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Entrevista a António Saraiva, Presidente da CIP

“Devem ser fiscalmente premiados os patrões que coloquem dinheiro nas empresas”

in Oje, por Vítor Noronha e Carlos Caldeira, 25-06-2015

Um dos maiores problemas que o país enfrenta é a recapitalização do tecido empresarial”, afirma António Saraiva, presidente da CIP. Admite que deveria existir algum programa específico de estímulo aos capitais próprios “premiando, em termos fiscais, os empresários ou donos das empresas que coloquem o seu dinheiro nas mesmas”.

Saraiva diz que a Europa tem de se repensar, pois concorre com os EUA e Ásia, com motores de desenvolvimento diferentes. Sobre a Grécia, acredita numa solução de última hora.

Qual dos programas eleitorais, entre o da coligação e do PS e do PSD, melhor define a reindustrialização do país?
É uma boa questão. Em termos da reindustrialização, diria que nenhum dos programas atenta especificamente a essa vertente. Isto porque, em vez de falar de reindustrialização, prefiro falar em política industrial para o século XXI. Essa é que deve ser, de facto, a preocupação daqueles que têm responsabilidades quer políticas, quer associativas, empresariais ou sindicais: de que política industrial é que Portugal precisa para o século XXI? Preocupada com isso, a CIP vai realizar, nos próximos dias 9 e 10 de julho, um congresso no qual um dos principais temas é esse.

Regressando à sua pergunta, penso que nenhum dos programas pensa, de facto, qual deve ser a política industrial para o século XXI em Portugal. Espero que, com o congresso e as propostas que nele produzirmos, possamos contribuir positivamente para que as posições dos partidos, sejam eles quais forem, e que aqueles que vençam as próximas eleições as tenham em atenção e possam incorporar, nos seus programas, o conjunto de respostas que vamos dar. Porque, muito honestamente, não identifico, em nenhum deles, propostas concretas como aquelas que nos permitiremos fazer para pensar numa política industrial para o século XXI em Portugal.

O tecido industrial está preparado para avançar com projetos e candidatar-se aos dinheiros comunitários disponíveis para o Portugal 2020?
O programa Portugal 2020, com os 25 milhões (de euros) que terá disponíveis, tem-se revelado de uma complexidade burocrática, administrativa e ao nível da regulamentação do próprio programa – que, em primeiro lugar, já regista, na nossa perspetiva, algum atraso na sua implementação, – é de tal modo exigente que, aquilo que são as candidaturas e os valores das taxas de juro dessas candidaturas com o valor que hoje uma empresa com contas saudáveis e exporte consegue no acesso ao crédito, não sei se valerá a pena recorrer a um apoio centrado no Portugal 2020.

Possivelmente, o melhor é fazerem-no junto da banca, atendendo a que o custo do dinheiro é hoje extremamente baixo e não tem toda aquela regulamentação pesada e burocrática que o Portugal 2020 tem. Daí dizer-lhe que a complexidade da burocracia e as enormes exigências do Portugal 2020 fazem-me recear que muitas empresas não venham a aceder ao programa. Gostaria de estar enganado, sei que muitas empresas têm vontade de se candidatar. Veremos se, entre a vontade e a execução, não haverá uma diluição dessa vontade.

Em termos de impacto no país, a sua perspetiva não é muito positiva?
Sou otimista por natureza pelo que não direi que não é muito positiva. É evidente que esta nova, e quase última oportunidade, que temos com os planos comunitários e se pensarmos que temos o Horizon e o Portugal 2020, que se fala de um plano Juncker que pode alavancar até 320 mil milhões de euros, teremos aqui um conjunto de mecanismos que as empresas europeias em geral, e as portuguesas em particular, podem aproveitar. Podem desta forma dar saltos significativos com melhor competitividade e promoverem o investimento, que começa a dar alguns sinais de retoma. Temos de saber ler, de facto, os sinais que estão no terreno: não podemos ignorar que o investimento, que vinha registando valores praticamente de 2000, dá hoje sinais de começar a fazer-se.

Começa a sentir-se uma retoma da confiança e o investimento começa a dar alguns sinais de retoma, mas ainda são valores muito baixos, partimos de uma base muito baixa. A necessidade de investimento das empresas portuguesas e de acesso ao financiamento não se compadecem com alguma burocracia excessiva, que é a crítica que faço à regulamentação do Portugal 2020, que deveria ser mais facilitada. Não defendo que seja mais facilitada para permitir tudo. Deve haver critérios rigorosos e, obviamente as empresas têm ser responsabilizadas e os candidatos pelas candidaturas que fazem, mas de acordo com a situação do país, com a situação das empresas, e não sermos tão fundamentalistas como temos sido na aplicação das regras comunitárias, às vezes suplantando as próprias regras comunitárias. Por isso receio que, entre a necessidade de investimento das empresas portuguesas e o efetivo investimento que venha por essa via, possa haver aqui alguma distorção entre a necessidade, entre a manifestação de vontade, e depois, a efetivação desse acesso por essa via.

De que valores podemos falar em termos de valores comunitários globais e aquilo a que as empresas poderão efetivamente aceder?
Para a parte industrial, falamos de 25 mil milhões de euros. Temos depois o Horizon 2020 e temos também o plano Juncker, que pode chegar a 315 mil milhões. Agora temos de ver é o ponto de partida, porque o plano Juncker parte de uma base inicial muito baixa e depois espera-se que o fator multiplicador 15 venha a alavancar esses capitais que promovam esse investimento nesta ordem de grandeza. Temos de acreditar que assim é mas, para isso, é necessário estimular a economia no Estados-membros mais deficitários, porque a UE continua muito desigual. Temos Estados excedentários no norte da Europa e Alemanha e temos Estados deficitários. A solidariedade europeia já deveria ter harmonizado um conjunto de fatores, pois ainda sentimos e constatamos uma grande diferença dentro da UE. Isto permite-me dizer que a UE em que entrámos em 1986 não se compara com aquela que temos hoje. Por isso, tem de haver, por parte das instâncias comunitárias, uma reformulação, uma reestruturação porque, como costumo dizer, crescemos em território mas reduzimos em política. Há aqui uma necessidade de um conjunto de reformas, de visão, de pensar a Europa hoje no quadro da globalização em que estamos inseridos e posicioná-la dando-lhe estímulos, desde logo à Europa enquanto um todo e depois a cada Estado-membro com as suas especificidades e estimulando a economia. E aí é que nem a Europa, nem Portugal, na minha opinião, terão feito, até agora, o melhor. Portugal não fez a reforma do Estado. Não fazendo a reforma do Estado, não encontrou margem para estimular a economia e esse é o grande desafio que o novo Governo tem pela frente, porque, independentemente do aproveitamento dos fundos comunitários que se possam fazer, se não fizermos o nosso trabalho de casa, se não tivermos um Estado mais eficiente e mais magro, se não promovermos uma efetiva redução da máquina do Estado, se não fizermos a verdadeira reforma do Estado, se não olharmos para problemas como a natalidade ou a sustentabilidade da segurança social de frente, não teremos margem para estabilizar a economia. Reduzindo a despesa tem seguramente aí margem para estimular a economia com uma nova política fiscal que seja mais amiga do investimento, com uma justiça mais célere, com licenciamentos mais ágeis, enfim, há aqui um conjunto de aspetos que têm de ser mexidos para que a economia seja estimulada e para que as empresas portuguesas sejam incentivadas a fazer mais e melhor. Um dos problemas que temos, para além do financiamento, é a recapitalização do tecido empresarial português. Temos de ir aos capitais próprios e perceber que as estruturas de capitais das empresas estão hoje muito empobrecidas e levar a cabo um plano de recapitalização das empresas.

Deveria ser feito algum programa específico?
Poder-se estimular os capitais próprios premiando, em termos fiscais, os empresários ou donos das empresas que coloquem o seu dinheiro nas mesmas, de modo a que seja melhor do que porem o dinheiro a render na banca, embora hoje, como sabemos, as taxas de juro não sejam nada atrativas, mas enfim…

Há que efetuar um pensamento global para alterar um conjunto de práticas fiscais, administrativas e burocráticas de modo a que as empresas, com este quadro comunitário de apoio e as verbas que podem vir a captar, com os estímulos que o próprio país lhes pode dar para aumentar a sua competitividade, removendo estes obstáculos que enunciei. Quero ser otimista e penso que esse caminho, embora lento, está a ser feito. Perdemos algum tempo. Temos de fazê-lo num amplo consenso nacional. O próximo Governo terá de ter estabilidade parlamentar para encetar as reformas que estão por fazer. Os parceiros sociais também terão de contribuir com um programa com o acordo social que, a par da estabilidade política em sede parlamentar, coloque o país na senda do desenvolvimento e do crescimento, aproveitando aquilo que a Europa hoje ainda nos concede, mas olhando para nós próprios e resolvendo os nossos problemas estruturais, porque não é a Europa que os irá resolver, somos nós.

Qual dos programas eleitores melhor defende as empresas em Portugal?
Pela leitura rápida que fiz dos dois, tenho alguma dificuldade em responder a essa pergunta. Careço de ver melhorados alguns aspetos (que, seguramente, a discussão e a campanha vão clarificar) para conseguir responder a essa pergunta. Muitas das propostas que nos permitiremos fazer no nosso congresso vão ao encontro, precisamente, desse rumo. Vamos tentar, com as nossas propostas, enriquecer as propostas que os partidos tenham a apresentar ao país. Porque, naquelas que já foram apresentadas, detetamos algumas lacunas para atingir esse objetivo. Por isso, no congresso, apresentaremos, nas nossas conclusões, aquilo que a CIP quer do novo Governo, seja ele qual for.

O tema da Segurança Social tem dominado as discussões políticas entre os partidos do Governo e o PS. Concorda que a sustentabilidade da Segurança Social é um tema que deveria ser discutido pelos partidos do arco da governação?
É um tema que tem forçosamente de ser discutido. Os últimos governos têm adiado uma discussão aprofundada dessa matéria. A Segurança Social e a sua sustentabilidade têm de ser olhadas de frente. O novo Governo que sair do quadro eleitoral de outubro vai ter de encarar esse problema em sede parlamentar e, em concertação social (com os parceiros sociais), definir um correto caminho para garantir a sustentabilidade da Segurança Social. É, por isso, uma discussão inadiável que os partidos que pretendem ser Governo vão ter de enfrentar, apresentar soluções, discuti-las no Parlamento e com os parceiros sociais. Essa discussão é inadiável.

Que análise é que faz às declarações sobre o impacto na mexida na TSU? Qual é a sua posição? Os quatro pontos percentuais devem cair, como diz o PS? Há riscos de a despesa da Segurança Social de tornar incomportável ou tem a expectativa de que a criação de emprego compense o corte?
Temos defendido que, para melhorar a competitividade das nossas empresas, é necessário reduzir alguns custos. Temos defendido igualmente que a TSU deveria, para os empregadores, reduzir-se – independentemente de se num único momento ou de forma gradual – por diferenciação positiva. O que quero eu dizer com isto? Que a diferenciação da TSU não deve ser alargada a todas as atividades e setores, já que alguns são protegidos e não precisam dessa redução, mas naqueles que são produtores de bens e serviços transacionáveis e mais expostos à concorrência internacional. Este seria um fator acrescido para a melhoria da sua competitividade e, por isso esses, e só esses, é que deveriam ter uma redução seletiva da TSU. Esta é, no entanto, uma discussão que vai ter de ser feita num quadro mais global. Digo isto porque, quando nós estamos a pensar a sustentabilidade da Segurança Social e sabemos que cada ponto percentual na TSU equivale a 400 milhões de euros, em números redondos, e quando se pensa reduzir, ou ao trabalhador ou ao empregador, essa taxa, temos de perceber os impactos que ela vai ter e com que receita se pode se pode compensar essa desejada redução. E temos corajosamente, olhando para todo e não apenas para parte do problema, de ter uma correta política definida de dizer que temos aqui um aumento de receita que obtivemos por redução da máquina do Estado, pela tal reforma do Estado que se tem de fazer, por arrecadação de receita desta ou daquela forma. Em tempos, chegámos a defender o IVA social, ou seja, aumentar o IVA para ter melhoria da TSU, só que já não era possível porque as taxas de IVA estão demasiado elevadas, o que também traz outros efeitos depois, em termos de concorrência desleal e de fuga. Por isso, temos de olhar para o problema fiscal de um modo global, temos de olhar para a sustentabilidade da Segurança Social a par dessa política fiscal e ver onde podemos estimular, com que receitas é que podemos provocar essas reduções e ser realistas e corajosos – realistas na avaliação, corajosos na terapia. E, se houver margem para reduzir a TSU encontrando compensações adequadas, que se reduza; se não houver margem, lamentavelmente, se calhar chegamos à conclusão de que é preferível, para já, não lhe mexer. É uma discussão que tem de aprofundada, séria e amplamente discutida, quer com os partidos que venham a ser Governo ou tenham responsabilidades parlamentares (não só aqueles que vão ser Governo), quer com parceiros sociais numa discussão séria, para não embarcarmos em demagogias e medidas fáceis. O país exige que sejamos sérios e rigorosos nas avaliações e, depois, que se lancem medidas que estimulem a economia e as empresas, mas de forma sustentada também, e não por modas ou por questões que, mais tarde, são retiradas, porque se percebeu que não seguimos o melhor caminho. É uma avaliação que tem de ser feita com seriedade.

Sobre o aumento da Segurança Social e o problema dos 600 milhões que foi evidenciado pelo ministro das Finanças, que terá de ser resolvido em 2016, o porta-voz do PSD, Dr. Marco António Costa, já disse que não haverá cortes nas pensões, até porque isso não passaria no Tribunal Constitucional (TC). Perante este cenário, antecipa um aumento de impostos?
Tenho alguma dificuldade, até porque não conheço os números com que o Governo se mexe, mas sei que ainda não ultrapassámos o “Cabo das Tormentas”. Quando se diz que já podemos estar tranquilos porque a austeridade e as dificuldades passaram, sei que não é verdade. Sei que ainda vamos ter pela frente um período de três, quatro anos (desejo eu que sejam só estes anos) de continuadas dificuldades. Por isso, o que se pede ao futuro Governo, seja ele da composição vier a ser, e aos partidos responsáveis que venham a ter assento no Parlamento, é que estas discussões, como eu disse antes, sejam sérias e nos deixemos de demagogias fáceis e baratas. Temos de perceber a despesa e a receita que temos – isto é como nas nossas empresas ou nas nossas casas. E não é porque o TC não permite. Temos de fazer uma avaliação correta, sabermos o quadro institucional e constitucional em que nos movemos e por isso, o Governo tem de saber onde arrecada receita, onde deve canalizar melhor a despesa, promovendo esta reforma do Estado, que tem de ser encarada de frente e, efetivamente, realizada.

Voltando à questão anterior, a proposta do PS de aumento do rendimento disponível via a redução da TSU, é uma medida saudável na atual conjuntura do país? Vai ou não criar mais emprego?
Não sei se vai criar mais emprego, temos é de estimular o consumo interno. É evidente que conciliar crescimento económico com estabilidade de finanças públicas é uma equação difícil, mas temos de fazê-lo. Temos de saber estimular o desenvolvimento, o crescimento económico e manter a sustentabilidade das finanças públicas. Temos de, desejavelmente, aumentar o consumo interno. Uma das maneiras de o fazer é, teoricamente, dar mais receitas às famílias através da redução de impostos, de aumentos desta ou daquela natureza salarial, na discussão de uma política salarial (que também terá de ser feita) com ganhos de produtividade, afetar ganhos de produtividade a essa política salarial, mais uma vez, numa discussão correta em sede de concertação social entre os parceiros. Há que levar mais rendimento às famílias de modo a que estas possam ter maior possibilidade de consumo. Mas depois há algumas dúvidas que eu mantenho: esse consumo é obtido por fabrico interno? É por aumento das importações? Vamos desenvolver o mercado interno porque este aumento de consumo se vai fazer em empresas nacionais, em produtos nacionais, seguindo a lógica “Compre aquilo que é nosso”? Vamos aumentar as importações porque as pessoas vão comprar mais eletrodomésticos feitos na Coreia, na China, na Alemanha, donde eles venham? Ou vão empenhar-se em novos automóveis, passo o exagero? Há que ter aqui alguma lógica quanto à forma como se deve estimular o consumo. Que ele deve ser estimulado, não tenho dúvidas, mas de forma criteriosa, promovendo o aumento do mercado e do fabrico internos, preferencialmente por substituição de importações por fabrico nacional, levando mais receita às famílias. Se é pela TSU, se é por uma carga fiscal em sede de IRS mais favorável, essa é a tal discussão que tem de ser feita. Penso que aqueles que têm responsabilidades políticas e, melhor do que ninguém, conhecem os números das contas públicas, devem encontrar as melhores formas de pôr em equação e encontrar a solução melhor.

O PS tem apostado no consumo contra a descida do IRC, como já vimos. Vê outros estímulos nas propostas socialistas?
Não vejo grandes estímulos. Admito que, com o diálogo, os partidos que já apresentaram propostas com os parceiros sociais e outros agentes políticos, venham a enriquecer essas propostas. Mas, sendo certo que não há milagres e que não se deve prometer aquilo que depois não se pode cumprir, não vejo outras formas. Mas admito que haja uma agenda em progressão no diálogo construtivo que terá de ser estabelecido entre todos nós.

Numa análise de quatro anos da governação PSD-CDS, quais os três pontos fortes e os três pontos fracos?
Nos pontos fortes foi, desde logo, termos ultrapassado o programa de ajustamento sem necessidade de recorrermos a uma nova ajuda, a um novo pedido. Há aqui um alinhamento feliz dos astros, porque o Banco Central Europeu também deu uma grande ajuda quando tirou a pressão das dívidas soberanas, com o “quantitative easing” (compra de dívida). Os juros são hoje baixos, o preço do petróleo também está com valores mais baixos e, como nós importamos, em termos energéticos também tivemos ajudas significativas. Por isso, a nossa estrutura de contas está hoje mais equilibrada, pese o facto – e agora pontos negativos – de a dívida, apesar disso, ter aumentado, independentemente das razões que depois os nossos políticos nos apresentam. O que é facto é que nós olhamos para a dívida e ela, ao invés de diminuir, aumentou. Não se fez a reforma do Estado, a “causa mãe”, em meu entender, de todo o resto. E porque não se fez essa reforma do Estado, nem se promoveu a discussão sobre a Segurança Social – que agora, em fim de mandato, vem para cima da mesa -, temos aqui problemas que o novo Governo, seja ele qual for, acabará por herdar, numa situação em que, havendo indicadores macro que, de facto, nos são mais favoráveis, alguns deles até por razões que aduzi (não deixámos de reduzir o desemprego dos 17,5% para os 13%) mas, em termos de estímulo à economia, em termos de crescimento económico como deveríamos ter, no mínimo, 2,5 a 3%, esse objetivo não foi atingido, não fizemos alguns dos nossos trabalhos de casa e essa é a crítica que eu me permito fazer.

O modelo desenhado para o país em termos de atividade exportadora é sustentável? A cobertura das importações pelas exportações é real ou uma falácia?
É real, nós decrescemos. O peso das exportações no PIB é hoje francamente melhor do que foi no passado recente. Ainda estamos longe de outros países europeus à nossa dimensão e escala que têm um nível de exportações incomparável, mas reconheço que isso se deve só às empresas – não vale a pena este ou aquele partido tentarem aproveitar-se em relação a isso. Esse sucesso deve-se aos empresários, à sua resiliência, à sua aposta em novos produtos, em diferenciação, em inovação, em irem para novos mercados fora da Europa, um mercado que era tradicional. É uma realidade inegável que isto se deve aos empresários e às suas empresas. Mas hoje estamos efetivamente melhor nas exportações, e expurgando aqui o efeito da refinação, estamos de facto melhores nas exportações. Temos hoje um conjunto de empresas que acrescentaram valor aos seus produtos, diferenciaram-nos, e não falo apenas do calçado. Fala-se muito do calçado como um bom exemplo, e é, mas temos muitos outros na área dos moldes, na das máquinas e ferramentas. O setor metalo-mecânico, de que se fala pouco, é o principal e maior exportador nacional. Temos empresas do setor metalúrgico com produtos e equipamentos inovadores. Há aí uma batalha que está, de facto, a ser ganha, que tem margem de progressão, quer em novos mercados, quer em aumento da cobertura dos mercados tradicionais, em que as empresas portuguesas estão apostadas.

A estratégia de Portugal perante a CPLP é a correta ou estamos a perder no Brasil e em Angola?
Temos tido alguns altos e baixos na nossa relação com a CPLP. Temos uma preocupação acrescida, e eu aí, permita-se-me a imodéstia, tenho um papel acrescido de preocupação porque a CIP preside, através de mim, à ELO, a Associação de Cooperação e Desenvolvimento, que acabou de produzir um documento que entregámos ao Sr. primeiro-ministro e que é um relatório final de um conjunto de trabalhos que fizemos com as principais exportadoras portuguesas. Empresas tão significativas como a Galp, a Visabeira ou a BP, entre muitas outras, participaram neste relatório sobre lusofonia económica onde propomos um conjunto de medidas não só viradas para a CPLP, a sua importância, as suas oportunidades mas também para os constrangimentos, que devem ser enfrentados, mas também para outras regiões às quais, com esta questão da lusofonia, podemos chegar. Se pensarmos na ASEAN por causa de Timor-Leste, se pensarmos no Mercosul com o reforço do Brasil, a Cedeao com a Guiné-Bissau e Cabo Verde ou na SADEC com Angola e Moçambique, temos uma panóplia de países, de zonas geográficas e de dimensão populacional em que (CPLP e não só) temos a capacidade e a facilidade, por questões culturais, linguísticas e de proximidade de afetos, de chegar a um mercado de 1200 milhões de consumidores. Isto para dizer que a CPLP é uma zona, se quisermos considerá-la como um mercado com todos os países que a integram, à qual temos de prestar mais atenção e dar alguma prioridade no relacionamento diplomático e empresarial. Esse esforço está a ser feito e espero que, com trabalhos deste género, possamos dar saltos qualitativos para alcançar esse objetivo.

Na sua ótica, como deve ser encarada a emigração? Deve ser encarada como uma fase de formação dos jovens ou como uma praga nacional?
Sou daqueles que acham que as oportunidades hoje estão no mundo inteiro. O nosso país é pequeno. Este retângulo, que tanto amamos, tem hoje poucas oportunidades. Não vamos criar grandes oportunidades nos próximos três ou quatro anos, mas todos os anos saem fornadas de jovens altamente qualificados das nossas universidades sem grandes oportunidades num mercado de trabalho que não está hoje a admitir essas suas capacidades. Por isso, as oportunidades devem ser vistas “fora da caixa”, temos de sair das zonas de conforto. É evidente que isto, em termos familiares, traz problemas de afeto, porque os pais, invariavelmente, gostam de ter os filhos perto. Há aqui toda uma cultura familiar que tem valores e referências.

No entanto, se a oportunidade estiver em Espanha, França, na Alemanha ou em África, isso permite que o jovem tenha aí a oportunidade de desenvolver o seu futuro e munir-se de novas experiências, novas ferramentas, mas sobretudo a oportunidade de trabalho que hoje, lamentavelmente, Portugal não consegue dar. Por isso, o jovem deve ter uma mentalidade “out of the box”, porque o mundo é, hoje, a oportunidade. É um erro pensarmos que Portugal vai ter capacidade para absorver todos os nossos licenciados nos próximos tempos, porque não vai.

É uma mentira?
É mentira. Por isso, os jovens têm de ter esta visão e irem à procura da sua oportunidade, esteja ela onde estiver.

A nível de políticas estruturantes europeias, recentemente, António Costa defendeu reformas estruturais à medida de cada país e, desta forma, abandonar a ideia da austeridade. Estas ideias são viáveis ou uma miragem?
Não podemos ignorar que a União Europeia precisa rapidamente de se repensar. A UE é hoje um espaço económico que se confronta numa concorrência feroz com outros blocos económicos – EUA, Ásia -, que têm motores de desenvolvimento diferentes dos nossos – e a Europa tem de se reposicionar e repensar. E porque não caminhámos no sentido federal (como, na minha perspetiva, lamentavelmente, não se tem caminhado), continuaremos a ter esta coisa dos 28 Estados-membros com diferenças de excedentes de um lado, défices do outro, políticas fiscais e bancárias diferentes. Se a Europa quer ter um papel no mundo, tem de repensar e reestruturar as estruturas comunitárias. Ora, como é que isso se obtém? Não é com uma varinha mágica. Cada um dos 28 Estados-membros tem de ter força bastante e uma voz forte para recolocar a Europa nos carris inicialmente gizados pelos “pais” da Europa e dos quais saímos.

Por isso, quando ouço responsáveis partidários, sejam eles quais forem, a pugnar por uma reformulação e pela urgência de repensar da Europa, não posso deixar de estar mais de acordo. Porque, venha de António Costa, de Pedro Passos Coelho, de Paulo Portas, de Jerónimo de Sousa, todos aqueles que defendam uma reestruturação da UE no reforço das suas competências, no reforço da sua pujança hoje, numa economia global, só pode ter a minha concordância. Por isso, se isso se faz desta forma ou da outra, será da forma que os 28 Estados-membros entenderem. Que comecem por concordar que é preciso fazê-lo que as soluções aparecerão. Mas varrer os problemas para debaixo do tapete, não os encarar de frente ou fingir que está tudo bem é o pior que se pode fazer. Não, não está tudo bem e têm de se refazer e repensar algumas políticas e, por isso, são tão válidas essas como outras que eventualmente os líderes partidários europeus tenham de encontrar.

Da estratégia da política grega, o que podemos retirar para nós?
Não podemos retirar muito.

A Grécia vai encontrando o seu caminho. Não nos esqueçamos de que eles não saíram do euro, mas já têm hoje uma moeda própria com os vales que criaram; quase arranjaram maneira de transacionar dentro do país através de uma moeda fictícia. Sinto que, para a Grécia, se vai encontrar uma solução, até porque o projeto europeu, o euro, ficaria muito enfraquecido com a saída da Grécia – hoje menos do que no passado, mas, mesmo assim, seria um rude golpe. E depois por questões geopolíticas e geoestratégicas. Não creio que os EUA tenham muito interesse em ver a Grécia sair da UE com tudo o que isso implica nestes problemas do mundo islâmico, com aquilo a que se vai assistindo na Turquia – a Grécia funciona um bocado como o tampão de tudo isto. Por um lado, há aqui questões de natureza do reforço do projeto europeu e geoestratégicas mundiais que aconselham a que se encontre uma solução para a Grécia. Por outro, se a Grécia não conseguisse ultrapassar estes problemas e soçobrasse, nós ficaríamos na linha da frente das ameaças, das pressões que teríamos sobre a nossa realidade, o que seria mau para nós. Assim, não desejo que a Grécia tenha problemas maiores do que aqueles que já tem.


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