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Alcanena/ExpoPele | Aposta no mercado externo exige reflexão no mundo dos curtumes

Dias 11 de 12 de abril decorre no Museu do Curtume, em Alcanena, a ExpoPele, este ano sob a égide do projeto PT Leather InDesign, uma iniciativa que nos últimos dois anos uniu o Cluster do Couro Português numa aposta no design do couro inovador. Num momento em que a indústria do calçado registou um estabilização e ligeira contração em 2018, depois de quase uma década de crescimento, o tempo parece ser de reflexão no mundo dos curtumes, onde a internacionalização, a certificação da autenticidade do couro e a economia circular dominam a agenda. Nesta discussão, a pegada ambiental não está esquecida.

in mediotejo.net, por Cláudia Gameiro, 10-04-2019


Alcanena recebe mais uma vez a ExpoPele, evento que quer confirmar a localidade como “Capital da Pele”, traduzindo a sua histórica ligação industrial ao setor. A história dos curtumes em Alcanena tem cerca de 200 anos, sendo o primeiro alvará régio para curtimenta na vila datado de 1786, à fábrica de João Rodrigues, refere a página do Centro Tecnológico das Indústrias de Couro (CTIC).

“O alvará permitia aos seus detentores a utilização das armas reais sobre os pórticos das fábricas, restando ainda dessa altura um brasão pertencente à fábrica de Manoel Francisco Galvea, que se encontra num edifício de uma empresa actualmente ligada ao sector de curtumes”, pode ler-se no documento.

As águas calcárias do maciço da Serra d’Aire e Candeeiros eram então essenciais à curtimenta de peles de animais em solas e cabedais, facto que hoje, com as novas tecnologias, já não é necessário. Esta tradição fez com que se concentrasse em Alcanena uma larga percentagem da indústria de curtumes nacional, mas também no Porto e Guimarães, que se mantêm como pólos de produção.

Atualmente, Alcanena tem na Couro Azul a empresa mais emblemática do setor neste concelho, trabalhando sobretudo na área das componentes de automóvel e produzindo para marcas como a Porche. Em 2018, aquando uma visita do Primeiro-Ministro, António Costa, às instalações da fábrica, foi anunciado um investimento de 10 milhões de euros no reforço da produção, com um olhar focado na internacionalização.

 

O Primeiro-Ministro António Costa conheceu em 2018 o kit de pele que é vendido à Porsche pela Couro Azul
Foto: mediotejo.net

Com 530 funcionários e um volume de negócios que ronda os 70 milhões de euros, a Couro Azul exporta 87% da sua produção para 25 países, sublinhando na ocasião Pedro Carvalho, presidente do conselho de administração, as condicionantes com que as empresas exportadoras se deparam, nomeadamente em termos logísticos e de licenciamento industrial.

Reconhecendo a existência de medidas de apoio à indústria, nomeadamente para a internacionalização e o refinanciamento, o empresário pediu “reformas de fundo” em áreas de interesse geral para a sociedade, “mas que condicionam o desenvolvimento empresarial”, como a Justiça, a burocracia, os custos de contexto e a escassez de trabalhadores, já não apenas de quadros intermédios, mas também de operadores não qualificados.

Em particular, lamentou que os empresários “não saibam quem os tutela em termos de licenciamento industrial” e que não sejam resolvidas questões de logística que afetam as empresas exportadoras.

É um pouco neste cenário que se vive a edição deste ano da ExpoPele, onde a internacionalização da indústria do couro mas também a certificação da sua autenticidade encontram-se entre os temas a ser abordados.

A título de exemplo, os dados disponibilizados pela APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos, mais focada na indústria do calçado, uma das maiores a nível nacional (95% de exportação para mais de 150 países, num volume de negócios de 1,96 mil milhões de euros em 2017), dão conta de que este mercado específico dentro do universo da pele que se encontra a viver um período de estabilização mas também de alguma contração em 2018, depois de oito anos de contínuo crescimento.

Os números do terceiro trimestre de 2018 dentro do setor do calçado referem que “a carteira de encomendas teve uma evolução desfavorável, em particular no mercado nacional, com reflexos ao nível da produção, utilização da capacidade e emprego. No entanto, parte significativa das empresas continua a sentir dificuldades relacionadas com a escassez de mão-de-obra, principalmente qualificada. Também os preços no mercado nacional deram sinais de uma evolução adversa. As condições climatéricas surgem entre as principais dificuldades enfrentadas pela indústria, que são lideradas pela insuficiência de encomendas”.

A maioria das empresas continua porém a considerar que os negócios se encontram estáveis.

Assim, a par dos tradicionais mercados de exportação como a França, a Alemanha, entre outros países europeus, evidencia-se um esforço por atingir países menos tradicionais, como a Coreia do Sul, a Rússia ou o Chile. A edição de fevereiro da revista da APPICCAPSfaz inclusive destaque ao aumento do poder de compra do mercado asiático, em particular a dinâmica económica do Japão.

No seio do debate que vai decorrer na ExpoPele, a pegada ambiental também não parece estar esquecida, com uma sessão dedicada à “Pegada de carbono do couro e dos produtos em couro” e outra com o tema “Economia circular e sustentabilidade”, ambas na quinta-feira, 11 de abril.

De recordar que em 2018 a CTIC anunciou o avançar de um projeto em Alcanena para uma unidade de reaproveitamento energético de alguns resíduos provenientes da indústria dos curtumes, tradicionalmente enterrados, as raspas verdes, dando assim os primeiros passos na resolução de alguns dos problemas ambientais crónicos da localidade.

A ExpoPele é uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Alcanena, da APIC – Associação Portuguesa dos Industriais de Curtumes, do CTIC, da ACIS – Associação Empresarial de Torres Novas, Entroncamento, Alcanena e Golegã, que visa dar notoriedade à Indústria de Curtumes Portuguesa e a toda a fileira da Pele e do Couro, contribuindo para a divulgação das marcas “Alcanena Capital da Pele” e “Leather from Portugal” e do projeto PT Leather InDesign.

 

 

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