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É necessária proactividade na captação de investimento

Entrevista a Tomás Moreira, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel

in Revista Industrial Forum Portugal #1, 26-10-2018


Como vê o actual crescimento da indústria automóvel, em Portugal e no mundo, e como perspectiva o futuro? Estaremos perante uma nova bolha prestes a rebentar ou o crescimento é sustentável?

De facto a indústria automóvel atravessa um bom momento bastante prolongado. Após a crise de 2008/2009, a produção automóvel mundial tem vindo a aumentar duma forma muito sustentada, passando de 62 milhões no ano 2009 para 97 milhões de veículos produzidos no ano passado.

Visto que ainda há muitos países populosos com taxas de motorização muito baixas, as projecções das consultoras especializadas indicam que a produção continuará a crescer, sendo expectável que atinja os 104 milhões no ano de 2020, se mantivermos um quadro de estabilidade mundial,

Considerando que vivemos numa economia globalizada mas com ameaças de proteccionismos e cenários de incerteza geoestratégica, com crescentes preocupações quanto à sustentabilidade de recursos do planeta, a indústria automóvel poderá a qualquer altura sofrer impacto externos que travem o seu normal crescimento.

 

Que importância, que peso real tem hoje a indústria automóvel na economia nacional – peso directo e indirecto?

A indústria automóvel em Portugal tem acompanhado a tendência de subida do mercado e tem crescido consistentemente, a taxas entre os 5 e os 10% ao ano.

A indústria de componentes só por si agrega umas 230 empresas com sede ou laboração em Portugal, com um volume de emprego directo na ordem das 51.000 pessoas. Em 2017 facturou 10,4 mil milhões de Euros, com uma quota de exportação de 85%, tendo a Espanha como principal mercado, seguida da Alemanha, França e Reino Unido.

Em termos de importância na economia nacional, em 2017 representou 5% do PIB, 7% do emprego da indústria transformadora e 16% das exportações nacionais de bens, contribuindo fortemente para o equilíbrio das contas externas do País.

É sabido que para além deste impacto directo, a indústria automóvel tem efeitos indirectos muito fortes, através duma extensa cadeia de subfornecedores e prestadores de serviços, sendo também uma importante fonte de atracção de investimento directo estrangeiro.

 

A indústria automóvel nacional considera que essa importância para o desenvolvimento do país é devidamente reconhecida e apoiada a nível interno?

As empresas da indústria de componentes para automóveis distribuem-se por diferentes códigos de actividade e produtos, tornando exaustivo e impraticável listar toda a panóplia de componentes fabricados em território nacional e dificultando a percepção da real representatividade do sector, cuja dimensão é habitualmente subestimada.

Ainda assim, fruto também dum intenso trabalho da AFIA, o Governo e os restantes organismos públicos já têm uma correcta noção do peso real desta indústria.

 

Qual o papel de uma indústria automóvel forte para o futuro do país?

A indústria de componentes merece ser apoiada devido às suas características estruturantes, potencial de crescimento e exportação, dinâmica de inovação, conceitos de qualidade total, excelência nas operações e exigência de recursos humanos qualificados, que conduz a programas de formação contínua e valorização profissional, com efeitos induzidos sobre toda a restante indústria nacional.

 

O que poderia ser feito para desenvolver ainda mais este sector vital do tecido empresarial português?

Exportando o grosso da sua produção para mercados totalmente abertos e globalizados e concorrendo livremente com todos os outros países num contexto de enorme competitividade de preços, todas as questões ligadas a custos se revestem de extrema relevância.

Apesar de Portugal ter os custos salariais mais baixos da Europa Ocidental, não se pode ignorar que competimos directamente contra países com custos de trabalho muito inferiores, nomeadamente Marrocos, na nossa zona geográfica directa. Uma excessiva inflação dos custos salariais, assim como qualquer retrocesso na flexibilidade laboral, representam um agravamento dos factores de competitividade da economia portuguesa, que nos prejudicam no confronto com os países nossos concorrentes.

O actual quadro legal português ainda não permite às empresas de uma forma suficientemente expedita, desburocratizada e sem custos extra adaptarem a laboração às variações de curto prazo do fluxo de encomendas, ao contrário do que acontece noutros países.

Também o elevado custo da energia – dos maiores da Europa (e incluímos aqui a electricidade, o gás e os combustíveis líquidos), e a elevada fiscalidade que pesa sobre as empresas têm prejudicado a competitividade das empresas.

Todas as possíveis melhorias nestes constrangimentos iriam permitir à indústria de componentes automóveis crescer ainda mais sustentadamente.

 

Qual seria o factor crítico para se conseguir trazer para Portugal outro grande construtor automóvel, outra Autoeuropa?

Podemos promover as nossas capacidades, incluindo a disponibilidade de engenheiros, incentivando e oferecendo condições vantajosas e atractivas para a instalações de centros técnicos, potenciadores de a prazo serem instaladas novas unidades industriais ou ampliadas as existentes.

Mas sobretudo é necessária proactividade na captação desse investimento. Portugal (entenda-se as entidades públicas apoiadas pelas associações sectoriais) deveria ter um plano de contacto sistemático com todos os construtores de automóveis e com os grandes fornecedores/integradores internacionais de componentes (os “Tier 1”) para captar os seus projectos e investimentos.

Muito recentemente a AICEP tem vindo a dedicar maior atenção a esta matéria, o que devemos louvar e cria expectativas de sucesso a médio/longo prazo.

No entanto não tenhamos dúvidas de que concorremos com outros países que lutam com igual (ou maior) empenhamento para captar estes investimentos, pelo que temos que criar para a nossa economia condições de competitividade que de facto sejam atraentes para novos investidores (e, já agora, para fixar os que já estão cá).

 

Que capacidade têm as indústrias nacionais – não as grandes multinacionais a operar em Portugal – para adicionarem mais valor no seu serviço, incluindo desenvolvimento de produto ou mesmo novas tecnologias?

São conhecidos os elevados graus de exigência e de competitividade desta indústria, que obriga as empresas a recorrer a processos tecnológicos sofisticados, a manter uma dinâmica de contínuo desenvolvimento e inovação de produtos/tecnologias/processos, a seguir conceitos de qualidade total e de excelência nas operações, requerendo recursos humanos altamente qualificados, só possível através de formação contínua e valorização profissional nas empresas.

O sector conta com uma elevada percentagem de investimento estrangeiro em Portugal mas também muitas empresas portuguesas se internacionalizaram, formando grupos multinacionais que actuam próximo dos seus clientes em quatro continentes.

 

Que subsectores da indústria automóvel em Portugal têm mais peso hoje e quais aqueles que têm mais potencial de crescimento?

Os subsectores com maior peso e que ainda têm margem de crescimento são a metalurgia/metalomecânica; eléctrico/electrónica; plásticos, borracha e outros compósitos; têxteis e outros revestimentos.

 

Como pode a AFIA criar sinergias à sua volta, de modo a levar a indústria nacional para novos mercados – por exemplo o Norte de África, o México ou outras zonas?

Temos vindo a acompanhar a evolução da indústria automóvel em Marrocos, a exemplo disso são as sete acções, entre missões e participações em feiras, que a AFIA realizou, desde o ano de 2008, a este país do Magreb.

A promoção da oferta nacional e a identificação de novas oportunidades assume maior relevo quanto mais se atenta no significativo desenvolvimento da indústria automóvel naquele país. Um crescimento acelerado do número de viaturas montadas que passou de 34 mil em 2008 para as 376 mil no ano de 2017. Alavancado no Plano de Aceleração Industrial 2014-2020, Marrocos chegará ao final da década com uma capacidade de produção anual de um milhão de veículos, graças aos planos de crescimento industrial da Renault (2 fábricas), da PSA – Peugeot Citroën e do recente anúncio da construção de uma fábrica do construtor chinês BYD.

Em 2017 e por ocasião da 13ª Cimeira Luso Marroquina, presidida pelos primeiros-ministros de ambos os países, a AFIA assinou um protocolo de colaboração com a sua congénere AMICA, associação marroquina da indústria e construção automóvel, que prevê estreitar as relações já existentes entre as duas associações e a cooperação técnica e comercial entre empresas.

 

Como está a indústria automóvel nacional a lidar com os desafios da e-mobilidade, novas fontes de energia e condução autónoma? E como vai fazê-lo no futuro?

Os fabricantes de automóveis e os seus fornecedores estão continuamente a investir em tecnologias inovadoras que ofereçam ao mercado automóveis mais seguros e mais automatizados, tendencialmente autónomos, e soluções mais amigas do ambiente.

O sector está atento às evoluções e as empresas estão a tomar as decisões necessárias no sentido de se prepararem e adaptarem para as mudanças que se anunciam no médio e longo prazo.

Neste momento já produzimos em Portugal componentes para os modelos de carros eléctricos mais carismáticos como o: BMW i3, BMW i8, Nissan Leaf ou Renault Zoë.

 

Que riscos enfrenta a indústria nacional face à mudança de paradigma em termos de mobilidade – por exemplo, a possibilidade de desaparecer a necessidade de componentes para motores de explosão interna?

Lê-se que os fabricantes de componentes automóveis tradicionais correm o risco de desaparecer do mercado. Esta ideia é errónea, já que a grande maioria dos componentes utilizados nos carros com combustão interna continuará a ser utilizada nos veículos eléctricos – pense-se em assentos, faróis, infotainment, painéis, pedais, portas, pneus, revestimentos interiores, tabliers incluindo airbags, vidros, volantes e tantos outros.

Acresce que os veículos com combustão interna não irão acabar. Os veículos actuais e os do futuro serão movidos por uma combinação de tecnologias que procuram transferir energia para o movimento, incluindo soluções de sistemas de transmissão eléctricos, recuperação de energia, dispositivos de aumento de potência, combustíveis sintéticos (e-fuels) e motores de combustão de alta eficiência.

A tecnologia diz-nos que não existe uma solução “para todos os gostos”: os automóveis e os veículos servem diferentes propósitos de mobilidade e os consumidores devem poder escolher o nível de potência que melhor serve as suas necessidades.

 

Que caminhos pode seguir a diversificação da indústria automóvel portuguesa?

Em termos de mercado a indústria, competindo a nível internacional, tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos o seu volume de negócios com as principais marcas de prestígio automóvel: Aston Martin, Bentley, Jaguar, Lamborghini, Maserati, McLaren, Porsche, e Rolls-Royce.

A melhoria da relação entre as referidas marcas e a indústria portuguesa demonstra a confiança entre as partes, alicerçada pela performance desta indústria.

Um número cada vez maior de empresas desenvolve internamente actividades de engenharia orientadas para a inovação e melhoria contínua dos seus produtos e processos.

O Sistema Científico e Tecnológico Nacional e muitas Start-ups trabalham continuamente na pesquisa de novos produtos, materiais, processos ou serviços que permitam diversificar a oferta nacional.

 

Como vê a actividade da AFIA em ligação com a MOBINOV, face a todos os pontos acima descritos – sinergias, complementaridade?

A AFIA e a ACAP – Associação Automóvel de Portugal foram as principais promotoras da criação da MOBINOV – Associação do Cluster Automóvel, constituída em Abril de 2016. A MOBINOV caracteriza-se como uma plataforma agregadora de conhecimento e competências no âmbito da indústria automóvel em Portugal.

A íntima cooperação, no âmbito da MOBINOV, com a ACAP, com os construtores de automóveis instalados em Portugal e com as principais entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional permite perspectivar um importante salto qualitativo em termos de coordenação de esforços e promoção do sector.

 

Como caracteriza a relação entre fornecedores e construtores, num mercado dominado pelo poder dos grandes construtores, seja em termos de preços, seja em termos de requisitos?

A indústria automóvel é uma indústria altamente competitiva e concorrencial, onde ditam os requisitos da qualidade, cumprimento de prazos de entrega e preços.

Os construtores, pela sua dimensão e poder negocial, têm de facto em relação aos seus fornecedores uma posição de força que por vezes é sentida como excessiva.

Por isso mesmo é importante os fabricantes de componentes não terem as suas vendas demasiado dependentes dum único construtor. Nesse sentido é uma vantagem importante o facto de haver uma grande número de construtores de automóveis instalados na Península Ibérica que nos permitem essa diversificação.

 

Qual a influência e o potencial de actuação da AFIA junto das suas congéneres europeias – VDA, Sernauto, FIEV – no âmbito da CLEPA?

A CLEPA – European Association of Automotive Suppliers, com sede em Bruxelas, é a associação europeia dos fornecedores da indústria automóvel que defende os interesses do sector a nível europeu, sendo reconhecida como parceira natural de discussão por outras instituições europeias, pelas Nações Unidas e por outras associações parceiras.

A CLEPA reúne mais de 120 dos mais importantes fornecedores de componentes para automóveis, sistemas e módulos, bem como mais de vinte associações nacionais, entre as quais a AFIA.

Em Junho 2018, a AFIA foi eleita para o Conselho Director da CLEPA, o que vem dar uma força e visibilidade acrescida à AFIA e consequentemente à indústria portuguesa de componentes automóveis, sendo esta nomeação o reconhecimento da crescente importância internacional da indústria de componentes automóveis portuguesa.

Graças a estarmos juntos na CLEPA, temos relações próximas e frequentes com as nossas associações congéneres – VDA (D), Sernauto (E), FIEV (F) e outras.

 

Que tipos de apoios disponibiliza a AFIA aos fornecedores nacionais e aos seus associados? Pode avançar dados concretos da situação actual e falar dos planos que existem para apoios futuros?

Para potenciar o crescimento, promovemos o sector junto de mercados-alvo seleccionados, através de missões a países ou a clientes específicos, participações conjuntas em feiras, estabelecimento de contactos com potenciais novos clientes, acções conjuntas com instituições nacionais e estrangeiras para promoção do sector e divulgação das suas potencialidades e ainda divulgação de informação relevante para os exportadores.

No campo da competitividade, desenvolvemos acções para melhorar o desempenho dos fornecedores da indústria automóvel, estabelecendo encontros – genéricos ou temáticos – para troca de informação, intercâmbio de boas práticas e valorização mútua e para estreitamento de relações entre as entidades do sector.

Defendemos directa e indirectamente, junto das empresas e junto das autoridades nacionais, todas as questões com implicação na competitividade das empresas. Incluímos aqui temas como a produtividade, a flexibilidade laboral e a simplificação administrativa, a inovação de processo e métodos de trabalho – incluindo o que se vem designando por Indústria 4.0 – questões logísticas, a investigação, a inovação e a melhoria contínua nas empresas, mas também temas de natureza macroeconómica como os custos do trabalho e da energia, a fiscalidade e outros custos de contexto.

Representamos o sector na CIP, em cujo Conselho Geral estamos representados, transmitindo as nossas realidades e preocupações e contribuindo activamente para a elaboração das suas propostas. Por outro lado, levamos ao conhecimento dos nossos associados as inciativas e informações oriundas da CIP.

Finalmente, garantimos nos órgãos de comunicação em Portugal uma presença assídua, de forma a divulgar o sector e a transmitir notícias e informações sobre a sua evolução e necessidades.

 

Que balanço faz da evolução da indústria nos últimos 30 anos?

O fabrico de componentes para automóveis em Portugal iniciou-se nos anos 60 para fornecer as primeiras linhas de montagem de automóveis que, sujeitas a exigências de incorporação nacional, eram obrigadas a desenvolver os fabricantes portugueses para substituir importações. Não tinha vocação, dimensão, qualidade nem competitividade para exportar.

Nos anos 80 e 90, com os projectos Renault e Autoeuropa, nasceram em Portugal as primeiras fábricas de automóveis com dimensão europeia, atraindo investidores estrangeiros e permitindo aos fabricantes de componentes ganhar escala.

Coincidindo este período com a entrada na então Comunidade Económica Europeia, toda a indústria começou a procurar a exportação como uma oportunidade para crescer.

A indústria portuguesa de componentes confronta-se ainda hoje com um reduzido mercado nacional, menos de 200.000 veículos produzidos por ano em média (mesmo considerando as 300 mil unidades a serem produzidos durante este ano de 2018), o que compara com mais de 20.000.000 de veículos produzidos anualmente na Europa (representamos 1%).

A indústria de componentes alargou os seus mercados e tornou-se fortemente exportadora, dedicando hoje 85% da sua produção aos mercados externos.

A expansão internacional das empresas foi fundamental para o seu processo de crescimento e para o desenvolvimento do sector, que se tornou num cluster emblemático e competitivo. No ano de 2017 as exportações de componentes automóveis atingiram os 8,8 mil milhões de euros, um record absoluto.

Dados recentes sobre o desenrolar das exportações no corrente ano, com uma taxa de crescimento de 9%, confirmam a sustentabilidade da indústria de componentes em Portugal.

 


  

TOMÁS DE CARVALHO ARAÚJO MOREIRA

Tomás Moreira é Presidente da Direcção da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel desde 2013, instituição por onde já tinha passado duas vezes anteriormente.

É também dirigente no grupo alemão KIRCHHOFF Automotive desde 1993, exercendo funções de Desenvolvimento de Mercados tanto em Portugal como em Espanha, França e América do Sul.

Nascido em 1957 no Porto, onde reside, frequentou o Colégio Alemão do Porto até ao 12º ano, após o que se licenciou em engenharia electrotécnica na TUM – Universidade Técnica de Munique.

Iniciou a sua carreira profissional em 1980 no grupo de empresas Indústrias Molaflex, que na altura pertencia à sua família, tendo, ao longo da sua carreira profissional, ocupado cargos de administração e gerência em várias empresas industriais de diversa dimensão, tanto nacionais como estrangeiras.

Em representação da AFIA tem sido orador em Seminários e Congressos, é Vice-Presidente da Mobinov – Associação do Cluster Automóvel, integra o Board of Directors da CLEPA – European Association of Automotive Suppliers e junto da CIP – Confederação Empresarial de Portugal é membro do Conselho Geral e do Conselho da Indústria.

 

 

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