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Espanha acelera e empurra empresas portuguesas

Espanha cresce quase o dobro da UE e compra cada vez mais a Portugal. As maiores exportadoras lusas vendem-lhe energia, matérias-primas, papel, vidro, peças para automóveis e roupa.

in Dinheiro Vivo, por Erika Nunes, 15-08-2015

A integração ibérica é mais do que uma utopia dos livros do século passado e o crescimento da economia espanhola já tem, quer nas causas quer nas consequências, um número importante de empresas portuguesas que exportam para o país vizinho.

O sector automóvel é o melhor exemplo deste fenómeno, funcionando sincronizadamente entre os dois lados da fronteira, exportando depois o produto final para todo o mundo. Mas há mais: os combustíveis da Petrogal abastecem o país vizinho, os polímeros da Repsol, feitos em Sines, são a matéria-prima das indústrias de plásticos espanholas, as garrafas de vidro portuguesas recebem vinhos e azeites tão mediterrânicos como os nossos, são portugueses os cigarros das marcas Phillip Morris fumados na Península Ibérica, tal como os papéis da Portucel Soporcel usados em escritórios.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que Espanha se destaque entre as economias desenvolvidas, com um crescimento do PIB de 3,1% este ano e de 2,5% no próximo. A atualização de julho do World Economic Outlook prevê um crescimento de apenas 1,5% para a zona euro e de 2,5% para os EUA e ontem dados oficiais apontaram para um crescimento homólogo do PIB espanhol de 3,1% no segundo trimestre de 2015. Tal dinamismo já se fez notar em Portugal, dado que a economia espanhola foi responsável por 48,7% do acréscimo homólogo do total das exportações lusas no primeiro semestre do ano e as dez maiores exportadoras não preveem abrandamento.

“Os números são animadores e particularmente importantes para as nossas empresas, numa altura em que alguns dos nossos mercados mais importantes, como Angola e Brasil, estão a atravessar dificuldades”, analisa Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal. “Se a crise que assolou o mercado espanhol se fez sentir nas nossas empresas e, também para muitas, o mercado interno é cada vez mais o mercado ibérico, é evidente que vamos beneficiar da retoma espanhola”, aponta.

No caso da construção automóvel, a crise foi mais do que ibérica e fechou fábricas por toda a Europa, culminando em 2009. Reestruturadas, as empresas europeias procuraram novos mercados na Ásia e nas américas e os últimos dois anos já foram de crescimento. Espanha, Alemanha e França são, hoje, os maiores fabricantes europeus.

“A construção automóvel, em Espanha, está a crescer pelo terceiro ano consecutivo e mais depressa do que a economia – entre 5% a 10% ao ano. É garantido o arrastamento para as exportações portuguesas”, adianta Tomás Moreira, presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel. “Já no ano passado, as exportações do setor para Espanha cresceram 11%, para 1415 milhões de euros”, acrescenta.

De origem francesa, a Faurecia é um dos maiores fabricantes internacionais de equipamentos automóveis e está presente em Portugal há 64 anos. Às atuais seis fábricas portuguesas, que empregam quase quatro mil pessoas na produção de painéis de instrumentos, cockpits, catalisadores, assentos e capas, a multinacional irá acrescentar uma nova unidade em Bragança, num investimento de 40 milhões de euros que começa a laborar em setembro de 2016. No ano passado, o negócio português da Faurecia exportou 572 milhões de euros e as unidades de São João da Madeira e de Bragança estiveram entre as maiores exportadoras para Espanha, onde fornecem fábricas da VW/Seat, Ford, Mercedes, Renault/Nissan e Peugeot/Citroën. “A produção de componentes automóveis em Portugal é competitiva à escala europeia, destinando-se maioritariamente (88%) à exportação para toda a Europa”, disse Christophe Schmitt, vice-presidente executivo da Faurecia Emissions Control Technologies, explicando ao Dinheiro Vivo o investimento em Bragança, anunciado há um mês.

Entre as fornecedoras portuguesas de matérias-primas para a indústria automóvel espanhola está outras das dez maiores exportadoras: a Repsol Polímeros. A partir da refinaria de Sines saem “produtos para o fabrico de plásticos, desde películas finas para a indústria alimentar até às tubagens para a indústria automóvel, a agricultura, a construção civil”, explica fonte da empresa, sem querer divulgar que percentagem dos 85% da produção exportados se destinam a Espanha.

À medida que as indústrias espanholas aumentam a produção para responder à maior procura interna e ao aumento das exportações, também a Petrogal é chamada a fornecer mais gasolina, gás e gasóleo. “A Europa sempre foi deficitária em gasóleo e os investimentos que fizemos nos últimos anos já nos permitem exportá-lo, ainda que a descida da cotação do petróleo possa quase anular esse aumento de exportação pela descida no valor”, explicou fonte da Petrogal.

No caso da Phillip Morris (PM), que produziu 48 mil milhões de cigarros em 2014, a Tabaqueira exporta 66% (274 milhões de euros) para Espanha e prevê “um crescimento importante em 2015 e 2016, quer em volume quer em valor”, enquanto o mercado doméstico mantém uma “significativa quebra”. As exportações da principal fábrica da PM na Europa cresceram 25% em 2014 (565 milhões) face a 2013 (453 milhões) e, neste momento, “o volume exportado para Espanha excede já o total das vendas da Tabaqueira no mercado português”.


As 10 maiores exportadoras para Espanha

  1. Petrogal A maior exportadora portuguesa para Espanha em 2014 foi a Petrogal, posição que deverá manter este ano graças às vendas de combustíveis, com aumento de procura do gasóleo, ainda que a preços mais baixos.
  2. Phillip Morris (Tabaqueira) A Tabaqueira, detida maioritariamente pelo grupo Phillip Morris, já vende mais cigarros a Espanha do que a Portugal. Em 2014, 66% da produção de 48 mil milhões de cigarros seguiram para o país vizinho.
  3. Repsol Polímeros Instalada em Sines, a empresa fornece produtos para o fabrico de plásticos, desde películas a tubos, utilizados nas indústrias de construção civil, alimentar e automóvel. Exporta 85% da produção para a Europa.
  4. Portucel Soporcel A Portucel Soporcel exporta cerca de 95% da produção de papel para quase uma centena de mercados, mas não divulga dados específicos de cada um deles. Em 2013, exportou 1,2 mil milhões de euros.
  5. Renault Cacia A fábrica de Aveiro produz, há 35 anos, peças e componentes para veículos Renault e Nissan na Europa. É a maior exportadora do distrito de Aveiro, com 262 milhões de euros exportados em 2014.
  6. Faurecia – Escapes Situada em Bragança, onde a atividade irá aumentar com a nova fábrica em 2016, produz tubos, silenciadores, conversores catalíticos e filtros de partículas. Exportou 242 milhões de euros para 12 mercados (2013).
  7. Santos Barosa Com 126 anos, a empresa da Marinha Grande mantém as exportações em alta (cerca de 80% da produção) e foi a sétima maior exportadora para Espanha em 2014. O volume de negócios foi de 133 milhões de euros.
  8. RGVS Ibérica Sedeada na Maia desde 2010, produz bicicletas e calçado em exclusivo para as 772 lojas Decathlon de todo o mundo, sendo a principal marca a B”twin. Em 2013, exportou 132 milhões de euros para 16 mercados.
  9. Faurecia – Assentos A unidade negócios Faurecia Automotive Seating, sedeada em São João da Madeira, produz também em Nelas e em Vouzela. Exportou quase 170 milhões de euros (cerca de 90% da produção) em 2013.
  10. BA Vidro Sedeada em Avintes, no distrito do Porto, a fábrica de vidro Barbosa e Almeida exportou, em 2013, mais de 180 milhões de euros (60% da produção) para 44 mercados, mas não divulga os dados de negócios.

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