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Aspöck Portugal. Aqui se desenvolvem e fazem os faróis da Audi e da Mitsubishi

A fábrica de Oliveira de Azeméis é a maior do grupo austríaco, que investiu 25 milhões na sua expansão e na criação de um centro de ID. “Sem inovação tecnológica é a morte lenta”, diz Domingos Pinto

in Dinheiro Vivo, 19-09-2015

A tenda branca, à entrada da fábrica, causa estranheza. Não é algo que se espere ver num universo fabril. Mas o momento é de festa na Aspöck Portugal. Afinal, não é todos os dias que se recebe uma centena de convidados, entre os quais os representantes da Autoeuropa ou da PSA, que quiseram aproveitar a cerimónia de inauguração da nova unidade fabril da empresa de Cucujães, em Oliveira de Azeméis, para conhecer, in loco, onde são produzidos os sistemas de iluminação dos seus carros.

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A nova fábrica construída de raiz junto à anterior, de modo a duplicar a dimensão da capacidade instalada, representa um investimento de 15 milhões. Mais importante, esta nova expansão vai permitir criar um novo e moderno centro de investigação e desenvolvimento, com laboratórios e centros de ensaios, que arrancará lá para fevereiro do próximo ano e corresponde a um investimento adicional de cinco milhões. Uma infraestrutura fundamental numa unidade que, apesar de se situar em Oliveira de Azeméis, assegura o desenvolvimento de produto para todas as fábricas do grupo Aspöck no mundo.

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“Todos os projetos do grupo nascem e são desenvolvidos cá e daí a urgência de se finalizar a ampliação da unidade produtiva. Porque as competências existem, já há vários anos, mas com a aposta crescente na indústria automóvel temos de fazer uma separação efetiva entre o que é a área operacional e o que é desenvolvimento. Daí o investimento de cinco milhões de euros, a realizar entre neste ano e no próximo, no centro de investigação e desenvolvimento”, explicou ao Dinheiro Vivo o diretor-geral da Aspöck Portugal, Domingos Pinto.

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Com sede em Peuerbach, na Áustria, a Aspöck Systems é a líder europeia no fabrico de sistemas de iluminação para veículos pesados e reboques. Para crescer, foi diversificando as áreas de negócios e começou a apostar crescentemente nos sistemas de iluminação traseiros para o sector automóvel. A unidade de Cucujães, que adquiriram em 2008, é a maior empresa do grupo. Hoje dá emprego a 620 pessoas, cuja média de idades não vai além dos 35 anos.

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Audi, Volkswagen, Peugeot-Citroën, Mitsubishi ou Fiat são algumas das marcas que a Aspöck Portugal fornece. Além de outras que vai “namorando”. Por ano, saem das suas linhas de produção qualquer coisa como sistemas de iluminação para cerca de um milhão de veículos automóveis, com destaque para modelos como o VW Caddy, o VW Crafter, o Audi A3 ou o Audi A6.

Domingos Pinto gosta de não esquecer de onde vieram – “há que ter em conta que há 15 anos a empresa tinha 45 pessoas” -, mas sobretudo que o percurso para aqui chegar não foi isento de dor.

Basta ter em conta que a empresa portuguesa, anteriormente designada Fabrilcar – Componentes para Automóveis, S.A., foi adquirida pelo grupo austríaco em 2008, precisamente quando rebentou a crise do subprime nos Estados Unidos e que arrastou a Europa atrás de si. “De um ano para o outro perdemos 60% do volume de negócios”, recorda João Araújo, diretor financeiro da empresa. Mais do que cortar eventuais gordurinhas, a Aspöck Portugal teve mesmo de se reestruturar e reajustar ao novo enquadramento do mercado. Reduziu em quase metade os postos de trabalho, passando a empregar apenas 300 pessoas. “Fizemos a nossa travessia do deserto e em 2010 já apresentámos novamente resultados positivos”, acrescenta.

Parece simples, mas Domingos Pinto garante que não foi. “Não foi fácil reajustar a empresa e estarmos hoje, novamente, numa rota de progresso e desenvolvimento. Conseguimo-lo graças à política de investimento em investigação e desenvolvimento, que nos permitiu captar projetos mais elevados na cadeia de valor. E, porque hoje não estamos a competir com a Ásia, com a Europa de Leste ou com o Magrebe, temos uma estabilidade diferente”, diz. Basta ter em conta que a Aspöck Portugal tem fornecimentos assegurados à PSA, por exemplo, a dez anos de distância.

“Hoje temos quatro ou cinco clientes que nos asseguram 85% da nossa faturação. E todos sabemos que, mesmo em tempo de crise, uma marca como a Audi é muito menos fustigada em termos de vendas que uma outra de veículos de gama média. E, por isso, a partir de 2010, a nossa grande aposta foi essa, de nos focalizarmos em importantes grupos automóveis e em projetos de maior valor acrescentado, como a iluminação LED”, frisa o responsável financeiro da empresa.

Já o diretor-geral da Aspöck Portugal lembra que o sector automóvel é uma indústria que exige um trabalho de “muita persistência”, na qualidade, na área técnica, na logística, etc. “Quando começamos, recebíamos, se calhar, três ou quatro pedidos de cotação por ano. Hoje já somos um parceiro a consultar sempre. Porque agarramos as oportunidades com unhas e dentes”, sublinha.

Entre 2014 e 2017, a Aspöck Systems investiu 25 milhões de euros em Cucujães. Aos 20 milhões da nova fábrica e do novo centro de I&D, há ainda que somar os cinco milhões de euros que se destinarão à modernização de outros equipamentos. Até porque o projeto de expansão serviu, também, para que a Aspöck proce-desse à modernização da unidade do ponto de vista energético.

“A eliminação do desperdício é fundamental numa indústria que tem uma fatura energética de meio milhão de euros ao ano”, diz o diretor-geral da empresa. Que aponta o dedo não ao custo da energia em si – “o preço do quilowatt em Portugal até é competitivo”, garante -, mas à carga fiscal que lhe está associada, na ordem dos 50%. “Esta é uma indústria topo de gama, em que temos de ser altamente competitivos e geradores de valor, mas com grande eficiência, porque o cliente não paga o desperdício”, diz Domingos Pinto.

Sendo assim, porque investiu a Aspöck em Portugal e não em outra das suas unidades no mundo? “Antes de mais, pela competência dos nossos recursos e pela facilidade em os obter. Não tenho dúvida de que isso nos põe ao nível das economia mais desenvolvidas da Europa”, afirma Domingos Pinto. E, se é verdade que o fator custo da mão de obra terá tido o seu peso na decisão, este responsável acredita que o know-how desenvolvido pela fábrica tem sido também determinante. “Uma linha de montagem é facilmente transferível de um país para outro. Mas um investimento produtivo e com raízes foram as competências que fomos tentando desenvolver em Portugal”, frisa.

Não admira, por isso, que dos 620 trabalhadores que a empresa hoje tem 24% seja mão de obra qualificada. E que a tendência seja para crescer, com a criação do centro de investigação e desenvolvimento, que arrancará com 70 engenheiros em fevereiro, 50 dos quais novas contratações.

Num futuro próximo, a intenção é contratar mais 30 engenheiros. No total, até 2017, a Aspöck Portugal admite crescer até aos 700 trabalhadores. E, se é verdade que a robotização crescente da unidade fabril vai diminuindo a necessidade de mão-de-obra na linha de montagem – as exigências da indústria automóvel não se compadecem com a imprevisibilidade da atuação humana -, também é certo que o crescimento da área técnica e de desenvolvimento de produto tem permitido “criar investimento com raízes em Portugal, que dá estabilidade a todos”. Há cinco anos a área técnica tinha 15 pessoas, hoje tem 55.

Com uma faturação prevista de 41 milhões neste ano, sensivelmente o mesmo de 2014, a Aspöck Portugal espera aumentar as suas vendas para 45 milhões em 2016. E crescer 10% ao ano a partir de 2018. A exportação assegura 85% do volume de negócios, com especial destaque para a casa–mãe, mas também para mercados como a Alemanha, o Japão, a Holanda, a Bélgica ou a Hungria.

Atualmente, os veículos pesados asseguram 60% do volume de negócios da empresa e os automóveis 40%, mas o objetivo é que estas posições se invertam. E em Cucujães trabalha-se já para preparar o futuro. Onde quer estar daqui por dez anos?, perguntamos. Domingos Pinto não hesita na resposta: “Vamos estar na liga dos campeões dos sistemas de iluminação frontal, fornecendo as marcas de automóveis premium.”

Um caminho longo, mas que está já a ser preparado. Na verdade, a Aspöck Portugal faz já alguma iluminação frontal, mas pouca. Mas espera, dentro de meia dúzia de anos, dar cartas nas chamadas matrix led lights, em que as luzes se ajustam em função das informações que recebem dos sistemas de navegação. “Não se pense que isto traz desemprego, isto traz novas oportunidades em novas áreas. Sem inovação tecnológica é a morte lenta”, diz Domingos Pinto.


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