá nesse sentido.

Cauteloso, e medindo cada palavra ao milímetro, diz apenas: “Logicamente que temos, como em todas as fábricas do grupo Volkswagen, de dar o nosso contributo para melhorar os processos, reduzir custos e ajudar que a empresa como um todo seja mais resiliente e mais competitiva.”

E acrescenta que a Autoeuropa já está a construir o renovado VW T-Roc, que considera “um produto excelente”, e que a fábrica já está a receber novas encomendas dos mercados europeus, nos quais já estão, aliás, a ser entregues as primeiras unidades do novo modelo made in Palmela.

Cadeia logística afetada

Por causa das tempestades que afetaram Portugal nas últimas semanas, mas também Marrocos e Tunísia, onde estão alguns fornecedores da Autoeuropa, a cadeia logística de abastecimento de componentes para o VW T-Roc foi afetada.

“Os nossos fornecedores portugueses realmente fizeram um trabalho excelente, em parte também com o nosso departamento de compras e da logística, para restabelecer o sistema de abastecimento o mais rápido possível”, observa. E sublinha que não só não dispensou nenhum fornecedor português como não está a pensar em dispensar.

O gestor confirma que as interrupções vindas sobretudo de Marrocos obrigaram a colocar alguns carros praticamente prontos em fila de espera, no exterior da fábrica, que regressarão à linha de montagem assim que houver as peças em falta. No entanto, o responsável garante que “isso não irá afetar o objetivo final previsto para este ano, em termos de produção”.

Daqui a dez anos 90% dos carros vendidos serão elétricos. Mas haverá quem prefira carros a combustão

Gunther deixa algumas críticas ao excesso de regulamentação da Comissão Europeia sobre o sector automóvel, mas diz que, apesar de tudo, o grupo está a conseguir colocar “bons produtos” no mercado.

“A regulação acaba por influenciar também o mercado. Mesmo assim, acho que estamos a conseguir competir com carros asiáticos, e chineses em particular, mas também com os americanos. Acho que isso é um sinal de que as empresas europeias estão a reagir”, refere. Questionado sobre se a Autoeuropa está a conseguir passar incólume pela turbulência que está a atingir o sector automóvel, responde que “tudo tem influência”.

Política tarifária tem impacto

Gunther refere a política tarifária norte-americana: “Logicamente que tem impacto, porque os nossos clientes que iriam comprar um carro dependem do mercado americano, assim como os nossos fornecedores.” “A melhoria de processos e a produtividade é a forma como conseguimos combater certas influências negativas”, prossegue.

Apesar de tudo, o gestor considera que “a Europa não está muito exposta nem ao mercado americano nem ao mercado asiático”, excetuando o facto de muitos componentes e materiais virem da China. “Mas isso não afeta só a Europa”, aponta.

A propósito da indústria de componentes para automóveis (que em Portugal já vale cerca de €14 mil milhões), Thomas Hegel Gunther estima que se possa vir a assistir a alguns movimentos de “consolidação entre empresas”. Mas admite que se possa ter de passar por alguns encerramentos de fábricas, pois terá de haver “ajustamentos”. “Neste sector isso parece-me inevitável.”

O mesmo responsável sublinha que os reguladores deveriam ter em conta, antes de colocarem mais regulamentos no mercado, que o sector emprega perto de 14 milhões de pessoas na Europa: “Temos que ter atenção em relação a isso.”

Tendo em conta a importância económica e social do sector automóvel e a regulamentação que lhe é imposta, o diretor cessante da Autoeuropa defende subsidiação à produção e à aquisição de carros elétricos. Diz que é imperativo também “proteger a produção”. E nota que “a produção tem os seus custos, nomeadamente os custos energéticos, que podem ser duas ou três vezes superiores aos dos concorrentes dos países asiáticos”.

E sobre a decisão recente da Comissão Europeia de recuar na proibição da venda de carros com motores a combustão após 2035? “Não diria que é um recuo, porque, na prática, estamos a falar de uma flexibilização. No fundo, é dar mais tempo à indústria”, para se adaptar às tendências do mercado, nota Thomas Hegel Gunther. “Vão existir sempre nichos em que os clientes vão continuar a querer carros com motores a combustão. Mas daqui a dez anos acho que 90% dos carros vendidos serão elétricos”, vaticina.

A Europa tem de “lutar” para continuar a produzir carros

Depois de alguma insistência na pergunta sobre se a Europa está a perder terreno para a China, no sector automóvel, Thomas Hegel Gunther reconhece que sim: “Claro que está, e acho que a Europa está a enfrentar um desafio maior do que teve no passado.” Mas, prossegue, “se a política e a indústria reagirem como um todo podemos coexistir muito bem”. E mais não adianta sobre o assunto. Diz, porém, que “todas as empresas da indústria automóvel na Europa têm realmente oportunidades”. “Temos boas tecnologias, temos excelentes engenheiros e temos um mercado enorme. Mas temos de lutar e desenvolver possibilidades para continuarmos a criar e produzir automóveis aqui, na Europa”, defende o gestor.


Perfil

Thomas Gunther

O alemão, que fala português do Brasil, liderou a fábrica de Palmela durante os últimos quatro anos. Agora está de saída da Autoeuropa, mas não do grupo. Prepara-se para rumar à casa-mãe da Volkswagen, em Wolfsburg, na Alemanha, na região da Baixa Saxónia. Será o responsável pelo planeamento da marca Volkswagen. Uma tarefa “um pouco mais estratégica e mais transversal”.


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.