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Autoeuropa garante metade do aumento das vendas de bens ao exterior

Comércio externo Palmela, Marinha Grande e Benavente foram os municípios que mais contribuíram para a subida das vendas de mercadorias ao estrangeiro durante 2018

in Expresso, por Joana Nunes Mateus, 29-03-2019


Palmela, a terra da Volkswagen Autoeuropa, foi o município que mais contribuiu para o aumento das exportações portuguesas de mercadorias durante o ano de 2018. Vendeu ao estrangeiro mais €1505 milhões do que em 2017 (ver tabela).

De acordo com os dados agora atualizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em segundo lugar, surge a indústria da Marinha Grande com um aumento de €131 milhões. Benavente, conhecida pelos concentrados de tomate do grupo Sugal, fecha o pódio com mais €103 milhões exportados.

T-ROC ESMAGA RIVAIS

O balanço das vendas ao estrangeiro a nível municipal não surpreende tanto pelo vencedor mas pela margem da sua vitória. Nem somando os 19 municípios que completam o top 20 se consegue chegar ao contributo que Palmela teve para o aumento das exportações de mercadorias em 2018.

Verdadeiramente revelador do impulso do novo modelo automóvel Volkswagen T-Roc sobre a economia portuguesa é o facto de Palmela ter conseguido subir as vendas ao estrangeiro em €1505 milhões quando o país, no seu conjunto, apenas conseguiu aumentar as exportações em €2.894 milhões.

Por outras palavras, o que Palmela exportou a mais em 2018 equivale a 52% do aumento total das exportações registado pelo conjunto dos 308 municípios portugueses em 2018. Em 2017, o contributo de Palmela para o incremento das vendas do país ao estrangeiro fora somente de 7%.

A Volkswagen Autoeuropa fechou 2018 no segundo lugar das empresas mais exportadoras do país, a seguir à Petrogal

De facto, no último ano as exportações made in Palmela dispararam 59% para €4064 milhões enquanto as exportações made in Portugal subiram somente 5% para €57.923 milhões. Sem o município de Palmela e as suas vendas de veículos automóveis ao estrangeiro a taxa de crescimento das exportações portuguesas de mercadorias teria caído para metade durante o ano passado.

Mais surpreendente é que 2018 não foi de todo fácil no parque industrial da Autoeuropa. Convém recordar que o arranque do ano foi marcado pela contestação dos trabalhadores da fábrica da Volkswagen e prolongaram-se até novembro as negociações dos acordos laborais entre a comissão de trabalhadores e a administração que vieram repor a paz social na empresa. Além de um problema no fornecimento de motores, o fim do ano foi marcado pela greve de estivadores do porto de Setúbal que, durante semanas, reteve em terra milhares de veículos para exportação.

PRODUÇÃO PODE SUBIR 15%

Foi o novo horário de laboração contínua que a Volkswagen Autoeuropa implementou para fazer face ao sucesso comercial do T-Roc que permitiu mais do que duplicar a produção. Durante o ano de 2018, a fábrica de Palmela — de onde também saem os modelos Sharan da Volkswagen e o Seat Alhambra — produziu 223.200 veículos, mais 106% do que em 2017.

Foi graças a este fabricante de origem alemã que o município de Palmela reforçou o seu peso nas exportações portuguesas de 5% para 7%, só atrás da capital portuguesa onde as maiores empresas têm a sua sede e registam as vendas ao exterior. Para Portugal, esta fábrica da Volkswagen representa 75% de toda a produção automóvel, 5% das exportações de bens e 1,6% do PIB de 2018.

Nem somando os 19 municípios que completam o top 20 se consegue chegar ao contributo que Palmela teve para o aumento das exportações de mercadorias em 2018

De facto, a Volkswagen Autoeuropa fechou 2018 no segundo lugar das empresas mais exportadoras do país, a seguir à Petrogal. Pelas contas do INE recentemente divulgadas pelo “Jornal de Negócios”, este exportador ficou à frente da The Navigator Company, da Bosch Car Multimedia, da Continental Mabor, da Faurecia — Sistemas de Escape, da Aptivport Services, da Viesteon Electronics Corporation, da Repsol Polímeros e da SN-Maia, Siderurgia Nacional.

Apesar de ter batido todos os recordes, a produção da Volkswagen Autoeuropa acabou por ficar abaixo da meta de 240 mil viaturas inicialmente fixada para 2018. Isto significa que o grande fabricante de Palmela ainda tem margem para crescer em 2019, tendo inclusivamente anunciado um investimento de €110 milhões no aumento da sua capacidade produtiva durante o corrente ano.

Pelas contas do Expresso, se a fábrica laborar a todo o vapor, não parando nenhum dia além das férias e feriados, tem potencial para elevar a sua produção até a um patamar próximo das 257 mil viaturas durante o corrente ano. Seriam mais 15% face a 2018.

Resta saber o impacto do ‘Brexit’ nas contas da fileira automóvel, em geral, e neste fabricante, em particular. O CEO do grupo alemão Volkswagen já disse que uma saída desordenada do Reino Unido será muito complicada para a empresa e para economia europeia. E sucessivos estudos vêm alertando para o profundo impacto que o ‘Brexit’ arrisca ter no sector automóvel. Mesmo em Portugal.

Muitos anos serão precisos para se reconfigurarem as cadeias de fornecedores espalhadas a nível europeu. Isto de modo a contornar o tempo de espera nas alfândegas e o custo acrescido com as tarifas sobre as importações de componentes e viaturas de um país que salta fora do mercado único.


PORTUGAL 2020 PARA DEIXAR MAIS EUROS NO PAÍS

Está prestes a ser anunciada a constituição do Clube de Fornecedores da Volkswagen, uma iniciativa financiada pelos fundos comunitários do Portugal 2020 que visa integrar mais empresas portuguesas na cadeia de fornecimento deste fabricante alemão. Hoje, Palmela é dos municípios mais exportadores, mas também mais importadores do país. Mas este esforço na capacitação dos fornecedores nacionais, designadamente de componentes, permitirá não só reduzir as importações da fábrica da Autoeuropa como também aumentar as exportações portuguesas para as restantes fábricas deste gigante automóvel no estrangeiro. O primeiro Clube de Fornecedores, envolvendo quatro dezenas de empresas portuguesas, foi lançado pela Bosch em 2017. J.N.M.


Exportações crescem mas já não são motor da economia

Vendas ao exterior sobem acima do PIB até 2021. Mas o maior contributo para o crescimento virá da procura interna

Com o turismo à cabeça, foram o grande motor da recuperação da economia portuguesa nos últimos anos. Mas o tempo em que as exportações davam o principal contributo ao crescimento acabou. Quem o diz é o Banco de Portugal (BdP). Entre 2019 e 2021, “o contributo da procura interna para o crescimento do PIB será superior ao das exportações”, lê-se no Boletim Económico de março publicado esta semana.

A par da revisão em baixa do crescimento esperado para o PIB em 2019 — a segunda no espaço de três meses — a principal alteração nas projeções do BdP publicadas esta semana foi, precisamente, a recomposição do crescimento. Em termos de contributos, a procura interna ganha força e a vertente externa perde dinamismo. Dos 1,7% de crescimento esperados pelo BdP para este ano, 1,3 pontos percentuais vêm do contributo (líquido de importações) da procura interna. O contributo das exportações (mais uma vez, líquido de importações) deverá ficar pelos 0,4 pontos percentuais. Um cenário que se mantém nos anos seguintes. Em 2017, por exemplo, ano em que o PIB subiu 2,8% em termos reais — o maior ritmo desde 2000 — o maior contributo veio das exportações.

 

Consumo privado e investimento são, assim, as palavras-chave da dinâmica da economia nacional. Depois de acelerar em 2018 — com as despesas de consumo final das famílias residentes no país a atingirem o valor mais elevado de sempre em termos reais no quarto trimestre do ano —, o consumo privado vai voltar a acelerar em 2019, antes de abrandar em 2020 e 2021, antecipa o BdP. Quanto ao investimento (medido pela Formação Bruta de Capital Fixo) também acelera, puxado pelas empresas.

DÉFICES NA BALANÇA DE BENS E SERVIÇOS ESTÃO DE VOLTA

O BdP antecipa que as exportações vão continuar a crescer. Até 2021, deverão aumentar em torno dos 3,7% ao ano, ou seja, bem acima do conjunto da economia. Como resultado, o peso das exportações no PIB vai continuar a subir. Depois de ter passado de 31,1% do PIB em 2008 para 43,6% em 2018, o BdP espera novo aumento de três pontos percentuais até 2021. E o Governo que ir mais longe. Como dizia o ministro da Economia ao Expresso na semana passada, o objetivo é levar as exportações até 50% do PIB na próxima década.

O problema é que as exportações vão crescer a um ritmo muito mais modesto do que nos últimos anos. Acresce que fica muito aquém do dinamismo previsto para as importações, que devem subir sempre acima das exportações até 2021. O resultado é um regresso dos défices na balança de bens e serviços, que tinham sido eliminados nos últimos anos. O BdP alerta para saldos negativos a partir de 2020. Contudo, a projeção aponta para a manutenção de excedentes na balança corrente e de capital até 2021. Ou seja, o saldo externo mantém-se positivo em termos globais. Muito por causa das transferências da União Europeia. “Dado que os recebimentos de fundos europeus ficaram ligeiramente aquém do observado no anterior ciclo de apoios, em igual fase do período de programação, projeta-se uma recuperação destes recebimentos no horizonte de projeção”, escreve o BdP.

Certo é que exportar mais não basta para impulsionar o PIB. Tudo depende do que é que Portugal vende ao exterior. Se as exportações crescerem à custa de produtos com elevado conteúdo importado, em que o valor acrescentado em Portugal é limitado, o contributo para o crescimento é quase nulo (ver caixa).

FRENTE EXTERNA AMEAÇA

O arrefecimento da economia internacional — e europeia em particular — penalizou a economia portuguesa na parte final de 2018. A procura externa dirigida à economia portuguesa ficou abaixo do previsto e o BdP aponta que esse é o principal fator explicativo para o incremento do PIB ter ficado pelos 2,1%, quando alguns meses antes a instituição — tal como o Governo — apontava para 2,3%.

Para este ano e seguintes, o cenário central do BdP para a procura externa é “relativamente benigno”, aponta o documento. Ou seja, após a desaceleração ao longo de 2018, deverá manter um ritmo de crescimento estável entre 2019 e 2021 (3,4% em média), um patamar similar ao verificado em 2018.

Mas o principal risco para a economia portuguesa está precisamente aqui. A instituição não quantifica a probabilidade de a frente externa ter um desempenho pior do que antecipado, mas desenha cenários e as respetivas implicações para a evolução do PIB. O primeiro desses cenários assenta na possibilidade de a perda de dinamismo da economia europeia ser persistente e não apenas temporária. Neste caso, o crescimento do PIB ficaria pelos 1,6% em 2019, e 1,4% em 2020 e 2021.

Um segundo cenário — a que o BdP atribui uma probabilidade menor — passaria pela materia­lização de um conjunto mais alargado de riscos, como a intensificação das políticas protecionistas e das tensões geopolíticas, uma desaceleração mais vincada na China, ou um ‘Brexit’ sem acordo, levando à diminuição das relações comerciais entre o Reino Unido e a União Europeia. E que ‘roubaria’ 0,7 pontos percentuais ao crescimento do PIB em 2019, outros tantos em 2020, e 0,2 pontos percentuais em 2021.

SÓNIA M. LOURENÇO

 


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