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Fábricas de automóveis vão ter quebra de 20% na produção deste ano

A ACAP e a AFIA antecipam ao JE uma quebra de 20% na produção nacional de automóveis e de componentes em 2020. E a AICEP diz que 2021 será o início da adaptação à produção de elétricos.

in O Jornal Económico, por João Palma Ferreira, 23-10-2020


A indústria automóvel portuguesa, que integra cinco fábricas das marcas e mais de 240 empresas produtoras de componentes, deve registar uma quebra de aproximadamente 20% na atividade anual de 2020, segundo previsões admitidas ao Jornal Económico (JE) pelos secretários gerais da ACAP – Associação Automóvel de Portugal, Hélder Pedro, e da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, Adão Ferreira.

Em antevisão sobre 2021, o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal – aicep Portugal Global, Luís Castro Henriques, admitiu ao JE que “o próximo ano deverá iniciar a preparação das fábricas para a transformação que o setor automóvel vai efetuar até 2030, capacitando a produção de veículos não poluentes e com tecnologias adaptadas à maior digitalização da sociedade”.

O presidente da AICEP prevê que esse “esforço inicial da indústria automóvel seja concentrado nos anos de 2021 e 2022”.

Por seu turno, o responsável da ACAP, considera que “será fundamental que as fábricas de automóveis sejam contempladas nos planos de recuperação europeus e que obtenham apoios conjuntos’, destinados às fábricas de Portugal e Espanha, que já funcionam de forma muito interligada, num verdadeiro cluster ibérico do setor automóvel”.

Hélder Pedro revelou ao JE que manteve “reuniões com as associações congéneres espanholas para avaliarem a situação do cluster automóvel ibérico, que funciona verdadeiramente interligado em Portugal e Espanha, ao nível das fábricas das marcas e relativamente às unidades fornecedoras de componentes – note-se que Espanha é o maior comprador das peças fabricadas em Portugal -, pelo que os planos de recuperação europeus terão de contemplar as unidades fabris dos dois
países ibéricos”. Hélder Pedro adiantou que também efetuou uma reunião com António Costa Silva, que “permitiu incluir nas suas recomendações um incentivo ao abate de veículos usados”, refere.

Sobre a evolução da atividade das cinco fábricas portuguesas de produção de veículos – Autoeuropa, PSA, Mitsubishi Fuso, Toyota Caetano e Caetano Bus -, Hélder Pedro considera que “o valor acumulado de janeiro a setembro, referente à produção de 185.700 viaturas, que regista uma quebra homóloga de 28,1%, será atenuado até ao final de dezembro, reduzindo eventualmente a quebra anual a cerca de 20%”.

Mas, ressalva, “ainda teremos de enfrentar um elevado nível de incertezas, nos meses de novembro e dezembro, decorrente do agravamento da pandemia de Covid-19”.

Se, por um lado, “a produção fabril acumulada de janeiro a setembro de 2019 totalizava 258.388 viaturas, bastante mais do que o atual volume acumulado de 185.700 no mesmo período de 2020, por outro lado, também é verdade que a produção de setembro de 2020 recuperou em relação aos baixos níveis registados em abril e maio, atingindo 32.686 unidades fabricadas em Portugal no nono mês de 2020, o que é apenas inferior em 1,8% às 33.286 unidades fabricadas em igual mês de 2019”, comenta Hélder Pedro.

“Como 98% da produção das fábricas portuguesas se destina à exportação e como os principais mercados de destino das viaturas novas exportadas por Portugal são a Alemanha, França e Espanha, onde os Governos locais deram fortes apoios à compra de veículos, as fábricas portuguesas acabam por beneficiar dessas políticas de incentivos ao setor automóvel”, adianta o responsável da ACAP.

“O resultado das políticas de estímulos à compra de carros novos está à vista: enquanto as vendas de automóveis no mercado automóvel alemão recuperaram, evidenciando um crescimento de 8,4% em setembro, em Portugal, onde não houve estímulos ao setor, as vendas de viaturas novas no mercado nacional apresentaram em setembro a segunda maior queda na União Europeia”, adianta Hélder Pedro.

Cacia inicia nova produção

Para um dos maiores fabricantes portugueses de componentes – a Renault, com fábrica em Cacia -, a análise é semelhante.

“O mercado recuperou durante os últimos meses, sobretudo a partir de julho, com agosto a ser quase semelhante ao mês homólogo de 2019 e setembro a ter um comportamento mais normal. Os mercados na Europa estão a voltar a ter vendas em linha do que seria expectável”, refere a fonte oficial da Renault em Portugal.

A fábrica da Renault em Cacia já arrancou com a produção da caixa automática que tinha sido anunciada durante a última visita do primeiro ministro António Costa. Este investimento atrasou-se um pouco, porque a fábrica esteve fechada durante a fase de confinamento, mas depois reiniciou lentamente e “agora a produção de Cacia está normal”, adianta a mesma fonte.

Uma das alterações entretanto ocorridas no mercado foi “a consolidação das vendas de veículos elétricos, que já representam cerca de 5% do mercado nacional, o que faz com que já não sejam um mercado de nicho”, refere a fonte da Renault em Portugal. Juntamente com os híbridos e os híbridos plug in, este segmento dos veículos de baixas emissões e de zero emissões “representa cerca de 18% do mercado total de ligeiros de passageiros. Também é certo que as vendas de veículos elétricos vão continuar a crescer”, adianta a fonte.

Além disso, a Renault em Cacia já produz componentes para a caixa de velocidade dos híbridos, o que pode ser entendido como um primeiro passo para entrar na produção de componentes para a gama dos eletrificados’.

Componentes faturaram 12 mil milhões de euros em 2019

Mas a Renault em Cacia é apenas uma das mais de 240 fábricas de componentes que operam em Portugal, e empregam diretamente 59 mil trabalhadores, onde há “gigantes” como a Bosch, a Mahle, a Visteon, ou colosso’ norte-americano da Aptiv, criado pela General Motors. Neste setor, o volume de negócios de 12 mil milhões de euros (registado em 2019, equivalente a 6% do PIB português) não resulta da atividade de pequenas empresas familiares sem base tecnológica. Pelo contrário.

Neste setor laboram em Portugal empresas ‘planetárias’, que recorrem à tecnologia mais avançada a nível mundial e que, no conjunto do setor, exportam cerca de 9,7 mil milhões de euros (representando 16% das exportações de bens transacionáveis), laborando com 265 fábricas. Aveiro lidera a implantação de fábricas do setor (com 60 unidades fabris), seguindo-se o Porto (com 48), Braga (com 36), Viana do Castelo (com 27), Setúbal (com 20), Leiria (15), Santarém (13), Viseu (10), Évora (9) e Lisboa (8). Os restantes cinco concelhos têm menos de cinco fábricas por zona.

Representadas na AFIA, têm diversas empresas com faturações superiores a 200 milhões de euros, e várias são maiores que a Renault de Cacia. Para o secretário geral da AFIA, Adão Ferreira, “a recuperação das vendas deste setor nota-se pela evolução das vendas ao longo de 2020”. Este setor vive em 81 % das exportações diretas, colocando em Portugal apenas 19% das vendas, das quais mais de metade vão para a Autoeuropa em Palmela.

O setor é dominado pela metalurgia e metalomecânica, responsável por 33% do volume de negócios de 12 mil milhões de euros, seguindo- -se o material elétrico e a eletrónica (29% do volume de negócios), os plásticos, borrachas e outros compósitos (18%), os têxteis (11%), e a montagem de sistemas (7%).

O principal destino destas exportações é Espanha (26,8%), seguindo- -se a Alemanha (21,1%), França (14%), Reino Unido (8,7%), outros países europeus (20,7%) e o resto do mundo (8,7%).

Quatro meses em queda

“Começámos 2020 a crescer 6,7% em janeiro; aumentámos para 8,2% em fevereiro; mas em março caímos 26,4%; em abril tudo piorou, com uma queda de 76,4% nas vendas; em maio a queda reduziu para 54,7%; em junho a queda já só foi de 8,4%; e em julho recomeçámos a crescer 1,4%; em agosto melhorou para 3,1%, tudo isto em variações face ao mês homólogo de 2019”, refere Adão Ferreira, explicitando que “foram quatro meses de queda, com os dois meses seguintes a crescer”.

“Até ao fim do ano temos incertezas, apesar de sabermos que as vendas de automóveis nos mercados internacionais estão melhor”, diz. “Creio que na globalidade do ano de 2020, devemos registar uma queda de vendas face a 2019 da ordem dos 20%”, prevê Adão Ferreira.

Num cenário menos favorável, a queda pode ser entre 20% e 25%, o que seria mais grave que a queda de vendas registada na crise do subprime, em 2008 e 2009, em que as vendas caíram cerca de 15%.

“O setor tem evitado dispensar trabalhadores, porque a nossa mão de obra é muito especializada, por isso o recurso ao lay-off tem permitido travar a redução de efetivos, mas não sabemos como será o período de incerteza que vamos enfrentar no próximo inverno, nem conseguimos quantificar a eventual redução de postos de trabalho que essa incerteza implique”, comenta o secretário-geral da AFIA.

“Relativamente a 2010, atual-mente empregamos mais 19 mil trabalhadores”. No entanto, Adão Ferreira diz que “não são previsíveis encerramentos no nosso setor”. sublinhando que “estamos confiantes num futuro para o qual as empresas se têm vindo a preparar, de forma a darem resposta às novas motorizações que seguem os parâmetros das baixas emissões de C02”.

2021, ano de mudança

O presidente da AICEP, Luís Castro Henriques, antevê que “nos próximos dois anos vamos ter de iniciar um processo de transformação em que consigamos manter a competitividade para os modelos que já estavam planeados e que irão continuar em produção, com algumas alterações e hibridizações’, percebendo que o setor na Europa terá, cada vez mais, uma componente de veículos elétricos, em relação aos quais a taxa de crescimento de compras, a nível europeu, está a ser grande”, refere o presidente da AICEP.

“A AICEP vai tentar ajudar a transformação da indústria, sobretudo o segmento que produz componentes. Temos de começar a perceber, na nossa cadeia de produção, quais são os investimentos que têm de fazer para o futuro do automóvel na década de 2020-30”, refere Castro Henriques, admitindo que “a pandemia acelerou as macro tendências relacionadas com a sustentabilidade, onde entra o Veículo Elétrico (VE) de forma óbvia”.

“E preciso perceber que este vai ser um movimento que não vai mudar tudo de um dia para o outro. Mas temos de perceber que ele vai ser rápido. Por isso será fundamental que aproveitemos todo o esforço que vai ser feito”, alerta o presidente da AICEP.

“E óbvio que para as empresas portuguesas deste setor, que são todas exportadoras, o mercado relevante é a Europa, não é Portugal”, adianta Castro Henriques, comentando que “têm de perceber em que medida é que o plano de recuperação da Europa vai potenciar mais esta mudança, mas, sobretudo, têm de estar muito atentas à evolução que os próprios construtores vão seguir”.

“Espero que 2021 e 2022 sejam bons anos de mudança para começarmos a ter uma oferta competitiva entre o novo portefólio de veículos. A AICEP quer fazer isso em conjunto com o setor”, conclui.

 

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