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Impasse em Espanha ameaça economia portuguesa? A visão de seis empresários

As opiniões não são unânimes. Uns setores consideram que Portugal já está a sentir o abrandamento da economia espanhola aliado a alguma instabilidade política, outros não sentem qualquer impacto.

in ECO, por Fátima Castro e Mónica Silvares, 11-11-2019


partido socialista venceu as eleições legislativas em Espanha, mas não conseguiu maioria absoluta, o que significa que, para formar Governo, são necessárias negociações entre as forças políticas. Espanha é um dos principais destinos de exportação para Portugal e a instabilidade política que se faz sentir está a condicionar o crescimento das exportações portuguesas.

Do setor têxtil, ao calçado, do merchandising desportivo à indústria automóvel, o ECO falou com empresários destes setores que exportam os seus produtos para o país vizinho para perceber o que pensam das eleições espanholas e qual o impacto desta instabilidade política na economia portuguesa.

Este ano, as exportações para Espanha estão a decrescer e esta instabilidade política não ajuda ao crescimento da economia“, lamenta Bernardino Meireles, presidente do conselho de administração da António Meireles, conhecida pelo fabrico de fogões. Albano Fernandes, fundador da AMF, corrobora e admite que, este ano, as exportações para Espanha desta empresa de calçado de segurança já foram bastante inferiores em relação ao ano passado.

Os dados Instituto Nacional de Estatística (INE) exprimem esta realidade: entre janeiro e setembro deste ano as vendas de bens para Espanha atingiram 11.007 milhões de euros, uma ligeira redução face aos 11.012 milhões registados no período homólogo. Mas a situação pode piorar, alerta Jaime Regojo. “Esta incerteza vai criar problemas às exportadoras portuguesas que vendem em Espanha. Haverá mais quebras tendo em conta as incertezas com o futuro, porque as empresas em Espanha vão ser mais cuidadosas e apostar menos nas compras”, diz o empresário do grupo Regojo que tem na sua origem a empresa familiar de confeção de vestuário mais antiga de Portugal, fundada em 1919, e que atua sobretudo nos setores do vestuário e do imobiliário.

Albano Fernandes explica que o decréscimo que a AMF está a sentir está relacionado com a questão política que não está resolvida. E exemplifica: “Trabalhamos muito a área policial e militar e existem imensos concursos que estiveram parados até às eleições, não existiam condições para tomar decisões. Fico com a ideia que algumas decisões vão manter-se bloqueadas”.

Mas não é só a nível dos concursos públicos que as coisas estão bloqueadas. Os empresários espanhóis também estão em modo ‘esperar para ver’. “As políticas socialistas, geralmente, assentam num aumento de impostos”, sublinha Jaime Regojo. Por isso, “todos os empresários, grandes ou pequenos adiam as decisões de investimento, porque não veem um futuro claro”. O empresário, cujo grupo gere ativos como o Liberdade Street Fashion, no centro de Braga, antecipa, por isso, um aumento do desemprego e um abrandamento da economia, isto apesar de não ser essa a mensagem política transmitida pelos líderes.

O fundador da AMF, empresa de calçado de segurança, admite que está apreensivo e preocupado em relação as resultados eleitorais em Espanha. O facto de serem necessárias negociações para formar Governo, tendo em conta que o PSOE não conseguiu obter o número de deputados que pretendia para governar com maioria — aliás, a situação ainda se agravou mais tendo em conta que o PSOE perdeu três deputados face às eleições de abril — “podem resultar novamente num impasse“. Albano Fernandes recorda “o decréscimo do crescimento da economia espanhola nos últimos anos e que é esperado um crescimento abaixo dos 2% para este ano”.

A AMF, que conta com um volume de negócios de 14,5 milhões, disse ao ECO que têm uma sociedade, muito recente, com uma empresa espanhola de distribuição e considera que o resultado legislativo em Espanha não é benéfico. “Estamos exatamente na mesma situação e parece que vamos ficar no mesmo impasse que estivemos nestes últimos três anos”, conclui.

Destas eleições não resultou nada de novo”, sublinha António Meireles, cuja empresa exporta 60% para Espanha. “Mantém-se o mesmo impasse que já existia antes destas eleições”, acrescenta. Por isso, Jaime Regojo gostaria de ver o PSOE juntar forças com PP, não numa coligação formal ou um acordo de incidência parlamentar, à semelhança do que existiu em Portugal na legislatura passada com os partidos de esquerda, mas um acordo em que “o PP se abstivesse nas grandes medidas” viabilizando, por exemplo, o Orçamento. Mas em troco o PP garantiria que não haveria aumento de impostos ou dos gastos sociais, pontos que fazem parte dos programas eleitorais dos partidos de esquerda.

“Sobretudo, os espanhóis estão muito cansados desta instabilidade e caso houvesse um novo ato eleitoral, o PSOE certamente seria ainda mais castigado e a abstenção aumentaria ainda mais”, frisa Jaime Regojo. Uma situação que “só beneficia os nacionalistas e os radicais”.

Setor automóvel abranda ritmo de crescimento

O setor automóvel está a passar por uma transformação estreitamente ligada ao novo paradigma da mobilidade, aliada a uma instabilidade mundial político-económica. “Estamos a assistir a um abrandamento da atividade industrial ligado à indústria automóvel e qualquer perturbação no mercado espanhol tem um efeito muito sério para os produtores de componentes nacionais“, reconhece José Couto, presidente da associação de fabricantes para a indústria automóvel (AFIA) e administrador da associação do cluster automóvel Mobinov.

José Couto destaca que “as exportações de componentes automóveis para o mercado espanhol representam mais de 30%, sendo o país vizinho o principal mercado. Contudo, não deixa de mencionar que Espanha está depende do que acontecer em termos mundiais e europeus, nomeadamente a guerra comercial entre os EUA e a China e o Brexit. Acredita que a indústria automóvel não vai sofrer com o novo Governo espanhol, até porque o que vai definir o rumo da economia é o que vai acontecer na Europa, nomeadamente, o novo paradigma da mobilidade: o aparecimento de novos automóveis, reformulação da monitorização dos veículos, entre outros. “O que vai acontecer na Europa é que vai ditar o que vai acontecer às fábricas em Espanha”.

Apesar de toda a instabilidade mundial que se faz sentir, o presidente da associação de fabricantes para a indústria automóvel, está confiante com um pequeno aumento das exportações dos componentes automóveis para Espanha. “Nas nossas melhores expectativas podemos crescer em Espanha, o mesmo que crescemos na Europa, cerca de 1 e 2%”, refere José Couto.

Nem todos estão a ser já afetados

Apesar de os dados do INE darem conta de um abrandamento das exportações para Espanha nos primeiros nove meses do ano, a verdade é que há empresas que têm conseguido prosseguir a sua atividade sem grandes impactos.

Estes resultados eleitorais “não terão grande impacto para a Continental”, apesar de o mercado espanhol representar algum peso para o grupo, garante Miguel Pinto. O diretor geral da Continental Advanced Antenna Portugal, que fornece antenas para veículos, destaca que, “até agora, não sentiram nenhum decréscimo em relação às exportações para Espanha”, mas acredita que este resultado “pode provocar alguma mau estar para a economia espanhola, que está a crescer abaixo da economia portuguesa”.

“Enquanto houver instabilidade a economia vai-se ressentir e isso vai impactar nas exportações a nível geral”, conclui o diretor geral da Continental Advanced Antenna Portugal, que pertence à divisão interior do grupo Continental, faz parte da unidade de negócio Body & Security e trabalha, essencialmente, com o segmento premium de marcas como o grupo Daimler, BMW, Audi, Volvo, entre outros gigantes do setor automóvel.

Para já, incólume às atribulações espanholas, está também a 4 Teams, uma empresa de merchandising desportivo, que tem em Espanha um importante mercado de exportação. Anthony Câmara, diretor comercial da empresa refere que não sentiu “qualquer decréscimo na exportação para Espanha” e considera que a instabilidade política que se tem vivido no país vizinho “não tem impactado nas encomendas e nos clientes” da empresa nortenha. “Apesar de o merchandising desportivo ser um mercado volátil, os nossos clientes, mesmo os espanhóis, continuam a comprar com a mesma regularidade”, acrescenta o responsável, cuja tem um volume de negócios que deve superar os cinco milhões de euros.

O ECO também tentou falar com o presidente da Câmara de Comércio Luso Espanhola, Enrique Santos, mas este optou por não fazer comentário.

 

 

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