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“Quadro legal português dificulta adaptação a variações de encomendas”

TOMÁS MOREIRA, PRESIDENTE DA AFIA, AVISA PARA RISCOS PARA EXPORTAÇÕES DE COMPONENTES

in Vida Económica, por Aquiles Pinto, 08-02-2019


 

A indústria portuguesa de componentes automóveis bateu, pelo quinto ano consecutivo, o recorde de volume de negócios em 2018. As vendas globais terão atingido 11,3 mil milhões de euros (uma subida de 8% face a 2017), maioritariamente (83%) canalizadas para os mercados internacionais. A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) avisa, porém, para riscos de uma inversão desse crescimento exportador. “Ao contrário do que acontece em outros países, o quadro legal português não permite às empresas, de uma forma suficientemente expedita, desburocratizada e sem custos extra, adaptarem a laboração às variações de curto prazo dos fluxos de encomendas, o que lhes causará problemas se o mercado começar a mostrar um comportamento irregular”, explica, em entrevista à “Vida Económica”, Tomás Moreira, presidente da AFIA.

Vida Económica – “Crescimento na Mudança” foi o tema que a AFIA escolheu para o 9º Encontro da Indústria Automóvel, realizado pela AFIA, em Ílhavo, a 23 de janeiro. Porquê?
Tomás Moreira – Com a indústria automóvel portuguesa a manter recordes de crescimento nos últimos anos em termos de exportações, investimento, criação de emprego e volume de negócios, a AFIA alerta para as pressões que o setor sente, fruto das profundas mudanças que está a enfrentar. O tema “Crescimento na Mudança” pretendeu debater e encontrar formas de manter um crescimento sustentado numa altura em que se verifica alguma estagnação do mercado, com incertezas quanto ao crescimento futuro. Neste encontro as entidades relacionadas com a área automóvel trocaram experiências e refletiram sobre os principais temas que envolvem o setor nos nossos dias.

VE – Pode-se afirmar que o setor mudou mais nas duas décadas já decorridas do século XXI do que no século anterior?
TM – A indústria automóvel é pioneira em inovações tecnológicas, sendo que muitas delas são, depois, também absorvidas e replicadas por outras indústrias. O setor investe fortemente em inovação técnica, o que promove uma evolução muito rápida, podendo, de facto, afirmar-se que o ritmo de mudança está a acelerar. E sem dúvida estão a acontecer mutações profundas nos veículos, na sua produção e na mobilidade em geral, designadamente para responder aos desafios da descarbonização, das motorizações alternativas, da condução autónoma, de novos conceitos de mobilidade, da indústria 4.0 e da digitalização da produção e dos veículos.

VE – O setor industrial automóvel português, e em particular o dos componentes, está a acompanhar a mudança?
TM – Os fabricantes de automóveis e os seus fornecedores investem continuamente em tecnologias inovadoras que ofereçam ao mercado automóveis mais seguros e mais automatizados, tendencialmente autónomos, e soluções mais amigas do ambiente. O setor está atento às evoluções e as empresas estão a tomar as decisões necessárias no sentido de se prepararem e adaptarem para as mudanças que se anunciam no médio e longo prazo. Neste momento já produzimos em Portugal componentes para os modelos de carros elétricos mais carismáticos como os BMW i3 e i8, Nissan LEAF ou Renault Zoe.

VE – Como foi 2018 para as empresas associadas da AFIA em termos qualitativos e quantitativos?
TM – A indústria portuguesa de componentes automóveis no ano 2018 bateu, e pelo quinto ano consecutivo, o recorde de volume de negócios. Estimamos que as vendas globais terão atingido 11,3 mil milhões de euros, uma subida de 8% face a 2017. As vendas para o mercado externo terão totalizado 9,4 mil milhões de euros (+6% face a 2017), enquanto as vendas para o mercado nacional terão aumentado 20%, para os 1,9 mil milhões de euros. Em termos de quota, as exportações representam 83% da atividade das empresas, sendo que o mercado nacional absorve os restantes 17%. O mercado nacional cresceu fortemente em 2018, fruto de novos veículos de grande cadência que iniciaram produção nas fábricas da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, e na PSA, em Mangualde, como se sabe. Em termos de volume de emprego, entre 2010 e 2018 foram criados 15 mil novos postos de trabalho. Assim, em 2018, a indústria de componentes automóveis empregava, diretamente, 55 mil pessoas. Em termos de importância na economia nacional, as empresas que integram a indústria de componentes automóveis representam na sua totalidade 5% do PIB, 8% do emprego da indústria transformadora e 16% das exportações nacionais de bens, contribuindo, assim fortemente, para o equilíbrio das contas externas do país. Para 2019 é esperado que o setor se mantenha estável no patamar dos 11 mil milhões de euros.

VE – A AFIA avisou, recentemente, que o crescimento das exportações do setor de componentes para a indústria automóvel pode abrandar fortemente no médio prazo. Quais os principais riscos?
TM – Os sinais do exterior causam alguma apreensão, nomeadamente o novo ciclo de medição do consumo e emissões, o chamado WLTP (“Worldwide Harmonised Light Vehicles Test Procedure”), as restrições/proibições em diversas metrópoles europeias da circulação de carros a diesel, os novos conceitos de mobilidade, tudo isto levará a uma previsível diminuição do volume de carros produzidos na Europa. Ao contrário do que acontece em outros países, o quadro legal português não permite às empresas, de uma forma suficientemente expedita, desburocratizada e sem custos extra, adaptarem a laboração às variações de curto prazo dos fluxos de encomendas, o que lhes causará problemas se o mercado começar a mostrar um comportamento irregular.

VE – Como se podem resolver?
TM – Exportando o grosso da sua produção para mercados totalmente abertos e globalizados e concorrendo livremente com todos os outros países num contexto de enorme competitividade de preços, todas as questões ligadas a custos se revestem de extrema relevância. Apesar de Portugal ter os custos salariais mais baixos da Europa Ocidental, não se pode ignorar que competimos diretamente contra países com custos de trabalho muito inferiores, nomeadamente Marrocos, na nossa zona geográfica direta. Uma inflação dos custos salariais superior à produtividade, assim como qualquer retrocesso na flexibilidade laboral, representariam um agravamento dos fatores de competitividade da economia portuguesa, que nos prejudicam no confronto com os países nossos concorrentes. Também o elevado custo da energia – dos maiores da Europa e incluímos aqui a eletricidade, o gás e os combustíveis líquidos – e a elevada fiscalidade que pesa sobre as empresas têm prejudicado a competitividade destas. As empresas enfrentam a necessidade de investir permanentemente para inovarem, para introduzirem novas tecnologias mais produtivas e para crescerem: o financiamento das empresas é, por isso, outro fator crítico. Todas as possíveis melhorias nestes constrangimentos iriam permitir à indústria de componentes automóveis crescer ainda mais sustentadamente.

 

 

 

 

 

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