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Viana. Um cluster automóvel para não deixar fugir os filhos para o estrangeiro

A proximidade da PSA de Vigo está a atrair a Viana do Castelo empresas produtoras de componentes para a indústria automóvel.

in Dinheiro Vivo, por Ana Marcela, 29-07-2018


Mais de 135 milhões e 1700 postos de trabalho estão a ser criados e a colocar um desafio de crescimento à região.

Quando Abílio Ferreira chegou à empresa, a fábrica da Eurostyle Systems em Viana do Castelo era apenas uns traços num papel. Havia um terreno, uns planos e um timing para a fábrica de componentes para a indústria automóvel começar a operar. “No espaço de dois anos aconteceu tudo isto”, diz o diretor da fábrica de Viana do grupo francês GMD. “Está a ver aquela linha?”, pergunta o responsável da fábrica apontando para uma grossa faixa amarela que atravessa o chão da unidade fabril. “É aqui que começa a nova fase de ampliação.” Inicialmente, a multinacional previa apenas duas fases de ampliação para a fábrica no parque empresarial de Lanheses, num investimento de 18 milhões. Mas a conquista de novos projetos do Grupo PSA ditou uma nova expansão. “O investimento passou a 27 milhões, de mais ou menos 120 pessoas inicialmente previstas vai ter mais de 200.” Até 2019, os 18,8 mil metros quadros de área vão acolher 350 trabalhadores.

É uma das nove empresas que fabricam componentes, neste caso de plástico, para o setor automóvel que escolheram Viana do Castelo para se instalar atraídas pela proximidade à fábrica da PSA de Vigo, na Galiza. É um novo plastic valley a nascer a 60 quilómetros da maior fábrica automóvel da Península Ibérica. “Viana do Castelo assume-se com um plastic valley. Todo o setor dos plásticos associados à indústria automóvel está aqui residente e vão produzir não só para a PSA como para a Autoeuropa e, sobretudo, para exportação”, diz José Maria Costa. “Temos nove empresas instaladas e vamos ficar com 1700 postos de trabalho”, diz o presidente da Câmara de Viana do Castelo.

A francesa Bontaz prepara-se para abrir ainda em julho um centro de desenvolvimento e prototipagem, na zona industrial de Lanheses, criando nos próximos quatro anos até 900 postos de trabalho. Um investimento global de 25 milhões. Mas não é a única. A japonesa Howa Tramico anunciou um investimento de cem milhões, criando mais de cem empregos; a Steep Plastique vai investir 50 milhões até 2021, criando 250 empregos na nova fábrica, que arranca no outono. Só da indústria automóvel serão investidos 135 milhões de euros, diz José Maria Costa.

O colapso dos estaleiros

A atribuição dos modelos Opel Combo e a nova geração da Citroën Berlingo e da Peugeot Partner à PSA de Vigo em 2016 foi o motor que deu gás ao novo cluster. E em boa hora. Viana do Castelo debatia-se com dificuldades para sair do mar da crise após o anúncio do encerramento dos Estaleiros de Viana nos anos da troika. “Cerca de 4000 pessoas viviam dos estaleiros navais. Não eram só os 600 trabalhadores e suas famílias que estavam dependentes, era um conjunto muito grande de empresas fornecedoras de serviços, empreiteiros, empresas de logística, restaurantes, hotéis”, enumera João Maria Costa, ele próprio um antigo engenheiro químico dos ENVC. À frente dos destinos da autarquia desde 2009, José Maria Costa teve de enfrentar o tsunami social e económico gerado. “A cidade ficou mais triste. Os estaleiros eram a empresa-modelo de Viana do Castelo e com o encerramento a cidade ficou quase deprimida”, lembra. “Houve muito desemprego e até emigração na altura. O desemprego andaria à volta dos 30%.” Lançaram medidas de apoio às juntas de freguesia, às IPSS. “Tivemos vales para apoiar com fruta, legumes, peixe e carne as famílias, tivemos de pagar rendas de casa, serviços médicos…”

Com a crise também viram os jovens abandonar a região. “Só no executivo da câmara há duas pessoas, no qual eu me incluo, que têm os filhos a trabalhar lá fora porque o nosso país, a dada altura, não foi capaz de dar condições de resposta às pessoas”, lamenta o autarca do PS. “Foi uma marca que nos ficou a todos de procurar fazer o que estivesse ao nosso alcance para inverter esta situação, que era não deixar fugir os nossos filhos para o estrangeiro.”

Criar condições económicas para fixar as populações foi o objetivo. Arrancaram com programas de reabilitação urbana, para dinamizar a economia local, e procuraram atrair investimento para a região. Apostaram em infraestruturas e na criação de parques industriais. Hoje são quatro – Lanheses, Neiva, Praia Norte e Meadela. “Tivemos de adquirir terrenos, criar infraestruturas, fazer acessos. Este trabalho começou em 2005-2006 mas teve maior expressão nestes últimos anos. Investimentos em parques empresariais nestes últimos três anos foram, à vontade, uns 12 milhões de euros.”

O início do cluster

A americana BorgWarner foi o combustível inicial do atual cluster automóvel. Até 2013, a multinacional, que produz peças de metalomecânica para a indústria automóvel, tinha uma unidade em Valença do Minho, com 500 trabalhadores e havia, conta José Maria Costa, forte probabilidade de a companhia deslocalizar para a Europa do Leste, onde tinha operação. Ficou na região. “O que nos motivou a mudar para Viana é que já havia um parque industrial equipado e pronto a receber”, justifica Pedro Abreu, na época diretor financeiro e hoje o diretor da BorgWarner de Viana. A localização também apresentava outras vantagens. “Temos autoestrada aqui ao lado, estamos bastante próximo do porto de Leixões [60 km], que usamos com maior regularidade, do aeroporto [a 60 km do Porto e a 70 km de Vigo] e, acima de tudo, ter acesso a mão-de-obra diferenciada é fácil. Ou muito mais fácil do que era em Valença”, justifica.

As obras em Lanheses arrancaram em 2013. As primeiras linhas começaram a ser transferidas em meados de 2014. “Algures no primeiro trimestre de 2015 estávamos cá a 100%”, diz Pedro Abreu. E com mais capacidade de produção, com a área da fábrica a aumentar de oito mil para 15 mil m2 e os trabalhadores a crescer para perto de 850. Em 2017, a empresa faturou 35 milhões produzindo mais de 500 referências para a PSA, Renault, Ford, Grupo VW, Daimler ou BMW. “Exportamos 99,95% da produção, apenas uma pequena parte vai para a Autoeuropa”, conta o diretor da BorgWarner Viana.

“A esmagadora maioria” para a Europa, mas também Brasil, México, EUA, África do Sul ou Austrália recebem peças made in Viana do Castelo. A meta é crescer. Não fala em números, mas tem certezas. “Vamos crescer e muito. Prevejo que num curto espaço de tempo, dois a três anos, vamos duplicar a faturação.” Convicções baseadas em factos. “Estou a falar de projetos que já nos foram adjudicados, modelos que vão sair.”

E o mesmo diz Abílio Ferreira, da Eurostyle. Hoje saem diariamente da fábrica 400 carros vendidos” (a forma como contabilizam a produção). “Vamos subir para 600 em agosto, para 900 em setembro e, até janeiro, vão sair mais de 1200 carros”, adianta. “Vêm novos projetos [três novos modelos da Peugeot a partir de 2019]. O que aconteceu aqui de forma natural é que a PSA, sendo um cliente de referência da GMD, soube que viemos para Portugal, da nossa proximidade a algumas fábricas estratégicas para a PSA, como Vigo, Mangualde e Madrid, e consultou-nos para outro tipo de projetos.”

Talvez por isso o diretor da Eurostyle Systems de Viana não receia que um bater de asas na PSA de Vigo possa provocar um tufão em Viana do Castelo. “Somos monoclientes, hoje fazemos Vigo e Mangualde, mas no futuro faremos Poissy [França], Kenitra [Marrocos], Trnava [Eslováquia] e Madrid.” Até 2019, contam chegar aos 55 milhões, com 95% da produção para exportação.

“Houve um boom no setor automóvel, mas paralelamente temos vindo a assistir a investimentos de outros setores”, garante José Maria Costa, referindo apostas nas eólicas, economia do mar, cosmética e até na área do armamento. Apostas que fazem subir para 290 milhões os investimentos em curso no concelho.

Dores de crescimento

A procura justifica a expansão das instalações da Eurostyle. Um trabalho assegurado pela Garcia Garcia, responsável pela construção de outras unidades, como a da BorgWarner, a Steep Plastic, Bontaz ou a Uchiyama, que vai investir 15 milhões de euros, criando 150 postos de trabalho na zona industrial de Neiva/Alvarães, mas que também ajuda as empresas no processo de prospeção para novas localizações. Um dos administradores, Miguel Garcia, acredita que ainda há capacidade de acolhimento. “Espanha é o segundo fabricante automóvel europeu, diria que a capacidade de Portugal crescer dentro da divisão industrial automóvel é considerável.”

A empresa de Guimarães tem na construção industrial 75% a 80% da sua atividade, com o automóvel a pesar metade e “com tendência a crescer”. Em 2017, faturaram 53 milhões e neste ano preveem um aumento de 20%. “Espanha tem um custo de mão-de-obra mais caro do que Portugal, Viana é bem servido estrategicamente por vias de comunicação e está próximo de Vigo. É uma combinação ideal para que se propague essa cultura, esse crescer do mercado automóvel em Portugal”, defende Miguel Garcia.

A questão parece mesmo residir no custo da mão-de-obra, pressionada pela procura que os novos investimentos estão a colocar num concelho com 90 mil habitantes. “Viana agora tem um desafio maior: ser capaz de atrair pessoas para residir, porque há muito emprego disponível”, diz Pedro Abreu, da BorgWarner.

“Preocupa-me muito essa situação, porque as nossas necessidades de mão-de-obra vão ser materialmente relevantes. Estamos a falar de adicionar centenas de pessoas à BorgWarner nos próximos meses e, a fazer fé no que leio sobre os meus vizinhos, eles também falam na ordem das centenas de trabalhadores. Se somar isso tudo, mesmo com uma taxa de desemprego zero, não há esse número de pessoas.” Receia que a falta de mão-de-obra leve a “uma guerra que não vai ser benéfica para ninguém” e fala num possível impacto ao nível dos salários. “Vamos perder competitividade mundial. O nosso custo de mão-de-obra está a subir e equiparar-se a outros países.”

“Na zona de Viana do Castelo e arredores começa a ser um bocadinho escasso a nível de mão-de-obra qualificada”, reconhece Abílio Ferreira. “A nível de recursos humanos começa a ser um pouco complexo. Vamos ter de arranjar uns acordos de cavalheiros para não andarmos tipo bola de pingue-pongue [com trabalhadores a saltitar de empresas].”

Mas numa cidade virada para os serviços e turismo, há também dificuldade em encontrar pessoal qualificado. E as escolas da região ainda não estão a dar resposta às necessidades da indústria. “Estamos a longo espaço de termos aqui uma mão-de-obra qualificada e apta para trabalhar. Temos de os formar”, diz Abílio Ferreira. “Com pessoas formadas em gestão ou turismo não vamos conseguir fazer investigação para a indústria automóvel”, lamenta Pedro Abreu, que tem como sonho instalar um centro de investigação na BorgWarner de Viana.

“Estamos numa crise de crescimento. Mas isso são os bons desafios que temos pela frente”, reage José Maria Costa, frisando que a câmara está a querer atrair investidores para projetos de reabilitação urbana, a contactar universidades, como Vigo, para atrair futuros quadros a se instalarem na cidade.

 

 

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