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Tomás Moreira, Presidente da AFIA: “Portugal não vive apenas da Autoeuropa”

Tomás Moreira representa o sector automóvel, mas quer pôr a ferrovia no topo da agenda nacional

in Expresso, por Margarida Cardoso, 01-06-2019


Pode parecer estranho, mas a indústria portuguesa de componentes automóveis quer ver o país a investir na ferrovia. “É estratégico para Portugal, para o sector e para as exportações nacionais em geral”, defende Tomás Moreira, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel.

“A tendência é movimentar bens por ferrovia, mas Portugal não está a acompanhar o movimento. Está a tornar-se uma ilha e isso pode ser crítico”, alerta Tomás Moreira, à frente de um sector que fatura €11 mil milhões, vale 5% do PIB e emprega 51 mil pessoas.

Quando Espanha e França tiveram alternativas ferroviárias à estrada, “teremos um forte handicap e seremos obrigados a usar as plataformas logísticas construídas pelos espanhóis junto à fronteira”, diz o dirigente associativo. “Haverá taxas parar atravessar estes países e isso vai penalizar as entregas na Alemanha, o maior mercado europeu e o segundo maior cliente de Portugal, a seguir a Espanha, até porque os nossos maiores concorrentes estão no leste da Europa”, explica.

A questão torna-se especialmente relevante quando a guerra comercial entre os EUA e a China, ameaça acelerar a vinda de fabricantes chineses para a Europa, depois dos americanos, japoneses e coreanos, o sector espera a entrada dos chineses. E Portugal tem espaço para receber mais um grande fabricante automóvel:

“Temos apenas 1% das fábricas automóveis cá e estamos atentos. Mas sem ferrovia, perdemos competitividade”, afirma.

No curto prazo, a principal preocupação está nos recursos humanos, na flexibilidade da legislação laboral, na formação dos trabalhadores. Num sector que trabalha sem stocks, “as flutuações do mercado chegam às fábricas no mesmo dia e exigem agilidade”, defende Tomás Moreira, admitindo que isso passa por despedimentos, mas também por contratações, questões como o banco de horas, a remuneração de horas extras, a formação.

“Neste Momento, não encontramos no mercado as pessoas qualificadas necessárias e isso compromete o investimento em Portugal”, diz o presidente da AFIA, consciente da dinâmica de um sector a viver com margens muito pequenas e contractos decididos por diferenças de cêntimos, o que torna a questão dos custos fundamental, mesmo para uma oferta no segmento médio alto, com investigação, desenvolvimento de produto, peças mais técnicas, valor acrescentado.

Desde a crise de 2009, o ciclo tem sido de crescimento contínuo, com o volume de negócios a duplicar, o investimento a crescer anualmente desde 2010, de €220 milhões para €800 milhões, refletindo a dinâmica do lançamento de novos modelos na Autoeuropa e na PSA e um aumento da quota de mercado de Portugal no sector. Mas o actual momento é de incerteza por razões económicas e políticas e pelas dúvidas à volta do automóvel do futuro.

Motor a combustão? Híbrido? Eléctrico? Células de hidrogénio? A escolha terá impactos diferentes, uma vez que os híbridos têm as componentes de um veículo tradicional, enquanto um carro 100% eléctrico não traz motor, nem escape nem outros componentes.

“A disrupção será grande, mas o veículo eléctrico ainda só representa 2% das vendas automóveis. Se de hoje para amanhã se produzissem apenas veículos elétricos, Portugal perdia 10% dos postos de trabalho.

Teria impacto, mas não rebentava o sector até porque muitos componentes continuam a ser necessários, dos assentos aos faróis, e as empresas já estão a preparar o futuro”, afirma.

Na direção da AFIA desde 2009, na presidência desde 2013, Tomás Moreira acredita que a Autoeuropa pesou no salto dado pelo sector dos componentes automóveis. Trouxe investimento internacional e nacional, criou massa crítica que permitiu a duas dezenas de empresas lusas criarem unidades no exterior. Mas se há uma certeza, é a de que “Portugal não vive apenas da Autoeuropa”. As empresas souberam conquistar outros clientes e mercados, como mostram os números: “O sector exporta 85% doa que faz e a quota da Autoeuropa é de 10%.

 

DE NORTE A SUL

230

é o total de empresas do sector. Metade é de capital estrangeiro. 70% estão entre Monção e Leiria

 

21%

é a quota de Espanha nas exportações. É o maior mercado, seguido da Alemanha (17%)

 

 

 

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