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Presidente da AFIA “Momento é oportuno para investimento de um construtor automóvel em Portugal”

A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) defende uma ação concertada na atração de investimento direto estrangeiro, através da captação de uma nova fábrica de automóveis e de grandes fornecedores de sistemas. 

in Vida Económica, por João Luís de Sousa e Aquiles Pinto, 21-08-2015

“A indústria automóvel entrou numa nova fase de expansão e de abertura de novas fábricas no espaço europeu, sendo este momento oportuno para captar investimento por parte de construtores estrangeiros”, afirma, em entrevista à “Vida Económica”, o presidente da AFIA. Tomás Moreira considera ainda que, “a verificar-se a instalação de uma nova fábrica de automóveis em Portugal tudo aconselharia a que esta se localizasse no Norte, para aproveitar a proximidade das empresas fornecedoras e os custos mais baixos”.

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“Portugal tem vantagens competitivas e estratégicas evidentes”, salienta Tomás Moreira.

Vida Económica – Em que áreas da indústria de componentes é o nosso país mais competitivo?
Tomás Moreira – O setor de fabrico de componentes em Portugal inclui indústrias ligadas a técnicas muito diversas, desde a metalomecânica até à eletrónica, passando pelos plásticos, borrachas, revestimentos, vidro, etc., habitualmente indústrias de capital intensivo e com algum grau de exigência tecnológica. Todas estas atividades são competitivas, como demonstram os elevados valores de exportações, que no ano de 2014 ascenderam aos 6.200 milhões de euros, o que representa 83% do seu volume de negócios. Portugal é proporcionalmente menos competitivo nas atividades com elevada intensidade de mão de obra, que na última década se transferiram para países com custos de mão de obra mais baixos (Norte de África, Europa do Leste, China).

VE – O crescimento deste cluster deve continuar a assentar na indústria de componentes ou poderia passar pela instalação de uma nova fábrica tal como aconteceu na década de 90 com a Autoeuropa?
TM – A AFIA defende uma ação concertada na atração de investimento direto estrangeiro, através da captação de uma nova fábrica de automóveis e de grandes fornecedores de sistemas. É de enfatizar o enorme potencial e a grande importância que teria para Portugal um investimento de um construtor automóvel, com todo o conhecido efeito a montante para todo o tecido industrial do setor. A indústria automóvel entrou numa nova fase de expansão e de abertura de novas fábricas no espaço europeu, sendo este momento oportuno para captar investimento por parte de construtores estrangeiros. Portugal tem vantagens competitivas e estratégicas evidentes que devem ser evidenciadas, tentando desviar trazer as novas fábricas para o nosso país. A AFIA considera que a AICEP e o Governo não estão suficientemente empenhados no aproveitamento desta dinâmica e que Portugal está a desperdiçar oportunidades.

VE – Que fatores determinam a concentração das empresas do setor na região Norte?
TM – A concentração na região Norte das empresas é o reflexo da tradicional maior concentração industrial e dinamismo empresarial nesta região. O Norte tem vantagens de custos significativas em relação à região da Grande Lisboa; todo o restante terço mais meridional do país não tem vocação industrial. A verificar-se a instalação de uma nova fábrica de automóveis em Portugal tudo aconselharia a que esta se localizasse no Norte, para aproveitar a proximidade das empresas fornecedoras e os custos mais baixos.

VE – A dimensão e peso negocial dos construtores de automóveis cria uma situação de desequilíbrio face às PME fornecedoras em termos de preços e condições de pagamento?
TM – Em termos de preços, a construção automóvel é, de facto, caracterizada por poucas e grandes empresas clientes, com um enorme poder negocial, pelo que as negociações de preços são muito duras. Quanto às condições de pagamento, são boas e escrupulosamente respeitadas, sendo muito raro verificarem-se atrasos nos pagamentos. No entanto, as empresas fornecedoras têm que fazer com regularidade avultados investimentos que só começam a ter retorno passados 24 ou mesmo 36 meses. Nesse sentido as PME têm que ter uma gestão eficaz e eficiente da sua tesouraria de longo prazo de forma a evitar desequilíbrios. Esta situação pode tornar-se crítica em função da grande dificuldade de financiamento por parte da nossa banca que entende mal os constrangimentos deste tipo de negócio.

VE – Há espaço e oportunidades para a criação de novas empresas neste setor?
TM – Num setor tão dinâmico há sempre espaço para novas empresas e os compradores estão abertos a dar-lhes oportunidades. Sendo uma indústria global e sujeita a enorme concorrência, novos atores só conseguirão vingar se forem fortemente inovadores ou então extremamente competitivos em termos de custos. A segunda opção – competitividade através dos custos – é muito difícil de atingir em Portugal, considerando que países com os quais concorremos apresentam vantagens significativas em termos de custos de trabalho, energia, logística, financiamento e impostos, conforme a AFIA tem vindo a alertar as nossas autoridades. Para empresas portuguesas que queiram entrar agora no setor parece portanto só haver oportunidades através da inovação disruptiva ou radical em termos de produtos, serviços ou tecnologias e processos.

VE – Cerca de metade das empresas são de capital estrangeiro. Atual dinâmica de investimento sente-se mais nas empresas estrangeiras ou nas empresas de capital nacional?
TM – Para se manterem competitivas as empresas são obrigadas a um esforço contínuo de modernização, pelo que o investimento em tecnologia e em processos faz parte do dia a dia de todas as empresas, independentemente da origem do seu capital. Isso não impede que alguns dos grandes investimentos mais recentes tenham origem em empresas estrangeiras, algumas por ampliação de atividades já existentes no nosso país, outras através de investimentos de raiz. Esta dinâmica demonstra bem a vitalidade do setor e o momento favorável que se atravessa em termos de investimento internacional.


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