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Tomás Moreira | AFIA “Indústria automóvel é muito forte e tem um peso importantíssimo na economia”

A promoção do crescimento, da competitividade e da internacionalização da indústria automóvel de Portugal é missão principal da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, que, juntamente com a ACAP, foi promotora e impulsionadora do MOBINOV, a associação do cluster do setor recentemente constituída.

in Portugalglobal nº87, 30-05-2016

A indústria de componentes automóveis agrega cerca de 200 empresas, que asseguram 42 mil empregos diretos e vendas que terão ascendido a 8 mil milhões de euros em 2015, o que demonstra o peso e a importância de um setor fortemente exportador, com impacto relevante na economia nacional. Tomás Moreira, presidente da AFIA, aponta, em entrevista, os desafios que se colocam ao setor, mostrando-se otimista quanto ao crescimento de uma indústria que afirma ter já uma massa crítica significativa.

 

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Qual o papel e principais competências da AFIA no âmbito da indústria automóvel e de componentes visando o seu crescimento e internacionalização?
A AFIA, fundada em 1979, é a associação que representa nacional e internacionalmente os fabricantes para a indústria automóvel instalados em Portugal. É o seu porta-voz junto das autoridades e outras instituições, tanto portuguesas como no estrangeiro, e divulga o sector junto da comunicação social e de entidades terceiras.

A AFIA promove a internacionalização e as exportações das empresas nacionais, apoia compradores estrangeiros a encontrar fornecedores portugueses e apoia os investidores estrangeiros no início e na integração de novas actividades em Portugal, tendentes a alargar a base industrial portuguesa e a reforçar o setor.

De que forma atua a AFIA e quais os grandes temas do setor que defende como estratégicos?
Para potenciar o crescimento, promovemos o setor junto de mercados-alvo selecionados, através de missões a países ou a clientes específicos, participações conjuntas em feiras, estabelecimento de contactos com potenciais novos clientes, ações conjuntas com instituições nacionais e estrangeiras para promoção do setor e divulgação das suas potencialidades e ainda divulgação de informação relevante para os exportadores.

No campo da competitividade, desenvolvemos ações para melhorar o desempenho dos fornecedores da indústria automóvel, estabelecendo encontros – genéricos ou temáticos – para troca de informação, intercâmbio de boas práticas e valorização mútua e para estreitamento de relações entre as entidades do setor.

Defendemos direta e indiretamente, junto das empresas e junto das autoridades nacionais, todas as questões com implicação na competitividade das empresas. Incluímos aqui temas como a produtividade, a flexibilidade laboral e a simplificação administrativa, a inovação de processo e métodos de trabalho – incluindo o que se vem designando por Indústria 4.0 –, questões logísticas, a investigação, a inovação e a melhoria contínua nas empresas, mas também temas de natureza macroeconómica como os custos do trabalho e da energia, a fiscalidade e outros custos de contexto.

Finalmente, garantimos nos órgãos de comunicação em Portugal uma presença assídua, de forma a divulgar o setor e a transmitir notícias e informações sobre a sua evolução e necessidades.

Que ações tem promovido a AFIA com vista ao desenvolvimento de um cluster do setor? De que forma pode o cluster potenciar a competitividade da indústria automóvel nacional?
A AFIA e a ACAP foram as principais promotoras da criação da MOBINOV – Associação do Cluster Automóvel, constituída no passado mês de abril, que será a plataforma agregadora de conhecimento e competências no âmbito da indústria automóvel em Portugal, a exemplo do que sucede noutros países – nomeadamente em Espanha – com grande sucesso.

São associados da MOBINOV os construtores de automóveis, os fabricantes de componentes e ainda uma série de Entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional, que se unem com o objectivo declarado de promover uma maior cooperação entre si, ultrapassando barreiras do passado (Construtores versus Fornecedores, Indústria versus Universidades) e assim criar condições para a obtenção de níveis de inovação e desenvolvimento tecnológico alargados, potenciando a competitividade internacional da indústria automóvel portuguesa.

O Cluster, cujo reconhecimento pelo IAPMEI está iminente, é também um possível instrumento de fomento industrial do governo e como tal será garantidamente beneficiário de apoios públicos e de financiamento comunitário.

Uma das prioridades do Conselho Diretor da AFIA para os próximos dois anos será a organização e dinamização da MOBINOV, em cuja gestão se propõe assumir um papel ativo em conjunto com outras entidades do setor. A cooperação, no âmbito do Cluster, com a ACAP, com os construtores de automóveis instalados em Portugal e com uma série de Entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional permite perspetivar um importante salto qualitativo em termos de coordenação de esforços e promoção do setor.

Pode traduzir, em números, a importância indústria de componentes automóveis em Portugal?
A indústria automóvel em Portugal é muito forte e tem um peso importantíssimo no emprego e no PIB nacionais. É constituída por três áreas de atividade complementares, todas elas de dimensão muito significativa: fabrico de moldes, fabrico de componentes e fabrico de viaturas automóveis.

Dentro desta indústria, o setor de fabrico de componentes tem claramente o maior peso, sendo constituído por umas 200 empresas representando 42.000 postos de trabalho diretos, com um volume de negócios agregado (não consolidado) de cerca de oito mil milhões de euros, e um volume de exportação que estimamos poderá em 2016 ultrapassar os sete mil milhões de euros, o que – para situar o valor – é muito mais do que as exportações de calçado e vestuário somadas.

 

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Quais os principais fatores de competitividade das empresas do setor, designadamente as de componentes?
A significativa dimensão do mercado ibérico, onde se produzem cerca de três milhões de veículos por ano (Espanha é o segundo maior produtor europeu de automóveis) permite às empresas aceder a um importante mercado regional com vantagens logísticas.

Comparando-nos com os nossos concorrentes situados na Europa, Portugal tem vindo a melhorar a relação entre os níveis salariais e as competências dos colaboradores, o que, aliado a uma maior flexibilidade das leis laborais, nos tem permitido voltar a concorrer contra os países do Leste europeu, que durante muitos anos foram competidores imbatíveis para as nossas empresas e na captação de investimento internacional.

Como a indústria automóvel em Portugal se começou a desenvolver a partir de 1960 e sobreviveu a várias crises, as empresas do setor sustentam-se numa sólida tradição industrial, praticam conceitos de gestão modernos e exigentes e gozam internacionalmente de uma imagem de elevada credibilidade.

Os fabricantes de componentes têm um longo historial exportador, um elevado grau de internacionalização e uma boa experiência a lidar com múltiplos clientes em variados mercados.

O setor já tem uma massa crítica significativa e conta com uma presença importante de empresas estrangeiras e uma rede de subfornecedores e prestadores de serviços competentes.

Nas empresas encontram-se elevados conhecimentos de línguas estrangeiras, capacidade de relacionamento com outras realidades, sensibilidade intercultural, adaptabilidade, flexibilidade, capacidade de aprendizagem e assimilação. A qualidade é prioritária e praticamente todas as empresas estão certificadas, garantindo níveis de qualidade extremamente elevados nos produtos, nos serviços e nas organizações.

Cada vez mais empresas desenvolvem internamente atividades de engenharia orientadas para a inovação e melhoria contínua dos seus produtos e processos.

Quais os principais desafios que a indústria automóvel nacional enfrenta, que barreiras se colocam ao seu desenvolvimento?
A deslocalização da produção de viaturas para o Leste europeu e para a China por imposição política, e a consequente deslocalização da fabricação dos componentes associados, têm constituído um desafio sério às nossas exportações e à captação de investimento estrangeiro.

Exportando o grosso da sua produção para mercados totalmente abertos e globalizados e concorrendo livremente com todos os outros países num contexto de enorme competitividade de preços, todas as questões ligadas a custos se revestem de extrema relevância.

Apesar de Portugal ter os custos salariais mais baixos da Europa Ocidental, não se pode ignorar que competimos directamente contra países com custos de trabalho muito inferiores, nomeadamente Marrocos. Uma excessiva inflação dos custos salariais, assim como qualquer retrocesso na flexibilidade laboral, representariam um agravamento dos fatores de competitividade da economia portuguesa, que iria beneficiar diretamente os países nossos concorrentes.

O atual quadro legal português ainda não permite às empresas de uma forma suficientemente expedita, desburocratizada e sem custos extra adaptarem a laboração às variações de curto prazo do fluxo de encomendas, ao contrário do que acontece noutros países.

Também o crescente custo da energia e a ocasional má qualidade do abastecimento elétrico têm prejudicado a competitividade das empresas.

A longo prazo, há que considerar como riscos para o setor as alternativas para a mobilidade e as pressões ambientais contra o uso individual do transporte rodoviário, que poderá comprometer todo o futuro do automóvel.

 

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Têm sido realizadas diversas ações no sentido de fomentar o desenvolvimento de uma rede de fornecedores portugueses junto de investidores e compradores estrangeiros. Que análise faz desta iniciativa?
Consideramos as ações positivas, mas não tem havido suficiente colaboração e coordenação entre as iniciativas promovidas por entidades públicas e pelas privadas, nomeadamente associações, havendo nisso provavelmente responsabilidades de ambas as partes. Há seguramente um grande potencial para melhoria.

As instituições públicas e organismos do Estado deveriam eleger as associações como seus interlocutores privilegiados, em lugar das empresas individuais. Infelizmente verifica-se com frequência o inverso, com o risco de se tomarem decisões que podem carecer duma visão global quanto ao seu impacto sobre todo o setor, omitir aspetos que poderiam ser valorizadores, favorecer umas empresas em detrimento doutras, criando injustiças e distorcendo a concorrência em favor das empresas mais influentes.

Tratando-se de um setor com uma forte componente exportadora, quais os mercados de maior expressão em termos de internacionalização das empresas portuguesas?
E que mercados apresentam potencial para o aumento das exportações? O setor de componentes exportou em 2015 cerca de 84 por cento da sua produção, estando portanto pouco dependente das fábricas de automóveis implantadas em Portugal.

As empresas do setor fornecem componentes para a quase totalidade dos modelos de automóveis fabricados na Europa. Por ordem decrescente, na maior parte dos casos os componentes são vendidos diretamente aos fabricantes de automóveis, noutros casos através de integradores de sistemas e, numa terceira situação, as peças destinam-se ao mercado de reposição.

Os maiores mercados e respectivas quotas- -partes nas nossas exportações são a Espanha (24 por cento), seguida da Alemanha (22 por cento), França (14 por cento) e o Reino Unido (11 por cento), tendo este último vindo a crescer mais fortemente. Cerca de 20 por cento das exportações vão para os restantes países da Europa e 10 por cento para fora da Europa (Ásia, Américas e África).

Em todos os mercados há neste momento potencial para crescimento, desde que a envolvente económica em Portugal o permita e as empresas saibam tirar o maior partido das suas capacidades.

Na sua opinião, de que maneira poderá o país continuar a atrair os investidores estrangeiros, aumentando, dessa forma, a competitividade do setor?
Proactivamente, Portugal (entenda-se as entidades públicas em coordenação com as privadas) deveria ter um plano de contacto com todos os construtores de automóveis e com os grandes fornecedores/integradores internacionais de componentes (os “Tier 1”) para captar os seus projetos e investimentos.

Deveríamos promover as nossas capacidades, incluindo a disponibilidade de engenheiros, incentivando e oferecendo condições vantajosas e atrativas para a instalações de centros técnicos, potenciadores de a prazo serem instaladas novas unidades industriais ou ampliadas as existentes. Finalmente, a terrível realidade da Justiça em Portugal, a burocracia assim como a instabilidade legislativa, regulamentar e fiscal são fatores unanimemente reconhecidos como principais perturbadores e inibidores da competitividade e do investimento estrangeiro.




TOMÁS DE CARVALHO ARAÚJO MOREIRA

 

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Tomás Moreira é presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel desde 2013, instituição por onde já tinha passado duas vezes anteriormente.

É também dirigente no grupo alemão KIRCHHOFF Automotive desde 1993, exercendo funções de Desenvolvimento de Mercados tanto em Portugal como em Espanha, França e América do Sul.

Nascido em 1957 no Porto, onde reside, frequentou o Colégio Alemão do Porto até ao 12º ano, após o que se licenciou em engenharia eletrotécnica na TUM – Universidade Técnica de Munique.

Iniciou a sua carreira profissional em 1980 no grupo de empresas Indústrias Molaflex, que na altura pertencia à sua família, tendo, ao longo da sua carreira profissional, ocupado cargos de administração e gerência em várias empresas industriais de diversa dimensão, tanto nacionais como estrangeiras.

Em representação da AFIA tem sido orador em Seminários e Congressos, foi administrador do CEIIA e junto da CIP é membro dos respetivos Conselho Geral e Conselho da Indústria.



 

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