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«No futuro, os robôs é que irão resolver problemas»

Fernando Merino, diretor de inovação da ERT, afirmou, em entrevista ao Jornal Têxtil, que a área automóvel continua a ser a galinha dos ovos da produtora de têxteis técnicos, que continua a investir em vários projetos de I&D em parceria com centros de saber, nomeadamente na área da saúde e da economia circular, para a revalorização de desperdícios.

in Jornal T, 13-06-2018


A empresa de S. João da Madeira apontou as baterias ao México e à China, onde pretende estabelecer-se no futuro, com o objetivo de se transformar num fornecedor global. Mas, para já, todas as atenções estão voltadas para a abertura de uma unidade em Marrocos.

Quando começaram nos anos 90, o negócio da ERT era bem diferente do que é hoje.

A empresa, quando foi constituída há 25 anos, basicamente atuava num monoproduto, mas desde o início que foi sempre de têxteis técnicos. Fala-se muito na reconversão das empresas, de passar dos têxteis tradicionais para os técnicos, mas a ERT começou logo com técnicos e que é um produto colado com uma espuma para o interior de um calçado, que hoje produz com muito menos expressão. A evolução que houve nestes anos foi que, fruto do domínio de uma tecnologia que era um processo de colagem por chama, se começou a fazer a colagem de têxteis com espumas para outras aplicações. E a partir daí entramos em estofos, nas utilidades domésticas e, oito anos depois do início de atividade, surgiu a oportunidade de trabalhar para o sector automóvel. Isso aconteceu em 2000, com a colagem de um têxtil para uma capa do assento de uma Chrysler Voyager, e daí para cá tem sido um caminho de crescimento, de investimento em tecnologias e em novos processos. A empresa deixou de ser apenas de colagem para também passar ao corte e costura e, além de trabalhar com têxteis, ainda estamos no corte de couro. Há dois anos que temos igualmente uma fábrica que injeta poliuretano. O nosso core hoje é o interior dos automóveis e tudo o que fazemos é para os maiores players mundiais de fornecimento das marcas e das linhas de montagem.

E quanto às outras atividades industriais da empresa?

A ERT nunca abandonou o negócio não-automóvel, que vale aproximadamente 10% do volume de negócios. Mas a atividade no sector automóvel está em franco crescimento – a empresa cresceu nos últimos anos a dois dígitos e continua a fazê-lo, maioritariamente devido à área automóvel. O que estimamos para o futuro é que continue a crescer neste segmento e também perspetivamos que possa continuar a aumentar naquilo que é considerado a mobilidade, como a ferrovia e a náutica. E, eventualmente, também nos aviões.

No caso dos aviões, qual é a estratégia?

Há seis anos que fazemos parte do painel de fornecedores da TAP, ou seja, somos consultados, para apresentar propostas quando há necessidade de recrutar fornecedores, nomeadamente no mercado nacional. Não fornecemos.

Estamos a espreitar oportunidades de entrar nessa área a nível da inovação que é o mesmo que estamos a fazer no caso da ferrovia. O negócio que temos na área da ferrovia é muito pequeno, mas há projetos de inovação em curso. Terminámos um recentemente e temos outro a decorrer, com parceiros nacionais. Estamos também com um projeto que em setembro, em parceria, vai estar em exposição em Berlim na maior feira do mundo [ferroviária].

Esta área da ferrovia já recebeu mais investimento do que agora, nunca se avançou com a Alta Velocidade. Este negócio tem futuro em Portugal?

Tem algum futuro tendo em conta que, com ou sem Alta Velocidade, são precisas melhorias no interior dos comboios, em várias linhas não só na do Norte, mas também nas suburbanas, que de xis em xis anos têm-se que reformular os interiores, e tudo isto são oportunidades.

É óbvio que o mercado externo é muito grande e queremos explorar. Por isso temos na nossa agenda estratégica a participação na InnoTrans em Berlim com os parceiros do consórcio, onde vamos mostrar o que somos capazes de fazer. Depois podemos identificar oportunidades e vender, no futuro, para o exterior.

São fornecedores da Autoeuropa?

Trabalhamos para empresas que fornecem a Autoeuropa, de segunda linha. Fornecemos a Volkswagen, a Porsche, a Skoda, a Audi…

Mas não têm nenhum tipo de dependência da Autoeuropa?

De maneira nenhuma. A maior parte do que exportamos é para Inglaterra, França, Espanha, Marrocos e Alemanha.

Localmente, estão presentes em quantos países?

Em alguns casos é apenas com escritórios, mas estamos presentes no negócio automóvel, com instalações industriais, em Portugal, República Checa, Roménia e, este ano, abrimos em Marrocos.

Qual é a estratégia para esse país do Magrebe?

Já tínhamos três grandes clientes em Marrocos e é um mercado de proximidade, que está a crescer muito – produz mais automóveis do que Portugal e conta com um investimento francês de grande dimensão, nomeadamente da Renault e da PSA. Nós trabalhamos para os nossos clientes que já lá estão e fornecem as linhas de montagem. Têm um negócio grande, por causa do investimento francês, e tendo em conta o crescimento desse mercado, decidimos também posicionar-nos em Marrocos, com laminagem, corte e costura.

A nossa estratégia para o mercado automóvel é transformarmo-nos num fornecedor global, ou seja, estar presente nos três principais continentes: Europa, América e Ásia. Ainda que África não seja uma prioridade, Marrocos foi, por uma questão de proximidade. Estamos perto de Espanha, que é o segundo maior construtor europeu de automóveis. A perspetiva de nos tornarmos um fornecedor global obriga a piscar o olho a investimentos no México e na Ásia, nomeadamente na China. Esses são os dois que estão em avaliação.

Em relação aos EUA, acha impossível?

Faz sentido fornecer os EUA de outra localização, nomeadamente do México.

Mantêm o investimento em projetos de I&D?

Desde há alguns anos que estamos a aproveitar o melhor possível as oportunidades proporcionadas pelo QREN. A nossa estratégia é criar parcerias com centros de investigação – universidades, centros tecnológicos, etc. Temos a colaboração da Universidade do Minho, já tivemos também da Universidade do Porto. Estamos agora a começar com Aveiro e a preparar projetos nessa área. Temos em curso projetos com o Citeve, o CeNTI e outros. Estamos a avançar com iniciativas em co-promoção, com o Instituto Superior Técnico e parceiros industriais. Nos primeiros quatro anos desenvolvemos projetos no valor de quatro milhões de euros. Estamos a preparar mais duas candidaturas, uma com a participação da Universidade de Aveiro e outra com a participação também do CeNTI e do Citeve.

Que projetos são esses?

Ainda estão a ser preparados, mas com a Universidade de Aveiro será no desenvolvimento de um dispositivo médico, com o Citeve e o CeNTI, e são projetos a que temos dedicado alguma atenção nos últimos dois anos, que têm a ver com a reutilização de materiais que são tipicamente desperdícios. Estamos a apostar forte na economia circular, com valorização de resíduos.

Temos em curso três grandes projetos, para terminarem entre 2018 e 2020. O projeto de inovação em consórcio, para comboios, deverá terminar este ano. Depois, temos projetos mobilizadores com o Citeve, no âmbito do TexBoost, para terminar em 2020.

A estratégia de aquisições, que já foi aplicada por exemplo na Roménia e na República Checa, poder-se-á estender a outros países?

Em 2006 foi quando começou o processo de internacionalização da ERT, em parceria com um cliente, a Coindu. Nesse ano instalámo-nos na Roménia e, depois, em 2009, essa parceria de 50/50 estendeu-se a um grupo têxtil francês, acabando por se transformar numa parceria a três, com distribuição de capital assimétrica. Em 2012 é que foi feito um investimento na aquisição de uma insolvência na República Checa, que tinha processos complementares aos nossos e acrescentava mais-valias que não tínhamos. Abria-nos um leque de clientes diferente, concorremos e a nossa proposta ganhou. No caso de outros países, nomeadamente o México, estão a ser avaliadas novas iniciativas, mas será sempre uma joint-venture, com parceiros internacionais. No caso da China, o parceiro poderá ser local.

Como correu 2017?

No sector automóvel, a ERT em Portugal fechou o ano com um volume de negócios de 54 milhões de euros e cerca de 400 trabalhadores – cresceu muito nos últimos anos e deixou de ser PME. Na República Checa, a faturação foi de 23 milhões de euros e na Roménia de 17 milhões. Ou seja, um total de 94 milhões de euros, para um conjunto de cerca de 700 trabalhadores.

Em Portugal, ainda há uma pequena parte que não é automóvel. No total, registámos um volume de negócios de 110 milhões de euros e temos aproximadamente 1.000 trabalhadores.

Quais são as prioridades para o corrente ano?

A abertura oficial da unidade em Marrocos e o desenvolvimento do projeto na América e na Ásia. Em termos de instalações será o projeto de construção de uma nova unidade em Portugal, que vai ser aqui [S. João da Madeira], num investimento de 10 milhões de euros.

Isso implica novas contratações?

As pessoas crescem em função dos projetos. Estamos a trabalhar no sentido de consolidar o futuro através da eficiência. Começou-se a olhar mais a sério para aquilo que é a indústria 4.0. Neste momento, estando muito dispersas as unidades na zona industrial, temos problemas em termos de logística e eficiência. Ao concentrar uma grande parte dos projetos automóvel numa só unidade, construída de raiz, seremos mais eficientes. Deste modo, podemos crescer no negócio sem ter que crescer em pessoas.

Esteve no iTechStyle Summit’18 a falar de tendências para o sector automóvel. O que pode destacar-nos?

Há um processo de identificação sobre aquilo que está a acontecer com o automóvel em particular, e com a mobilidade em geral, que tem a ver com, por um lado, a mobilidade elétrica, com processos de descarbonização, e por outro lado, com os veículos autónomos. Dentro de poucos anos, estima-se um número muito grande de veículos autónomos que deverá estar nas estradas, ou então noutro tipo de vias. A partilha de veículos e a conetividade serão centrais naquilo que vai acontecer, e que é naturalmente a reconfiguração dos carros face a esse tipo de mobilidade, a autonomia, e que tipo de superfícies e de matérias é que vão ser utilizadas.

Há carros autónomos a ter acidentes na estrada. Isso pode travar a aplicação das novas tecnologias?

Por vezes ficamos assustados com o aparecimento de novas tecnologias. Será que no futuro não vamos fazer nada? Será que nos vão roubar os postos de trabalho? No futuro, os robôs, as máquinas de Inteligência Artificial, é que irão resolver problemas. O impacto da tecnologia tem coisas muito positivas, como a visão artificial, a indústria 4.0, as pessoas que vão deixar de fazer operações de manuseamento de componentes e ferramentas, em que têm que ter proteções específicas nos joelhos, cotovelos e zona lombar, para não ganharem problemas de hérnias. No futuro serão as máquinas a fazer isso.

A nova unidade da ERT já vai ter alguma das características da indústria 4.0?

Estamos no início, mas vamos aproveitar o facto de construir uma unidade para pensá-la de raiz. Começou a haver processos robotizados. Com a nova unidade serão feitos investimentos de raiz, com um controlo mais rigoroso de produção, tratamento de dados.

Queria ainda salientar que estamos a lançar, em parceria com a Simoldes, uma “call for innovation”, que é um concurso que faz a ligação àquilo que são as tendências nomeadamente do sector automóvel. Este processo está no https://inovautomovel.pt/ e o que estamos a fazer é premiar novas ideias, numa iniciativa direcionada a incubadoras nacionais, parques de ciência e tecnologia e universidades. Estamos à procura de novas soluções, conceitos e funcionalização de materiais.


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