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Indústria automóvel na Europa em pára-arranca

Sector alerta Bruxelas para o facto de a concorrência desleal poder custar 350 mil empregos à Europa

in Expresso, Vítor Andrade (Coordenador de Economia), 26-02-2026


Há cerca de duas semanas os dirigentes da Associação Europeia de Fornecedores Automóveis (CLEPA, no acrónimo em inglês) recordavam que desde 2024 até hoje o sector dos componentes para automóveis já perdeu 104 mil postos de trabalho, o que corresponde a cerca de 142 postos de trabalho destruídos por dia. Mas, segundo aquela organização, o pior ainda pode estar para vir se não se inverter o rumo da indústria.

A CLEPA citava então, em comunicado, um estudo recente da consultora Roland Berger, que conclui que os fornecedores automóveis da União Europeia enfrentam uma concorrência desleal de regiões com custos mais baixos, menos regulamentos, tarifas unilaterais, dumping e subsídios, “uma combinação que ameaça até 350 mil empregos europeus até 2030”.

Alguns dias depois, aquela organização enviava uma carta a Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, onde se alertava para a necessidade de “escolher entre a soberania e a dependência”, no que respeita à construção automóvel em território europeu.

Na missiva a CLEPA reforçava a ideia já veiculada anteriormente e não deixava margem para dúvidas: “Apoiamos a concorrência como motor de eficiência e inovação. Contudo, quando a pressão é impulsionada por subsídios distorcivos, dumping de preços, excesso de capacidade apoiado pelo Estado e tarifas unilaterais, os produtores europeus ficam em desvantagem estrutural e enfrentam concorrência desleal.”

A Europa “tem de garantir condições de concorrência justas”, diz José Couto, presidente da AFIA

Até esta semana não se conheceu nenhuma reação oficial de Bruxelas aos alertas da indústria.

A CLEPA, por seu lado, fazia notar, na sua carta a Von der Leyen, que os sinais “são evidentes” nas balanças comerciais de 2025. “As importações de componentes automóveis da China atingiram os €8,2 mil milhões. Assistimos a uma inversão surpreendente: um confortável excedente comercial de quase €7 mil milhões, há apenas cinco anos, transformou-se num défice de €0,7 mil milhões. Notavelmente, esta mudança diz respeito aos componentes automóveis tradicionais, segmentos nos quais a Europa tem sido historicamente dominante.”

Os fabricantes europeus de componentes notam que “importar a tecnologia mais barata hoje compromete a nossa capacidade de inovação amanhã”.

E acrescentam que “se permitirmos que as nossas cadeias de valor se deteriorem, perderemos fábricas, mas também a nossa autonomia estratégica. Corremos o risco de trocar a soberania tecnológica europeia por uma dependência permanente de regiões com custos mais baixos e menos regulamentadas”.

Em Portugal, a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) associa-se aos alertas da CLEPA, e faz saber, em comunicado, pelo seu presidente, José Couto, que “a transição para a mobilidade de baixas emissões e a digitalização exigem investimento, escala e previsibilidade. Se a Europa quer liderar a transformação, tem de garantir condições de concorrência justas e enquadramentos que mantenham o valor, a inovação e o emprego ancorados no espaço europeu”.

E sublinha que apoiar a proposta da CLEPA “é escolher soberania industrial, reforçar a resiliência das cadeias de valor e proteger a capacidade tecnológica da Europa”.

Noutra latitude, as grandes construtoras automóveis europeias continuam a debater-se com uma sucessão de problemas financeiros. Na segunda semana deste mês a Stellantis (que gere 15 marcas, entre as quais a Peugeot a Citroën, a Fiat e a Opel) admitiu ter um prejuízo a rondar os €21 mil milhões, no segundo semestre do ano passado, graças às imparidades criadas para reverter parte da aposta nos veículos elétricos.

A crise é transversal a todo o sector na Europa, mas os custos de reestruturação anunciados de €22,2 mil milhões naquele gigante automóvel espoletaram uma reação no mercado: num só dia as ações afundaram-se mais de 20% e atingiram o valor mais baixo desde 2021, quando o grupo foi criado.

Outro gigante europeu do sector, o grupo Volkswagen, anunciou um plano de redução de custos de 20% até 2028, abrangendo várias marcas do grupo.

A consultora XTB considera que a medida surge num momento “particularmente desafiante” para o sector automóvel europeu, “marcado por pressão nas margens e por uma transição acelerada para a mobilidade elétrica”.


 

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