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Crise dos chips quebra circuitos e arrasta indústria automóvel em Portugal. Até quando se prolongam os efeitos?

Entre fábricas que produzem automóveis ou componentes, stands e concessionários, a indústria automóvel emprega mais de 200 mil pessoas em Portugal. Num ano que devia ser de recuperação, o cenário é pouco otimista, especialmente com a escassez de semicondutores. Previsões para 2022? Só muito vagas.

in SapoTek, por Cristina A. Ferreira, 30-11-2021


Em setembro deste ano, a AlixPartners atualizou previsões sobre o impacto da escassez de semicondutores na indústria automóvel, em 2021. Espera-se agora que a nível mundial a indústria perca este ano 210 mil milhões de dólares em receitas, por se ter visto obrigada a reduzir significativamente a produção. Principal razão: a falta dos chips que hoje equipam os mais diversos sistemas num carro.

O número resulta de uma segunda revisão em baixa das previsões da consultora, já em 2021, e mostra bem como, em janeiro, ainda era difícil prever os reais impactos de uma crise que afinal pode durar até 2023. Em janeiro, a mesma AlixPartners previa que o sector automóvel faturasse menos 60,6 mil milhões de dólares este ano. A previsão, atualizada em setembro, aponta agora para perdas três vezes superiores, a refletir que este ano ficarão por produzir 7,7 milhões de unidades, face às previsões iniciais dos fabricantes, e em consequência das muitas paragens que fábricas em todo o mundo – também em Portugal – se têm visto obrigadas a fazer.

Na Europa, os números do ano passado – relativos a vendas – mostram que as vendas de ligeiros caíram 23,7%. A Covid-19 e o confinamento generalizado foram os principais responsáveis por terem sido vendidos menos três milhões de carros na região. Em 2021, e até setembro, a recuperação prevista deu lugar a uma quebra que se aproxima já dos 25%, face a igual período de 2019, antes da pandemia. Os dados apurados pela ACEA – Associação Europeia de Fabricantes Automóveis para setembro foram mesmo os piores desde 1995.

VENDAS DE LIGEIROS EM PORTUGAL DEVEM FICAR AO NÍVEL DO ANO PASSADO

Em Portugal, e durante todo o ano passado, foram vendidos 145 mil automóveis ligeiros, número que representou uma queda de 35%. Este ano, a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) espera que o número fique ainda abaixo do apurado para 2020.

Em relação à produção, os dados compilados pela ACAP até outubro mostram que o número de unidades produzidas em Portugal aumentou em quase todos os segmentos. O crescimento é de 8,1%, mas fica longe de compensar o trambolhão de 25,8% que os mesmos 10 meses de 2020 tinham representado.

A indústria automóvel não é a única afetada pela chamada crise dos chips. Os semicondutores hoje estão presentes em quase tudo o que usamos e nos rodeia, dos telemóveis aos eletrodomésticos, passando pelos dispositivos médicos, infraestruturas que suportam as redes elétricas, aos sistemas militares ou de segurança. Num mundo cada vez mais dominado por software e sistemas eletrónicos, é simplesmente impossível viver sem chips.

Em Portugal, o impacto desta escassez tem-se refletido na disponibilidade limitada de alguns produtos, como as consolas, mas tal como acontece no resto do mundo é sobre o sector automóvel que recaem as maiores preocupações.

Ao longo do ano foram anunciadas paragens em algumas fábricas e sabe-se que ao redor de cada uma destas unidades, há dezenas ou centenas de outras empresas, que quando a produção das fábricas abranda não conseguem escoar o que produzem. Note-se, por exemplo, o caso da indústria nacional de componentes para o sector automóvel.

98% DOS MODELOS DE AUTOMÓVEIS PRODUZIDOS NA EUROPA USAM COMPONENTES MADE IN PORTUGAL E MAIS DE QUATRO QUINTOS DA FATURAÇÃO DAS 375 FÁBRICAS EXISTENTES EM PORTUGAL RESULTA DE EXPORTAÇÕES.

Com a produção de carros a parar em toda a região, os efeitos são incontornáveis, independentemente das empresas se dedicarem a atividades na área da eletrónica ou elétrica (32%), têxteis e outros revestimentos, metalurgia, produção de plásticos e borrachas ou montagem de sistemas.

EXPECTATIVAS POUCO ANIMADORAS PARA UM ANO QUE DEVIA SER DE RECUPERAÇÃO

“Efetivamente algumas fábricas de construção automóvel na Europa já tiveram que parar temporariamente a produção por falta de chips. Pelo que esta situação também está a afetar a indústria portuguesa de componentes para automóveis, dadas as paragens na produção dos seus clientes”, reconhece Adão Ferreira, secretário-geral da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel.

Para além das notícias que foram surgindo ao longo do ano sobre as paragens na produção de algumas unidades industriais, é difícil fazer um balanço do real impacto da crise dos chips na atividade das maiores fábricas portuguesas do sector, como a fábrica da Volkswagen em Palmela, ou a unidade de Mangualde de Stellantis, onde se produzem comerciais ligeiros das marcas Citroën, Peugeot e Opel. Nenhuma das duas empresas esteve disponível para responder a questões.

A Bosch, que em Portugal tem fábricas em Aveiro, Braga e Ovar, aceitou comentar o tema e admite que é a unidade dedicada a sistemas multimédia para a indústria automóvel, em Braga, aquela que mais tem sofrido com a escassez de semicondutores.

“A NOSSA FÁBRICA DE OVAR, QUE TAMBÉM SE DEDICA À ELETRÓNICA ESTÁ A SER MUITO MENOS AFETADA E O QUE TÍNHAMOS PREVISTO NO PLANO DE NEGÓCIOS VAI PROVAVELMENTE SER ULTRAPASSADO, O QUE NÃO VAI ACONTECER EM BRAGA”, ADMITE CARLOS RIBAS, REPRESENTANTE DA BOSCH EM PORTUGAL.

O responsável reconhece que a repercussão da escassez de chips está a ser “uma catástrofe, com um impacto muito negativo, sobretudo na fábrica de Braga, onde o nosso plano de negócios era bom, as encomendas dos nossos clientes eram muito melhores e não estamos a conseguir fazer nem uma coisa nem outra”.

Carlos Ribas estima que “cerca de 20% do mercado tem falta de semicondutores e isso impacta-nos a nós e aos nossos clientes todos os dias […] todos os dias paramos linhas”. Para 2022 há um “otimismo muito reduzido”, refere, esperando-se ainda um ano de dificuldades, principalmente no primeiro semestre. Sinais positivos antecipam-se, sobretudo, a partir da segunda metade de 2022.

“Não há nada que se possa fazer hoje, para estar a produzir amanhã”, frisa Carlos Ribas. A própria Bosch tem anunciado investimentos significativos no reforço da capacidade de produção de semicondutores. A fábrica de Dresden, na Alemanha, que se vai converter numa das mais modernas do mundo, “até estar a trabalhar à capacidade nominal serão necessários quatro anos”, exemplifica o responsável.

FÁBRICAS DE AUTOMÓVEIS INSTALADAS EM PORTUGAL DÃO EMPREGO A 53 MIL PESSOAS

Enquanto melhores dias não chegam, as associações do sector fazem as contas às perdas que já se acumulam e às que ainda podem vir. Em Portugal a indústria de componentes para o sector automóvel emprega diretamente 62 mil pessoas, distribuídas por 350 empresas, segundo dados da AFIA. Em 2020, e por arrasto do abrandamento da atividade na Europa, diminuiu a atividade em 12,5% face a 2019, para uma faturação combinada de 10,4 mil milhões de euros. Este ano a faturação destas empresas deve ficar ligeiramente acima do ano passado, pouco mais de 1% pelo cálculos da AFIA.

 

One thought to “Crise dos chips quebra circuitos e arrasta indústria automóvel em Portugal. Até quando se prolongam os efeitos?”

  1. Mais do que nunca torna-se fundamental uma cooperação estreita entre estado e empresas no sentido de preservar ao máximo os postos de trabalho, num ano de 2022 que se adivinha particularmente dificil. O impacto da falta de chips em toda a cadeia de abastecimento da indústria automóvel, levará a preesão enorme sobre o cash flow das empresas, dada a falta de income proveniente das encomendas a aliar à enorme escalada de preços de matérias primas, transporte e energia.

    Programas de flexibilização do trabalho, ou um extenso programa de apoio à indústria através de ferramentas como p.ex. o layoff simplificado ou o mais antigo PASA (crise 2008), seriam fundamentais.

    Entre outras medidas possíveis…

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