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O que Portugal precisa para crescer – o exemplo da SIMOLDES

PROJETOS EXPRESSO PAÍS

A transição digital e climática, a pandemia e a guerra são consideradas o gatilho para adotar um novo paradigma económico

in Expresso, textos Ana Baptista, foto Rui Duarte Silva, 26-08-2022


O nome é Simoldes, mas há mais de 40 anos que esta empresa faz mais do que apenas moldes para a indústria automóvel. Foi nessa altura que começou a fazer também os componentes que eram criados a partir desses moldes, dando, assim, um primeiro passo para que, no início dos anos 2000, começasse a inovar nos materiais desses componentes, tentando torná-los mais leves. Para isso recorreu a fundos europeus e a parcerias com centros tecnológicos e foi assim que surgiu, por exemplo, uma consola de teto “que pesa menos 30% e é mais fácil de montar”, explica o diretor de inovação, Júlio Grilo. Um produto que “só se faz aqui em Portugal” e, como tal, teve um grande impacto na empresa e na faturação. Foi também desta forma, com recurso a fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e a uma parceria com o laboratório Vasco da Gama, no Porto, que surgiu a célula de sódio para baterias de carros elétricos e/ou para armazenamento de energia em edifícios ou parques eólicos e solares. Uma solução que, por ser complementar ao lítio, terá valor acrescentado.

Este percurso da Simoldes é um claro exemplo da estratégia que, de acordo com um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), as empresas portuguesas devem adotar para crescer e, dessa forma, contribuir para a economia portuguesa, que, diz o documento, precisa de um novo paradigma porque está estagnada há 20 anos (ver caixa em baixo). De acordo com Fernando Alexandre, economista e coordenador do estudo, neste novo paradigma as empresas têm de apostar mais em inovação e parcerias com centros tecnológicos e universidades para criar produtos e serviços que só se façam em Portugal para que possam cobrar preços mais altos. Desta forma terão mais margens, mais dinheiro para pagar salários maiores e para contratar pessoas mais qualificadas, o que permitirá baixar a emigração, aumentar a população ativa e reduzir o envelhecimento. Além disso, Portugal passaria a ser visto como um país de mão de obra qualificada, com empresas que fazem produtos únicos e cujo valor fica no país, em vez de ser visto como um país de mão de obra barata onde se fabricam produtos que podem ser feitos em qualquer lado e cujo valor vai para uma casa-mãe estrangeira.

O MOMENTO É AGORA

Quando saiu o estudo da FFMS, a pandemia ainda estava em força e a inflação e os preços da energia já estavam a subir. Mas, pouco depois, tudo se alterou. Houve eleições antecipadas e um Orçamento do Estado tardio, e começou a guerra na Ucrânia, fazendo subir ainda mais os preços da energia, a inflação e também as taxas de juro. Em contrapartida, a pandemia acalmou e entrou-se numa fase de recuperação económica em que a transição climática e digital ganharam ainda mais força. Ou seja, se em 2021 fazia sentido um novo paradigma, agora faz ainda mais, até porque, diz o economista Ricardo Reis, “em termos económicos, nada disto é mau, é uma mudança de desafios, e se Portugal está estagnado há 20 anos tem de gostar de mudanças”. Até porque, além da elevada quantidade de fundos europeus que vão estar disponíveis nos próximos anos por causa do PRR, a guerra trouxe uma reorganização das cadeias globais de valor e de abastecimento que podem trazer mais investimento e projetos para o país. Como a construção de um gasoduto entre Portugal e a Europa Central que, diz Fernando Alexandre, devia ser usado pelo Governo como condição para construir também as interligações elétricas para exportar renováveis, ou seja, energia “que é nossa e nos permite ganhar mais dinheiro”.

Mas, há sempre um mas. Ou vários. Para este paradigma ser adotado impõe-se “a alteração de aspetos estruturais no que respeita à burocracia associada à abertura e encerramento de empresas, ao licenciamento, ao pagamento de impostos, aos prazos de pagamento, etc. Por outro lado, as infraestruturas portuárias, aeroportuárias e ferroviárias estão subdimensionadas para as necessidades associadas à mudança proposta”, conclui Cristina Casalinho, da administração da Fundação Calouste Gulbenkian.

 


 

DEBATER OS DESAFIOS QUE ENFRENTAMOS

O coordenador do estudo Fernando Alexandre, o economista Ricardo Reis, a professora na Universidade Católica de Lisboa Fátima Barros, e Amélia Santos, CEO da Innuos, são os convidados do primeiro debate sobre este novo paradigma para a economia portuguesa, que será transmitido na SIC Notícias a 29 de agosto, às 20h. A 16 e 20 de setembro haverá, respetivamente, mais uma análise e debate sobre o sistema científico e tecnológico, considerado um tema essencial neste novo paradigma.

ESTUDO: O ESTADO DA ECONOMIA

  • Entre 2000 e 2019, o PIB real e per capita cresceram ambos 15%, atirando Portugal da 15ª para a 19ª posição na UE-27. E juntando os anos da pandemia — 2020 e 2021 — o país caiu ainda mais, para a 21ª posição, porque o que fez subir o PIB foi, maioritariamente, o turismo, o sector que mais sofreu com a covid-19.
  • A pandemia foi também responsável pelo agravamento da dívida pública que, em 2020, ultrapassou os 130% do PIB, e do endividamento das empresas. Segundo dados da FFMS, “a dívida total do Estado, das sociedades não financeiras e dos particulares diminuiu de 380% do PIB em 2012 para cerca de 300% em 2019”, mas em 2020 voltou a subir para os 330%.
  • Nestes 20 anos, o nível de vida agravou-se e 30% da população que vive em situação de pobreza tem um emprego, ou seja, um salário muito baixo. E mesmo os que não vivem em pobreza têm salários baixos, o que faz crescer a migração, reduz a população ativa e qualificada e aumenta o envelhecimento. Dados recentes da Pordata mostram que entre 2015 e 2020 Portugal foi o país da UE em que a população idosa mais cresceu.
  • As taxas de juro subiram de -0,5% para 0%, o que pode agravar o custo da dívida das empresas portuguesas mas, segundo Cristina Casalinho, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um novo mecanismo que assegura custos de financiamento similares para empresas com a mesma avaliação de crédito, onde quer que estejam.

 

IDENTIFICAR OBSTÁCULOS E OPORTUNIDADES

Os desafios estruturais ao crescimento da economia portuguesa exigem um novo paradigma. A Fundação Francisco Manuel dos Santos — à qual o Expresso se associa — reuniu uma equipa de reputados economistas para realizarem um estudo para identificar os obstáculos e as oportunidades que permitam contribuir para a definição de políticas públicas que sejam promotoras de um crescimento sustentável da economia portuguesa.

 

 

A Simoldes, em Oliveira de Azeméis, fábrica de componentes para automóveis, estuda e desenvolve desde 2010 produtos com materiais mais leves que são únicos no mercado

 

 

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