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Uma luta necessária

A decisão dos governos do PS de António Costa de manter na ferrovia portuguesa a bitola ibérica, é um golpe fatal para as exportações portuguesas, nomeadamente de componentes para o automóvel, mais de nove mil milhões de euros por ano e a crescer.

artigo de opinião do Comendador Henrique Neto, 25-08-2020


Vejamos porquê:

1- Dadas as decisões da União Europeia de financiar a mudança de bitola em Portugal, Espanha, países da antiga Cortina de Ferro e de liberalizar o mercado ferroviário, onde todos os países passam a poder ser atravessados por comboios de diversas nacionalidades, está a revolucionar o transporte de passageiros e o mesmo se segue com o transporte de mercadorias.

2-Estas decisões da União Europeia têm como objectivo substituir o transporte de mercadorias por via rodoviária pela ferroviária, por razões de eficiência energética, ambientais e de custo do transporte, tornando a economia europeia mais competitiva, além de terminar com o feudo dos transportadores nacionais e com o conservadorismo existente no sector ferroviário.

3- Quer a Espanha, quer os países do Leste, aproveitaram esta política de Bruxelas de interoperabilidade do transporte ferroviário da Europa, para fazerem grandes investimentos, em grande parte pagos pela União Europeia. A Espanha está na primeira linha desses investimentos e tem hoje uma das mais modernas ferrovias da Europa, tendo terminado a ligação a França na Catalunha, dentro de dois anos terminará a ligação através do País Basco, no próximo ano a ligação à Galiza, e dentro de mais dois anos a ligação do Mediterrâneo, isto é, de Barcelona ao porto de Algeciras. Tendo iniciado o processo com a ferrovia para passageiros a prioridade agora são as mercadorias.

4- Dada a decisão do Governo português de não investir na mudança de bitola na ligação à Europa, a Espanha está a aproveitar essa oportunidade para controlar as nossas exportações através das plataformas logísticas que construiu ao longo da nossa fronteira. Um sinal dessa intenção é a electrificação em curso da linha de Salamanca à fronteira portuguesa em bitola ibérica, quando todos os seus investimentos são feitos em bitola UIC.

5- Acresce que as decisões da União Europeia, apoiadas por todos os países, vão retirar competitividade ao transporte rodoviário de mercadorias, devido ao aumento do custo dos combustíveis, do pagamento de taxas no atravessamento dos países e impostos acrescidos por razões ambientais. Nenhum país europeu quer manter os elevados níveis de camiões nas suas estradas.

6- Finalmente, como todos sabemos, o transporte mais eficiente é o transporte porta a porta, sem transbordos e sem paragens, o que já acontece na Suíça, na Itália e em Espanha, através da colocação de camiões em plataformas ferroviárias para as grandes distâncias. Ora Portugal, transformado numa ilha ferroviária, não poderá aproveitar nenhuma destas transformações em curso, na medida em que os comboios europeus não poderão entrar em Portugal devido à diferença da bitola.

7- O Governo, a IP e os muitos arautos do Governo, afirmam vezes sem conta que a bitola não é um problema de ligação ferroviária à Europa, mas escondem dos portugueses como pretendem fazer esse milagre de forma competitiva, ou seja, sem transbordos, paragens nos centros logísticos e sem fornecedores em posições dominantes. Acresce que os mentores do Governo que defendem agora a bitola ibérica, são os mesmos que nos governos de José Sócrates defendiam publicamente a bitola UIC. Em Portugal o tacho tem muita força.

É este o panorama que ameaça os exportadores portugueses, nomeadamente os da AFIA, que passarão a depender dos custos adicionais e dos atrasos e transbordos resultantes das plataformas logísticas espanholas e do monopólio nacional da MEDWAY, que, como qualquer empresa numa situação de posição dominante, aumenta os preços, o que já vem acontecendo.

Acontece também que não haverá mais Auto Europas em Portugal, porque nenhuma empresa internacional investirá num país que não tenha acesso logístico competitivo à Europa. Portugal será, neste contexto, um país a evitar por empresas industriais estrangeiras e ver-se-á quanto às portuguesas. Dados todos estes perigos os exportadores portugueses têm de fazer ouvir a sua voz e exigir do Governo uma explicação clara da forma como a questão da bitola não é um problema. Ou porque não aproveitam os subsídios da UE para colocar a ferrovia portuguesa em linha com os outros países europeus com quem temos negócios.

São estes alguns dos perigos a que os exportadores portugueses estão sujeitos, sendo agora o tempo das empresas e das associações impedirem que esta ausência de visão estratégica comprometa os anos de trabalho, de investimento e de sucesso das empresas exportadoras nacionais.

 

 

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