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MOLDOESTE | Do Kitt da ficção à real conquista de Porsches e Maseratis

Fornece a generalidade das marcas do sector automóvel e aposta em assegurar as mais modernas tecnologias e os mais exigentes processos de trabalho. Aqui a turbulência é encarada como sinal de oportunidade. Para acelerar o negócio.

in Região de Leiria, por Carlos S. Almeida, suplemento 100 Maiores e Melhores Empresas do distrito de Leiria e concelho de Ourém de 2021, 21-07-2022


“Há muitas oportunidades, assim haja vontade de trabalhar e garra”. A frase de Valdemiro Teixeira, sintetiza muito do seu pensamento enquanto empresário. É, reconhece, “um otimista”. Quando muitos olham com receio para o panorama atual de mudanças geopolíticas no globo e grandes alterações tecnológicas no sector automóvel, o responsável máximo da Moldoeste vislumbra um momento interessante e recheado de desafios.

Aos 52 anos de idade, este empresário da Marinha Grande, leva quase quatro décadas de trabalho no sector. Começou na base da produção, “aos 13 anos, na ‘ferrugem’, a pintar caixotes”. Hoje lidera um grupo com duas centenas de pessoas, que fatura milhões e fornece múltiplas empresas do sector automóvel.

“Estou convencido que a Península Ibérica vai ser muito atrativa para muitos negócios” Valdemiro Teixeira Presidente do Grupo Moldoeste

Tem memórias frescas dos tempos em que começou, todavia o CNC ainda era uma novidade que se insinuava nas empresas, deixando antever revoluções produtivas que se injetaram no sector, moldando-o para se tornar de vanguarda.

Quem conviveu com os anos 80 do século passado, lembrar-se-á, pela certa, do carro preto com uma oscilante luz vermelha que nos fazia sonhar com o futuro de carros falantes e inteligentes. Ficção de então, realidade ao dobrar da esquina nos dias de hoje, o Kitt do Knight Rider interpretado por David Hasselhoff, fez delícias nos tempos de poucos canais e magra oferta televisiva.

Aqueles eram tempos diferentes. Atualmente, apenas retratáveis para quem ginastica a imaginação enquanto fã de Stranger Things, embora com algumas relevantes diferenças. Sim, Kate Bush já corria ao cimo do monte. Sim, a guerra fria opunha soviéticos e Norte-Americanos. Mas não, não se conhecem estórias verídicas de paredes que servem de morada a monstros insondáveis. Em terras lusas, as coisas eram ainda mais estranhas, vividas num país que começou a vestir em 1986, com a entrada com pé direito na CEE. Agora, que já estamos confortavelmente instalados na cronologia que nos interessa, imagine-se o jovem Valdemiro Teixeira. Em que moldes devemos imaginá-lo? Precisamente nos moldes que ajudavam a construir esse tão negro quanto futurista, carro falante, de seu nome, Kitt.

“Eu fui um dos intervenientes nesse molde do Knight Rider”, recorda. “Era tudo feito à mão”.

Na altura, em Portugal trabalhava-se sobretudo com os Estados Unidos: com gigantes dos brinquedos como a Fisher Price ou a Hasbro, por exemplo. O franchise da Guerra das Estrelas, teve algumas das suas naves, em forma de brinquedo, fabricadas na Marinha Grande, recorda.

Ainda bem jovem, Valdemiro Teixeira trabalhava para ajudar a tornar realidade a réplica, em forma de brinquedo, de um automóvel imaginado e ficcionado, o Kitt. Atualmente, três décadas depois, está na linha da frente no fornecimento de peças para os automóveis que vemos no quotidiano das nossas estradas. É que no grupo Moldoeste, que dirige, o mundo automóvel é o centro de tudo.

A EXPORTAR SOBRE RODAS

Com a quase totalidade da produção canalizada para a exportação, as cerca de duas centenas de pessoas que trabalham no grupo, estão integradas numa estrutura empresarial que tem de dar resposta às mais exigentes e conceituadas marcas do mundo automóvel.

“Felizmente, os nossos moldes e peças estão praticamente em todos os carros. Temos peças pelo mundo todo em
todo o tipo de veículos – à nossa dimensão, como é lógico, pois mesmo assim somos uma empresa pequena no âmbito deste sector”. Do automóvel mais mainstream, aos bólides da Porsche ou Maserati, “temos peças, praticamente, em todos os automóveis”.

No grupo, a percentagem de exportação aproxima-se dos 100 por cento. “0 nosso melhor cliente é a Alemanha”, explica o empresário. A lista de mercados é longa, incluindo, entre outros, França, Espanha, República Checa, Japão e Brasil.

Em tempos conturbados, numa altura em que a incerteza da geopolítica da Europa – que se rearranja -, se mistura com um sector automóvel que balança entre a subida dos combustíveis e a migração acelerada para a mobilidade elétrica, Valdemiro Teixeira encontra razões para otimismo.

“Esta turbulência pode ser uma vantagem para Portugal”, afirma. Embora a China continue a ser o grande mercado mundial, a verdade é que Valdemiro Teixeira constata que muitos fundos de investimento, até agora orientados para o Leste da Europa, estão a retrair-se.

E a olhar mais para ocidente. “Estou convencido que a Península Ibérica vai ser muito atrativa para muitos negócios”. 0 sector automóvel, vaticina, não será exceção. Há novas empresas que lançam marcas no seu próprio nome, à margem dos grandes atores deste sector, “e procuram mercados mais baratos e flexíveis”. “Para as empresas portuguesas, sobretudo pequenas e médias, é um bom momento para estarmos atentos e tentar colaborar com essas empresas que estão a nascer”.

Esta dinâmica já começa a notar-se mas, admite o empresário, pode ser só conjuntural. Ainda assim, mesmo sem conseguir antecipar a longo prazo, admite que “durante mais dois ou três anos, poderemos ter um momento interessante”.

NEGÓCIO A ACELERAR

Na Moldoeste, afirma, “estamos com muito trabalho, noto o negócio a crescer”. Com 2021 com contas consolidadas de 12 mi¬lhões de euros, prevê para 2022 subidas substanciais. Um forte investimento em instalações e tecnologia e o arrefecimento da pandemia., travaram o negócio. Este ano e nos seguintes, os investimentos vão fazer-se sentir com um “crescimento substancial”.

Sendo certo que a transição para a mobilidade elétrica pode alimentar alguns receios para as empresas do sector, Valdemiro Teixeira prefere olhar para esta mudança como apresentando “desafios”. Surgem agora veículos mais silenciosos e que necessitam de ser leves. “Os veículos elétricos são silenciosos, e as peças têm de ser concretizadas com novas tecnologias para evitar esses ruídos parasitas”, explica. Estes novos automóveis necessitam de “ser menos pesados, atendendo ao peso das baterias, e precisam que peças que usualmente seriam metálicas, sejam em plástico especial”, reforça. Resultado? “Cá estamos nós para fazer moldes para essas peças e fabricar essas peças”.

Quando se entra nas instalações do grupo Moldoeste, há uma frase impressa na parede: “Whoever fears to lose is already defeated” (Quem teme perder, parte derrotado). É relevante fazer nova visita ao passado para espreitar alguns dos contributos que ajudam a moldar a cultura de empresa que por ali se inscreve na parede. A Jigoro Kano é atribuída a frase e a criação do judo. E Valdemiro Teixeira tem essa arte marcial impressa no seu currículo. Começou a praticar em criança e teve inúmeros combates. No mundo do trabalho, também começou cedo, com vitórias e derrotas.

“Comecei a trabalhar aos 13 anos, aos 14 tive o meu primeiro contrato de trabalho oficial, aos 24 tornei-me empresário. Sou filho de pai e mãe reformada. Criei tudo a trabalhar”, sintetiza.

Se o sabor da vitória é doce, o amargo da derrota deixa a motivação para voltar ao tapete. Para vencer.

NOVOS COMBATES

Numa empresa exposta aos rigores dos processos das mais exigentes empresas do sector automóvel, – “um sector que é exigente, obriga-nos a ser exigentes também”, explica – o empresário enaltece a capacidade e flexibilidades lusas. “Talvez seja uma vantagem competitiva: aplicamos os processos com muito rigor, mas temos sempre a nossa parte portuguesa”.

A empresa, que nasceu na década de 80 do século passado, nas Trutas, Marinha Grande, tem implementadas “todo o tipo de certificações”. E está focado em implementar a filosofia Kaizen, originária do oriente, apostada em aperfeiçoar os processos.

Num grupo que consegue fechar o ciclo produtivo – pois desde a conceção, ao fabrico e envio das peças, tudo aí acontece – o valor da equipa é essencial, reconhece o empresário. E cada um dos elementos é fulcral: “para mim, a empregada de limpeza ou o CEO são os dois o mesmo na minha empresa cada um faz o seu trabalho e cada um ganha o seu salário, mas a responsabilidade e a relação comigo e com a empresa tem que ser igual”.

Dos quase 40 anos a trabalhar nesta área, praticamente as últimas três décadas foram passadas na Moldoeste, empresa onde começou como prestador de serviços em 1993. Ascendeu à condição de sócio no ano seguinte. Hoje, lidera-a.

Considera que na nova geração de empresários no sector, há valores que merecem ser apoia-los, pela visão e capacidade. Essa é uma das razões pelos quais entende ser útil o Turismo Industrial: proporcionar aos
mais jovens a possibilidade de conhecerem por dentro uma atividade que poderão, eventualmente, vir a abraçar.
Valdemiro Teixeira continua apostado em ganhar novos combates. Da réplica do Kitt, sobram as memórias, sendo que o futuro acelera e prepara-se para criar os verdadeiros automóveis autónomos e inteligentes que, não tarda, invadem as nossas estradas. “É uma questão de tempo”, antevê. Nessa altura, lá estará o vosso grupo a trabalhar para isso? “Seguramente”, assegura o empresário. Provavelmente, apostado em conseguir mais um Ippon.

 

www.grupomoldoeste.com

 

 

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