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Sector de componentes automóveis exige solução ferroviária a Norte para mercadorias

Oitenta por cento desta indústria, que facturou em 2018 o equivalente a 5% do PIB, está localizada a norte de Leiria. Por isso, rejeitam a utilidade da ligação Sines-Badajoz

in Público, por Victor Ferreira, 24-01-2019


 

A venda de componentes de carros para o estrangeiro vai de vento em popa mas no horizonte surgem alguns ventos de adversidade. E uma das coisas que preocupam os industriais deste sector é a falta de carris para escoar produto. O sector, que exportou 83% do que produziu em 2018, reclama uma alternativa ferroviária que ligue Aveiro a Salamanca, rejeitando a alternativa Sines-Badajoz. É a sobrevivência do sector que está em causa, dizem, dado que a ferrovia serviria para baixar os custos de transporte da mercadoria acabada e das matérias-primas, que vêem maioritariamente da Europa.

Esta reivindicação já tinha sido expressa pela própria Confederação Empresarial de Portugal, e reemergiu nesta quarta-feira durante o nono encontro da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), que reuniu duas centenas de pessoas em Ílhavo.

Discutia-se os factores de competitividade desta indústria, que conta com 235 empresas (e 265 fábricas no país, 80% das quais nas regiões a Norte de Leiria), e Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive e actual presidente da COTEC, deu voz ao descontentamento deste sector em relação aos planos ferroviários que o governo tem inscritos no Programa Nacional de Investimentos 2030 (PNI 2030), que passa pela modernização da linha da Beira Alta entre Aveiro e Mangualde. A alternativa do executivo para as mercadorias com ligação a Espanha e ao resto da Europa é uma ligação a sul, entre Sines e Badajoz, contemplada no plano Ferrovia 2020, uma aposta que é rejeitada pela AFIA.

“Precisamos de uma linha que passe pelo centro industrial do país”, reclamou Isabel Furtado, que também criticou os trabalhos preparatórios do próximo quadro comunitário, o Portugal 2030. “Está neste momento a ser elaborado e, ao que me disseram, por pessoas que nada conhecem das empresas nem da indústria. Ou seja quem vai decidir se vamos ter ou não incentivos não percebe nada de indústria e do que estamos a fazer”, resumiu Isabel Furtado, cuja intervenção tocou em dois temas que foram uma constante todo o dia: o sector vai ter de enfrentar o futuro próximo, que se avizinha mais difícil, com olhos nos custos – dos quais os logísticos são dos que mais pesam – e com grandes necessidades de investimento, para se ajustar às grandes transformações por que passa o sector automóvel, com a chegada da mobilidade eléctrica, conectada e partilhada.

Questionado pelo PÚBLICO sobre esta exigência das empresas em relação à ferrovia, o secretário de Estado da Economia, João Correia Neves, disse que o ministério a que pertence só pode ajudar a “construir um quadro de referência para que essa discussão seja feita em torno de alternativas”. Sendo um tema tutelado pelo Ministério do Planeamento, este governante salientou a importância de essa discussão ser feita “com todos os parceiros e agentes políticos, à procura de soluções que sejam as mais adequadas possíveis”.

Estagnação no horizonte
Em cada 100 carros produzidos na Europa em 2018, 98 têm componentes fabricados em Portugal, o que mostra uma elevada incorporação da produção nacional e reforça as mensagens que foram circulando sobre a necessidade de uma alternativa de transporte à rodovia. O sector “tem vivido tempos bons”, nas palavras de Tomás Moreira, presidente da AFIA, com o volume de negócios a ascender aos 11,3 mil milhões de euros (ou 5% do Produto Interno Bruto português). As vendas ao exterior foram de 9400 milhões de euros, sendo 16% das exportações portuguesas de bens transaccionáveis. Para um sector que tem “apenas” 235 empresas, mas 55 mil trabalhadores, o valor acrescentado bruto por trabalhador foi de 48 mil euros – mais 50% do que a média da indústria transformadora portuguesa.

Porém, avizinha-se “uma fase de grandes mudanças”, alertou Tomás Moreira e já paira no ar “receios de estagnação”.

Uma das fragilidades é a dependência do mercado europeu, onde a produção de automóveis caiu “drasticamente” no último quadrimestre de 2018, segundo os dados revelados por Pedro Carvalho, da direcção da AFIA. Na Europa, construíram-se 22 milhões de carros no ano passado, uma variação global de -0,1%, que não pode fazer esquecer a mensagem essencial: houve uma travagem a fundo na Europa, que absorve 92% das exportações nacionais, pelo que é preciso encontrar outros mercados.

Para o líder da AICEP, Luís Castro Henriques, que apresentou no encontro três desafios à indústria, um dos caminhos é diversificar os mercados de destino, apontando baterias para a Ásia, que é o maior fabricante e o maior consumidor de automóveis em termos mundiais.

 

 

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