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Empresas de componentes automóveis estão a “ficar esmagadas”, alerta Adão Ferreira

Apanhadas entre a espada e a parede, as empresas de componentes vivem um “sufoco”. E a AFIA alerta que não conseguirão aguentar muito mais. Existe um risco de perda de empregos no setor, diz a associação.

in Negócios, por Pedro Curvelo, 22-09-2021


“Esmagadas.” Esta é a palavra escolhida pelo secretário-geral da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) para descrever a situação atual das empresas portuguesas do setor.

Em declarações ao Negócios, Adão Ferreira aponta como “o grande problema” das fabricantes de componentes o facto de estas não conseguirem aumentar os preços para refletir a escalada nos custos das matérias-primas e transportes.

“As margens já têm vindo a diminuir, as empresas estão esmagadas”, diz. “O termo é mesmo esse. Estão mesmo esmagadas porque estão sempre a ver as margens reduzidas. É mais uma das dores de cabeça que se está a viver atualmente”, reforça.

E, nota, ao contrário dos construtores automóveis que podem repercutir os maiores custos nos preços aos consumidores, as empresas da fileira automóvel que fornecem as fabricantes de veículos não têm espaço de manobra.

“Não há capacidade negocial para renegociar preços com os fabricantes automóveis porque a relação comercial é desequilibrada e os fabricantes de automóveis são muito mais poderosos. É o construtor automóvel que tem muito mais poder e impõe aquele preço”, sublinha. “Não há nada a fazer”, desabafa o responsável.

“As dores de cabeça têm vindo a acumular-se. Foi a pandemia, que ainda continua, foram os semicondutores, são as matérias-primas que agora também estão a aumentar… São tudo variáveis que não são controláveis pelas empresas”, lamenta Adão Ferreira.

E mesmo os dados relativamente positivos deste ano, com as exportações de componentes a resistirem sem uma queda muito acentuada – até julho encontravam-se 4,6% abaixo dos valores dos primeiros sete meses de 2019 –, as empresas não estão “numa situação comparável”.

As exportações do setor, defende o responsável da AFIA, têm sido resilientes graças sobretudo ao país vizinho, o principal destino das vendas ao exterior mas o impacto do Brexit levou a que as exportações para o Reino Unido tenham caído mais de 45% face a 2019. “As empresas não podem aguentar muito mais este sufoco. Não têm muito mais margem de manobra”, resume Adão Ferreira.

Navegar à vista

As próprias fábricas de automóveis têm vindo a mudar os seus planos de produção “quase dia a dia”, em grande medida devido à escassez de semicondutores. Isso, frisa, “ afeta toda a cadeia de abastecimento”.

A AFIA pretende apoio do Governo principalmente em termos de flexibilidade laboral e fiscalidade, por forma que “sejam criados mecanismos para que as empresas se possam adaptar rapidamente aos ciclos de produção”.

O fim das moratórias também é mais um fator de preocupação, nota Adão Ferreira. “Não temos dados, mas sabemos que muitas empresas recorreram às moratórias. Tudo o que possa controlar o nível de custos das empresas era bom.”

Perda de empregos é quase inevitável

Perante este cenário, o secretário-geral da AFIA considera que irá haver “algum ajuste” no pessoal das empresas. Ainda assim, acredita que não será muito pronunciado porque “as empresas precisam dos técnicos, que são muito especializados. A última coisa que as empresas querem é dispensar esse pessoal que, depois mais tarde, virão a precisar”.

Adão Ferreira acredita que os preços das matérias-primas tenderá a normalizar-se, mas admite que os preços dos automóveis venham a subir.

 

imagem: Paulo Duarte

 

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