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Fábricas portuguesas travam produção com falta de chips

Depois da Auteuropa, também PSA de Mangualde e a Bosch de Braga já interromperam a produção ligada ao automóvel devido à escassez de semicondutores. Dos eletrodomésticos ao material elétrico e à informática, outros setores estão a antecipar encomendas e a pagar “preços exorbitantes” em leilão para evitar a paralisação.

in Negócios, por António Larguesa e Pedro Curvelo, 13-05-2021


Há já alguns meses que a falta de chips é uma dor de cabeça para Joaquim Alves, que precisa destes componentes eletrónicos para fabricar eletrodomésticos em Oliveira de Azeméis. Sem previsão sobre a retoma da normalidade no fornecimento os fabricantes concentrados sobretudo em Taiwan e na Coreia do Sul admitem que só em 2022- , o presidente da Flama admite ao Negócios “uma grande incerteza quanto à capacidade de manter a produção no curto prazo e que está sob “enorme pressão” para evitar interrupções, como já sucedeu nas gigantes Autoeuropa (Palmela), PSA (Mangualde) e Bosch (Braga).

“Os custos têm sido altíssimos. Temos comprado em leilão os poucos semicondutores disponibilizados mensalmente ao mercado, com preços exorbitantes também nos transportes rápidos que são necessários para evitar as paragens de produção. (…) Os stocks de segurança estão a zero, o que torna a gestão destes componentes muito crítica. Mais ainda quando este problema é transversal a várias indústrias e existe claramente um problema de oferta e procura que potencia a especulação”, desabafa o empresário.

Na região de Aveiro, onde fabrica exaustores e monta fornos (de micro-ondas e de vapor) e gavetas de aquecimento de pratos, a Teka também tem registado “problemas pontuais com algumas referências”, que têm obrigado a ajustar a produção, até agora sem prejuízo nas quantidades. João Nascimento, líder da operação deste grupo de capitais alemães em Portugal, explica ao Negócios que passou a “encomendar com maior antecedência e a dar programações para um horizonte mais vasto aos fornecedores”.

Além dos eletrodomésticos, outros subsetores da metalurgia e metalomecânica, como as máquinas para a indústria, os esquentadores ou os artigos de iluminação, estão a ser afetados por este problema. Causado inicialmente pela quebra das cadeias de abastecimento em virtude dos confinamentos em vários países; e agravado depois pelo teletrabalho impulsionado pela pandemia, que fez disparar o consumo de equipamentos que utilizam chips, como computadores e smartphones.

A JP Sá Couto, conhecida pelo minicomputador Magalhães, ainda não teve de parar o fabrico em Matosinhos, mas antecipa que “se a escassez continuar, [irá] ter reduções drásticas de produção a partir de terceiro trimestre” deste ano, Jorge Sá Couto descreve que a falta de vários componentes está a “afetar muito o negócio”. “Esta situação levou a uma subida exponencial de preços de algumas partes dos computadores, refletindo-se num aumento de preço – na ordem dos 30% – dos equipamentos”, calcula o dono do JP Group.

O porta-voz dos industriais do metal (AIMMAP), Rafael Campos Pereira, lamenta a “falta de autonomia estratégica” da Europa ao nível destes componentes e também das matérias-primas, que atravessam um cenário parecido o de escassez e aumento de custos, como sinaliza a evolução recente no Índice de Preços na Produção Industrial publicado pelo INE.

Carros no pára-arranca

Depois de no final de março o responsável da Bosch em Portugal, Carlos Ribas, ter dito ao Negócios que “não [estavam] livres” deste problema, a empresa do grupo alemão em Braga entrou em lay-off esta segunda-feira, 10 de maio. A paralisação vai durar “sensivelmente um mês, com possibilidade de prolongamento”. “Tudo irá depender do material que os nossos fornecedores conseguirem fornecer nas próximas semanas. Certo é que temos encomendas e estamos prontos para reiniciar a produção logo que tenhamos os semicondutores”, frisa fonte oficial da Bosch Car Multimedia, que produz sistemas de segurança e eletrónica para os principais fabricantes de automóveis.

É também na capital minhota que a APTIV fabrica material elétrico e eletrónico para a Porsche, Audi, BMW, Volkswagen e Volvo, por exemplo. Ao Negócios, a multinacional sediada em Dublin, que resultou de um “spin-off” da Delphi e emprega 2.200 pessoas em Portugal, reconhece que “continua a experimentar volatilidade nas programações de produção, [além de] despesas elevadas com frete e logística e preços mais altos nas matérias-primas”. E com base nas discussões diárias com clientes e fornecedores, acrescenta, antevê que “as interrupções na cadeia de abastecimento aumentem nos próximos meses, antes de o ambiente começar a melhorar no segundo semestre do ano”.

Já do lado das construtoras, a Autoeuropa refere que desde a paragem na última semana de março, que resultou em menos 5.70º veículos produzidos, não voltou a sofrer perturbações. A fábrica do grupo Volkswagen, a maior exportadora nacional, diz que “continua a acompanhar de perto e em permanência a situação, mas não se registaram novos sobressaltos como os do mês passado na PSA de Mangualde, que teve “seis dias de interrupção da produção”.

“Fomos forçados a realizar alguns ajustes de produção em abril devido às dificuldades de aprovisionamento de alguns dos nossos fornecedores. Em termos dos vencimentos dos colaboradores, não se refletiu porque foi utilizada a bolsa de horas”, resume a segunda maior fábrica automóvel do país, que produz para as marcas Citroën, Peugeot e Opel.

A nível mundial, o setor automóvel é responsável por 10% da procura de semicondutores, subindo esse valor para 37% na Europa. E deverá continuar acrescer em grande escala devido à quota crescente de tecnologias de condução autónoma e assistida, assim como da eletrificação dos veículos que exige maior sofisticação na gestão do desempenho da bateria e outros componentes eletrónicos.

A consultora especializada IHS Markit estima que no primeiro trimestre foram produzidos menos 1,3 milhões de automóveis devido à falta de chips. A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) confirma que “esta situação também está a afetar a indústria portuguesa de componentes, dadas as paragens na produção dos clientes”. Até março, as exportações subiram 5,4%, alcançando os níveis anteriores à covid-19, mas a AFIA assinala que “a incerteza e a volatilidade se mantêm, pelo que é difícil efetuar estimativas de como vai correr o segundo trimestre”.

 

 

A Bosch Car Multimedia suspendeu a produção em Braga e colocou em lay-off os trabalhadores das áreas de produção e de apoio, pelo menos até 9 de junho.
Foto: Paulo Duarte

 

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