Skip to main content

Empresas galegas invadem o Minho

Preço dos terrenos e “paz social” na região Norte estão a atrair empresários espanhóis, em especial do setor automóvel.

in Jornal de Notícias, por Ana Peixoto Fernandes, 27-08-2016

Solo industrial ao preço da chuva ou a custo zero, mão de obra mais barata, processos de instalação desburocratizados e sindicatos menos agressivos. As empresas galegas descobriram que basta saltar a fronteira para encontrar nos parques industriais do Alto Minho uma realidade bem diferente da que enfrentam atualmente na Galiza, e para acelerar na competitividade.

A reboque dos novos modelos a construir pela PSA Vigo, o setor automóvel (multinacionais incluídas) está a apostar em força em território português para expandir a produção ou mesmo deslocalizar as suas unidades.

O município de Valença, colado ao rio Minho, está a ser invadido e tem em curso uma dezena de novos investimentos no montante global de cerca de 30 milhões de euros. Já no concelho de Paredes de Coura, começará a laborar dentro de dias uma unidade do grupo galego Valver, num investimento de 3,5 milhões e com perspetivas de ampliação para os dois próximos anos.

Em Vila Nova de Cerveira – localidade que há cerca de 24 anos foi pioneira no acolhimento de empresas oriundas da Galiza, e que mantém ativas e prósperas importantes produtoras do setor dos componentes para automóveis –, o Parque Empresarial de Campos (polos 1 e 2) está completamente lotado. Nos cerca de 50 hectares de área industrial municipal do concelho, estão instaladas 40 empresas, entre as quais três grandes do setor automóvel, que empregam mais de mil trabalhadores. Ali, 90% das empresas são de origem espanhola e, segundo o presidente da Câmara, Fernando Nogueira, a procura não para de crescer, pelo que a autarquia estabeleceu recentemente um protocolo com o proprietário da zona industrial privada do Fulão, também situada na freguesia de Campos, para cedência de quatro lotes, para venda, já infraestruturados, pelo preço de 35 euros o metro quadrado. O referido parque com cerca de 40 hectares (num total de 45 lotes), encontra-se deserto, em contraste com o solo municipal, devido ao valor pedido pelos terrenos.

Do lado de lá, os lotes disponíveis para atividade industrial são escassos e os que há atingem preços exorbitantes. Se em território português os municípios cobram valores simbólicos (de 1 euro a 20 euros por metro quadrado) ou até oferecem terreno, nas zonas empresariais galegas o preço por metro quadrado oscila entre 100 e 180 euros. Luis Ceia, presidente da Confederação Empresarial do Alto Minho (CEVAL), refere este fator como um dos primordiais para “a grande solicitação aos autarcas da região, principalmente por parte dos fornecedores da PSA Vigo”.

”Em Espanha, há escassez de terrenos licenciados para a indústria e os preços são elevados, e outro fator crítico é a paz social. Os sindicatos lá são muito fortes e provocam instabilidade”, comentou, referindo que a “debandada das empresas galegas para o Alto Minho tem a ver com o anúncio dos novos modelos para a Citroën”.

Além disso, a diferença salarial também conta: os salários mínimos rondam, por cá, 500 euros, quando na Galiza andam nos 800.




GALIZA – Indústria automóvel prepara plano estratégico

O Cluster de Empresas de Automoción de Galicia (CEAGA), que agrega 106 empresas de componentes, maioritariamente fornecedoras da PSA, está a preparar o seu terceiro plano estratégico, com 35 projetos para executar a partir do 2º semestre de 2016 até 2020. Recentemente, o presidente do CEAGA, José Luciano Martínez Covel, afirmou publicamente que o setor continua a crescer, com uma faturação de 8200 milhões, manifestando alguma preocupação face à “debandada” das empresas galegas para Portugal.



EMPRESAS

O setor automóvel continua a crescer no Alto Minho. A primeira vaga de fábricas começou há duas décadas. Hoje, as antigas empresas estão em expansão e há novas a instalar-se. Valença é dos municípios que mais tem beneficiado da nova vaga, com investimentos em curso da Informoldes, TMP, Marsan, Antolin e QLS, e outros em fase de negociação. São referência na região:

  • Borgwarner
    Fábrica de componentes e acessórios para veículos automóveis.
    Lanheses, Viana do Castelo
  •  

  • Coindu
    Empresa que se dedica ao fabrico de coberturas de assentos para a indústria automóvel.
    Arcos de Valdevez
  •  

  • Gestamp Portugal
    Pertence a um grupo internacional, está em 22 países, dedicado ao desenvolvimento e fabricação de componentes metálicos e conjuntos para automóvel.
    Vila Nova de Cerveira
  •  

  • TRW
    Fábrica de peças e acessórios para o setor automóvel.
    Vila Nova de Cerveira
  •  

  • Grupo Antolin
    Indústria e montagem de componentes automóveis, comércio de equipamentos de automação e fabrico de revestimentos de interiores de teto para automóveis.
    Vila Nova de Cerveira e Valença
  •  

  • Sarreliber
    Líder europeu em galvanoplastia em plásticos.
    Arcos de Valdevez



    Instalou-se na Galiza mas volta ao Norte

    VALENÇA | Empresário português criou fábrica de moldes em Porriño e agora está a investir do lado de cá

    Benjamim Amorim, 57 anos, natural de Ponte de Lima, fabricante de moldes para injeção para o setor automóvel, instalou-se em 1999 na zona industrial de Porriño, na Galiza, mas está agora de regresso à região de origem, com um novo investimento de 3,1 milhões de euros. Proprietário da fábrica galega Informoldes, está agora a construir no Parque Empresarial de Gandra, Valença, uma segunda unidade de produção, que iniciará laboração em 2017. Fatores como a falta de terrenos industriais na Galiza, a diferença de preços dos mesmos, o nível salarial e a “afetividade” que o liga a Portugal, trouxeram-no de volta. O empresário reconhece que “a vinda para Portugal de empresas galegas tem a ver com o relacionamento com os sindicatos”. “São muito agressivos e provocam muita instabilidade. Há problemas de produtividade e dificuldade das empresas de manter os compromissos. A PSA, por exemplo, penaliza, desenvolvendo os produtos”, conta, concluindo: “Conheço uma empresa que está em vias de fechar e abrir aqui em Portugal, e como essa mais três ou quatro”.

    Na sua primeira fábrica, Benjamim Amorim emprega 32 pessoas, sendo que dois terços são portugueses oriundos de Valença, Ponte de Lima e Guimarães. “Na Galiza, não há indústria de moldes e em Portugal o setor sempre foi bastante forte. Tenho ido buscar formandos a escolas de formação portuguesas. Por outro lado, também os portugueses são menos reivindicativos”, explica. Na futura unidade, a Informoldes Portugal empregará, no prazo de cinco anos, 40 trabalhadores, e, neste momento, já está a negociar mais 7500 metros quadrados de terrenos na zona industrial de Gandra para continuar a expandir. O seu investimento é apoiado pelo IAPMEI, no âmbito do Portugal 2020.



    ”Vantagens infinitamente superiores”

    PAREDES DE COURA | Grupo galego inaugura segunda unidade em Portugal, num investimento de 3,5 milhões

    O grupo Valver, empresa de impressão gráfica de elementos decorativos e funcionais para automóveis, bicicletas, motorizadas e eletrodomésticos, tem fábricas em Mos na zona de Vigo (Galiza), na Colombia e em Paredes de Coura. Neste último município, tem instalações há quatro anos, no Parque Industrial de Formariz, uma unidade cujo principal cliente é a Dechatlon Portugal, e, dentro, de dias, inaugura um segundo investimento de 3,5 milhões.

    ”É uma fábrica que vai fazer apenas impressão com tecnologia de ponta para automóveis e bicicletas”, afirma o empresário Carlos Valcarce, 57 anos, indicando fatores para a escolha da localização para expansão do grupo: “para que a atividade seja rentável, o mais importante é que os custos de instalação sejam os mais baixos possíveis. E aí, Portugal oferece vantagens infinitamente superiores”.

    E contrapôs: “Em Espanha, instalar uma empresa, sobretudo a nível burocrático era muito complicado, e o terreno muito caro. Aqui, o solo saiu-nos muito barato. Não é um custo a ter em conta. Gastámos o valor de quatro estantes”. E assumiu: “Não tínhamos intenção de criar a primeira fábrica em Paredes de Coura, mas a Câmara facilitou-nos tanto o processo, que acabámos por vir. Quando alguém tem um projeto empresarial, não pode haver fatores de perturbação, que desviem a atenção e energia da atividade que é o que interessa”.

    Em Formariz, o grupo galego emprega, na primeira fábrica, 65 trabalhadores e a nova iniciará com 35 postos de trabalho. “Quando a fábrica estiver em plena produção, no máximo dentro de oito ou nove meses, atingiremos os 50”, afirma o empresário. Em Paredes de Coura, o grupo instalará também um laboratório de ensaios para as suas quatro fábricas.



    ”Para o setor automóvel o destino é o Alto Minho”

    Jorge Mendes | Presidente da Câmara Municipal de Valença

    Que fatores estarão a trazer as empresas da Galiza para o Alto Minho?
    Esta mudança tem a ver com os investimentos que a PSA tem em curso, para os novos modelos, K9, em 2017, e P14, a partir de 2020. Até 2026, está garantido muito trabalho para a região. Mas a PSA alertou que só conseguiria atrair novos investimentos se fosse mais competitiva. Isso seria difícil se os fornecedores se mantivessem em Espanha. A alternativa mais próxima seria Portugal e, a seguir, Marrocos. A Galiza, neste momento, não está a ser opção. Para os setores automóvel e de metalomecânica, o destino é o Alto Minho. Há fábricas a vir para Valença, Ponte de Lima, Paredes de Coura e Viana do Castelo.

    Que investimentos estão em curso em Valença?
    Neste momento, temos 10 unidades, 80% das quais galegas. O investimento atinge 30 milhões de euros.

    Valença está a ficar sem terreno industrial?
    Estamos a terraplanar mais cinco hectares. Temos duas zonas industriais, Gandra e S. Pedro da Torre. A segunda está esgotada. Não oferecemos o terreno, mas estamos com preços competitivos, sobretudo para grandes áreas, superiores a 20 mil metros quadrados.



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.