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Indústria portuguesa atenta e preparada para a transição

A maioria dos componentes utilizados na motorização elétrica são comuns aos modelos convencionais

in Expresso, por Abílio Ferreira e Vítor Andrade, ilustração por Helder Oliveira, 09-02-2019


 

A Efacec fornece carregadores à Porsche, a Sonafi fabrica peças para motores elétricos, os tecidos da Têxtil Manuel Gonçalves equipam toda a gama da Mercedes, e a ERT, de São João da Madeira, fornece os interiores à prova de ruído para gamas de elétricos.

O novo paradigma elétrico “é uma oportunidade de expansão para os fabricantes de componentes, em especial nos segmentos dos moldes, têxteis, plásticos e interiores, em que as empresas beneficiam de tecnologia de vanguarda e vantagens competitivas”, diz João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria. A tendência “é para materiais mais leves e de origem reciclável, e na frente da economia circular os fabricantes portugueses estão bem posicionados”. O consultor reconhece que no último ano “a tecnologia deu um salto enorme”, ficando claro que o ciclo “dos motores de combustão está a esgotar-se”.

Há um ano, uma empresa de renting hesitaria em financiar um carro elétrico, receando pelo seu valor de mercado cinco anos depois. Agora, a mesma hesitação talvez aconteça “se em causa estiver um carro a gasóleo”, conta João Vasconcelos.

Em 2018, a produção de 273 mil automóveis e de milhões de componentes levou a fileira automóvel a atingir a cifra dos €13,4 mil milhões (6,4% do PIB). E se, após o atual plano de produção, desenhado a cinco anos na Autoeuropa de Palmela ou na PSA de Mangualde, não surgirem novos modelos para render os atuais? “Isso não passa pela cabeça de ninguém. Seria um desastre de dimensões imprevisíveis”, responde José Couto, presidente do Mobinov — Associação do Cluster Automóvel.

Os construtores adaptam “os planos à evolução do mercado e estabelecem um novo equilíbrio entre as motorizações a gasóleo e gasolina”. “É preciso encontrar o ritmo certo e, nesta fase, os fatores estão em mudança rápida, pelo que se torna difícil lidar com um cenário central”, acrescenta José Couto.

HÁ UM ANO E MEIO O CARRO ELÉTRICO NÃO ESTAVA NA AGENDA

A indústria apresentou há ano e meio ao Ministério da Economia um “pacto para a competitividade”, sugerindo um conjunto de medidas para tornar o mercado português mais atrativo e amigo dos investimentos. Na altura, o tema do carro elétrico não estava na agenda, mas pode ser avaliado à luz dos novos dados. A indústria já provou que “reage rapidamente” a uma mudança de ambiente. Mas uma mudança brusca levaria à substituição integral de linhas de produção, causando danos difíceis de acomodar pelos fabricantes.

Tomás Moreira, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), reconhece que as empresas “estão a tomar as decisões adequadas e estarão preparadas” para a transição elétrica.

Na lista de acessórios descartáveis, a AFIA cita, a título de exemplo, a bateria tradicional, a caixa de velocidades, alguns componentes do motor, o depósito de combustível e o sistema de escape. Mas tal só acontece nos modelos 100% elétricos e não nas soluções híbridas, um segmento que se manterá em expansão e com um peso superior.

Na maior fábrica automóvel do país, a Autoeuropa, em Palmela, ainda só se trabalha em modelos equipados com motores a combustão, com um aumento da procura pelos carros a gasolina. O Expresso apurou que, para os próximos anos, é assim que se irá manter. No entanto, não está colocada de parte, a médio prazo — nomeadamente quando se descontinuar a produção do modelo Sharan —, a hipótese de a fábrica de Palmela poder vir a receber se não elétricos puros pelo menos um modelo híbrido.

 

 

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