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Entrevista a José Couto // Presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA)

“O que a indústria mais quer é não perder postos de trabalho” A expectativa é que haja uma retoma do mercado até2021, para que a queda não seja tão pronunciada, espera o empresário, realçando, por outro lado, que a saída de quadros significa perda de competitividade

in 100 maiores e melhores empresas do distrito de Leiria e concelho de Ourém de 2019 | REGIÃO DE LEIRIA, 30-07-2020

Entrevista de Camilo Soldados a José Couto // Presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA)


Qual é o estado das empresas do sector automóvel?

Neste momento, aquilo que sabemos dos nossos associados é que as empresas recomeçaram a trabalhar. Neste mês de julho várias empresas abandonaram este processo de lay-off simplificado porque têm encomendas e não cumprem as regras dos 40% [de quebra na faturação].

Estão a tentar encontrar outras formas de ajustar os custos ao nível de produção, sempre com o receio de que, em setembro ou outubro, se volte a uma situação de paralisação da atividade. Os construtores automóveis estão a produzir para os seus parques, para o seu stock e à espera de que o consumo reaja. É uma situação de alguma precariedade, tendo em conta que as empresas vão iniciar os seus processos de produção e poderão ter que parar novamente. Neste momento, há a preocupação em adaptar os custos e a estrutura da empresa às expectativas dos mercados, o que significa adequar o quadro de pessoal à atividade. É uma das alternativas, uma vez que as propostas do governo para bloquear os despedimentos não são adequados para esta indústria.

As ajudas não são suficientes para que as empresas consigam reter o número de funcionários?

Suficientes é uma coisa, não serem adequadas é outra. Estas medidas não são adequadas à indústria automóvel. Ter que baixar custos é fundamental, promovendo a adequação do quadro de pessoal. Isto com muita pena da indústria automóvel, que entre 2007 e 2019 criou 19 mil postos de trabalho e formou-os. Portanto, teve um custo. A competitividade destas empresas tem muito a ver com a qualidade dos seus trabalhadores. Despedir é subtrair à competitividade das empresas.

Quais seriam os números dos despedimentos?

A expectativa que os nossos associados nos deram andava na ordem de 12 mil postos de trabalhos, num universo total de 69 mil. Se as piores expectativas se manifestarem, o número poderá ser acima dos 12 mil. Se houver um aumento da procura, o número será menor. No ano passado, a indústria de componentes para automóveis faturou 12 mil milhões de euros. Este ano, a expectativa é faturar 8,4 mil milhões de euros.

Além de despedir, quais serão outras medidas que as empresas poderão tomar para reduzir custos?

Estas empresas são obrigadas a ter um sistema muito escrutinado de qualidade para poderem ser fornecedores da indústria automóvel. Há um conjunto de investimentos prévio aos processos de produção que não é descartável de um momento para o outro. A diminuição de custos significa internalizar muitas atividades que estavam externalizadas e diminuir atividades de investigação e desenvolvimento. Mas é claro que, na estrutura de custos destas empresas, o pessoal tem um peso significativo.

Os cortes na investigação de desenvolvimento podem comprometer a intensidade tecnológica a curto prazo.

Essa é uma questão muito importante. A indústria de componentes e automóvel, de uma forma geral, necessita de investir todos os anos. Para ganhar negócios é preciso que as empresas se mantenham tecnologicamente competitivas. A paragem neste processo de investimento fará com que, comparativamente, esta vantagem desapareça em termos europeus.

Quando falava na perspetiva de voltar a parar, está a referir–se a não haver encomendas para manter a atividade ou está a falar de novo período de confinamento?

A segunda vaga da recessão vai ser antes da segunda vaga da pandemia. Do ponto de vista económico, depois do Verão, é preciso perceber se há ou não consumo e se os gostos dos consumidores continuam a ser os mesmos. Há um desvio da procura para outro tipo de produtos. O mercado europeu, até este momento, caiu 3,7 milhões de automóveis em 2020 relativamente a 2019. É uma queda de 14 milhões para 10 milhões. A expectativa é chegarmos ao final do ano com uma queda de consumo de 30% e não há nenhuma empresa que aguente uma queda de 30% sem fazer ajustes na sua estrutura de custos.

Que resposta acham que poderia o governo dar?

As medidas do governo português eram provavelmente as possíveis numa reação rápida. O que consideramos é que é preciso olhar de outra forma. Por exemplo, as associações que estão na MOBINOV, que é o cluster da indústria automóvel, em conjunto com o cluster dos moldes, propuseram ao governo um conjunto de medidas. É importante que o governo ajude a manter o nível de investimento para que as empresas continuem competitivas. Pedimos ao governo que fossem encontrados meios de o Estado injetar fundos nas empresas, sem que isso causasse o aumento do endividamento. Mais tarde, obviamente que o Estado poderá recuperar [os fundos]. Fomos apanhados num momento em que estamos a investir no aumento do nível de automatização, de robotização, de melhoria dos sistemas de informação: tudo aquilo que é um quadro referencial da indústria 4.0. Se pararmos o processo nesta altura, vamos ter problemas mais à frente.

As medidas que propusemos ao governo prendem-se com isto: capitalizar as empresas e aumentar o nível de competências internas das empresas, já que temos esta baixa de atividade.

Nesse processo de capitalização, admitiriam que fossem impostas salvaguardas dos postos de trabalhos?

O que a indústria mais quer é não perder postos de trabalho. Para continuarmos a ser competitivos temos que ter pessoas qualificadas. Estamos abertos a todas as contrapartidas e a esta discussão. Aceitar que o Estado posso interagir neste processo de maneira a capitalizar já significa um novo posicionamento relativamente ao que são os instrumentos tradicionais de apoio às empresas.

Como é que se pode dar a volta a esta situação? É uma questão de esperar que se retome a normalidade?

Esta indústria não tem alternativas. Tem que esperar que os clientes lhe façam encomendas. Não podemos pôr uma peça que é para determinado automóvel noutro automóvel. Há aqui uma cadeia de produção muito fechada.

Neste cenário há alguma perspetiva positiva?

Acreditamos que possa haver um crescimento do consumo. A expectativa é de, na pior das hipóteses, chegarmos ao final do ano com uma queda de 30% e que se possa ter uma recuperação para níveis de 2019 no final do primeiro trimestre de 2021. Se isto acontecesse, esperamos que grande parte das empresas encontrem metodologias para se manterem ativas e com capacidade de responder a novos desafios. Abaixo deste número, teríamos um desastre. Temos também que pensar que os consumidores vão ter novas formas de escolher. Há um processo de aceleração no novo conceito de mobilidade, mas também na sensibilidade relativamente às questões ambientais. Provavelmente vamos ser confrontados com modificações mais rápidas.

Esta ruptura causada pela pandemia pode orientar a indústria mais para o elétrico?

Acreditamos que a motorização elétrica vai ter um incremento. Sabemos que os nossos clientes estão neste momento a desenvolver novos produtos nesse sentido. Hoje há também soluções que têm impactos negativos muito menores em termos ambientais e isso também é um caminho que se vai fazer paralelamente ao processo de eletrificação dos motores.

Como consequência deste período de confinamento, algumas cidades europeias, incluindo portuguesas, anunciaram alterações à forma como é feita a mobilidade nos seus centros. Como vê uma maior restrição à circulação do automóvel nas cidades?

Em 2019, essa era já uma das nossas preocupações. Acreditávamos que esse efeito sobre a produção automóvel iria ter repercussões e iria levar a alguns ajustes da capacidade produtiva instalada. No final deste processo, que poderá acontecer no final do primeiro semestre de 2021, teremos que perceber o que realmente mudou e quais foram efetivamente os efeitos. Será muito importante perceber, por exemplo, como evoluiu o conceito de car-sharing, se houve diminuição da atividade deste conceito… Ainda é cedo para perceber se houve alterações radicais em relação àquilo que pensávamos que seria o futuro.

 


 

PERFIL

José Couto é o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) e integra o conselho de administração da MOBINOV, a associação que representa o cluster automóvel. Como empresário, administra a Microplásticos, sediada na Figueira da Foz. Desde 2010 que lidera o Conselho Empresarial do Centro / Câmara de Comércio e Indústria do Centro, uma estrutura que nasceu em 1993. Integra também a direção da Confederação Empresarial de Portugal como vogal.

 

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