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Indústria europeia de componentes automóveis regista uma patente por dia

Setor automóvel nacional exporta 97% da produção, emprega 150 mil pessoas e é aquele que gera mais receitas fiscais para o Estado. Estratégico para a competitividade do país, distingue-se pela qualidade, know-how e inovação, mas precisa de ultrapassar desafios para continuar a afirmar-se lá fora.

in Dinheiro Vivo, por Fátima Ferrão, 06-07-2024


Sabia que 95% dos automóveis fabricados na Europa incluem pelo menos um componente de fabrico nacional? Das caixas de velocidades, ao pequeno parafuso, são milhares as peças produzidas em Portugal com uma qualidade reconhecida e um preço competitivo. Além disso, “é a única indústria que consegue registar o equivalente a uma patente por dia na Europa”, revela José Couto. Para o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), esta capacidade de inovação e de apresentar soluções criativas e tecnológicas aos clientes explica a confiança de vários fabricantes de automóveis europeus, e mostra que tem capacidade de reforçar esta presença internacional. No entanto, admite, “é preciso dar resposta a algumas questões, nomeadamente, no reforço de infraestruturas e logística”.

Elevado à categoria de “construtor automóvel” por ter ultrapassado uma capacidade de produção superior a 300 mil unidades, Portugal está hoje à frente de países com tradição na indústria automóvel, como é o caso da Suécia ou da Holanda, “e este posicionamento é muito importante para o cluster nacional, e fundamental na nossa economia”, afirma Hélder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP). Recorde-se que o peso deste setor no Produto Interno Bruto (PIB) ronda os 2,4%.

Por outro lado, a presença de construtores automóveis em Portugal também dinamiza uma indústria, a montante e a jusante, quer no fornecimento de componentes, quer de serviços. “E isso é importante, sobretudo, ao nível das exportações”, salienta Helder Pedro, que destaca o contributo do setor nas vendas ao exterior, para onde canaliza 97% dos produtos, representando 12,7% do total de exportações do país, e um volume de negócios na ordem de 7,5% do conjunto das empresas com atividade em território nacional.

Atualmente, a indústria automóvel conta com quatro polos agregadores – Aveiro (Toyota e Renault), Mangualde (Stellantis), Tramagal (Mistsubishi Fuso) e Palmela (Autoeuropa) -, mas, aponta o representante da ACAP, “conseguir mais uma fábrica seria muito importante para o país”.

Assim, o setor automóvel emprega 150 mil pessoas e é aquele que gera mais receitas fiscais para o Estado, que arrecadou, em 2023, mais de nove mil milhões de euros.

Não obstante o esforço de atração de investimento que continua a ser feito a nível nacional, importa destacar a capacidade de transformação, de reforço e de investimento das empresas que já têm presença em Portugal. Esta semana arrancou com o anúncio do início da produção de oito modelos 100% elétricos na fábrica da Stellantis, em Mangualde que, desta forma, se tornou a primeira a produzir veículos de passageiros e comerciais ligeiros em larga escala em solo luso, depois de um investimento global de 119 milhões de euros, ao abrigo do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). Os novos veículos, das marcas Citroën, Fiat, Peugeot e Opel, serão comercializados no mercado doméstico, mas seguem igualmente para exportação.

Ameaças olhadas como oportunidade

A entrada recente de novos países na União Europeia, localizados mais a leste do Velho Continente, trouxe uma maior competitividade à indústria automóvel o que, como explica José Couto, “coloca Portugal entre os países tradicionais altamente competitivos e intensivos em tecnologia, e novos países que competem connosco e têm alguns argumentos desafiantes e que, em alguns casos, demonstram fragilidades da indústria portuguesa, nomeadamente, ao nível das infraestruturas”.

Apesar da crescente competitividade, o presidente da AFIA acredita que o país tem argumentos suficientemente fortes para manter a atratividade. Aquele responsável destaca, por exemplo, o elevado nível de qualificação dos profissionais do setor ou a capacidade de ligação com centros tecnológicos, universidades e centros de produção de serviços, a par com a digitalização do setor e o caminho que tem feito ao nível da sustentabilidade ambiental.

Em termos da gestão ambiental, lembra Helder Pedro, o setor tem enormes desafios impostos pela União Europeia, nomeadamente, no processo industrial, na reciclagem de componentes ou na economia circular. Esta última, salienta, “contribui para a sustentabilidade ambiental, mas ajuda igualmente a combater a escassez de matérias-primas com que a Europa se debate”.

Por outro lado, a aposta em nichos muito especializados poderá, na opinião de Rodrigo Ferreira da Silva, criar boas oportunidades de desenvolvimento à vertente industrial do setor automóvel. Na transformação de veículos – adaptação de veículos depois de fabricados -, sublinha o presidente da Associação Nacional do Ramo Automóvel (ARAN), “poderíamos estar a fazer o dobro porque temos know-how e capacidade”. A título de exemplo, o responsável da ARAN explica que este é um mercado que transforma diferentes tipos de veículos em ambulâncias, carros de bombeiros, camiões-gruas, autocarros em clínicas, entre outros, e que soma mais de duas centenas de empresas.

Mas, para desenvolver este mercado são precisos apoios, como defende Rodrigo Ferreira da Silva. Em primeiro lugar, diz, é preciso reduzir os custos da energia para garantir uma logística mais barata, mas também é fundamental desburocratizar. “Esta é uma atividade que exige muitas homologações e inspeções, pelo que necessitamos de um IMT [Instituto da Mobilidade e dos Transportes] mais envolvido e próximo do terreno”.

De forma mais transversal ao setor, Helder Pedro destaca também a importância de medidas fiscais “mais amigas das empresas”, justiça fiscal e económica mais célere, e de uma legislação laboral compatível com as reais necessidades, como forma de garantir competitividade e maior capacidade de investimento, mas também de atratividade face a novos investidores internacionais.

Vendas: importados e elétricos a crescer

Do lado do comércio automóvel, o ano de 2024 não está a corresponder, para já, às expectativas. O primeiro semestre espelha um crescimento ligeiro, como revela Rodrigo Ferreira da Silva, muito por via da matrícula de viaturas encomendadas em 2023, mas entregues apenas no primeiro trimestre do ano, e também por algum crescimento motivado pelas compras realizadas por empresas de rent-a-car, por altura do período da Páscoa.

Contudo, explica o presidente da ARAN, apesar de as empresas estarem a comprar e a renovar frotas, o cliente particular não está a comprar novo. “O preço dos combustíveis que se mantém elevado, as taxas de juro ainda altas e alguma indecisão face à tecnologia subjacente aos veículos elétricos está a roubar espaço de manobra aos investimentos das famílias”.

Este contexto está, no entanto, a fazer crescer as vendas de veículos importados o que, na opinião de Rodrigo Ferreira da Silva, está a colocar no mercado carros mais antigos e mais poluentes, e a impedir a renovação que o parque automóvel nacional tanto necessita.

Passo a passo, a venda de veículos 100% elétricos e híbridos tem estado a ganhar espaço no mercado nacional, apesar de estar longe das metas definidas para 2030 (chegar aos 35% de penetração na frota de veículos ligeiros).

Ainda assim, Pedro Faria, presidente do conselho diretivo da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE) revela que o crescimento tem sido “contínuo e robusto nos últimos anos” e que está em linha com as metas nacionais estabelecidas para a descarbonização e transição energética. “A manutenção das políticas de incentivos continua a desempenhar um papel fundamental para que possamos alcançar a meta proposta de redução entre 45 e 55% das emissões de gases de efeito de estufa até 2030 (por comparação com os dados de 2005)”, salienta.

Essencial ao desenvolvimento deste mercado será também a paridade de preço entre o veículo elétrico e os de combustão, na altura da aquisição. “É importante que se alcance o mais rapidamente possível, com a ajuda de uma política de incentivos, e com a evolução da infraestrutura de carregamento”, defende o presidente da UVE.

 

 

 

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