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A fábrica de Braga que quer espantar Merkel: “Há coisas que estão a ser desenvolvidas aqui pela primeira vez no mundo”

Angela Merkel e António Costa inauguram esta quarta-feira, lado a lado, o novo centro de Tecnologia e Desenvolvimento (T&D) da fábrica da Bosch de Braga, onde se está a trabalhar no carro do futuro. E vão ficar surpreendidos com o que vão ver, garante Carlos Ribas, representante do grupo alemão em Portugal: “Hoje estimamos que ocorre um acidente na estrada a cada 100 mil quilómetros. Com um veículo 100% autónomo estimamos que possa ocorrer um acidente a cada 10 milhões de quilómetros”

in Expresso, por Margarida Cardoso, 30-05-2018


Angela Merkel começa esta quarta-feira uma visita de dois dias a Portugal e tem na fábrica da Bosch, em Braga, a sua primeira escala. Vai inaugurar ao lado do primeiro-ministro, António Costa, o novo centro de T&D desta fábrica portuguesa do grupo alemão Bosch, que cresceu 49% no ano passado e vive a pensar na mobilidade autónoma. Crescer, investir, inovar, exportar e contratar têm sido as ordens de comando nesta casa, como conta ao Expresso Carlos Ribas, representante da Bosch em Portugal, onde o grupo tem lugar entre os maiores exportadores nacionais. A multinacional alemã já se habituou a “reconhecer o talento nacional” no domínio tecnológico e continua a contratar engenheiros portugueses. Boa parte do que fazem é sigiloso. “São coisas novas, que estão a ser feitas pela primeira vez e ainda não chegaram ao mercado”, explica Carlos Ribas. A chanceler, física de formação, ficará “certamente surpreendida” com o que vai ver e descobrir sobre o carro do futuro, sem condutor, garante.

O que está a ser feito na Bosch de Braga pode surpreender Angela Merkel?
Certamente que sim. Há tecnologia nova, coisas que estão a ser desenvolvidas pela primeira vez no mundo aqui e por isso mesmo são sigilosas. Mas posso dar como exemplo o VMPS – Vehicle Motion and Position Sensor. É um dispositivo com muito software em que já podemos fazer simulações. Permite identificar o posicionamento do veículo em qualquer local, já está a ser testado por um cliente e, até 2020, estará a ser colocado em automóveis.

E quando poderemos ver no mercado tudo o que está, agora, a ser feito em Braga? 
O VMPS deve ser o primeiro a chegar ao mercado. Depois haverá muito mais. O que estamos a fazer é pensar, criar, desenvolver sensores ligados à condução autónoma. Não estamos a falar de um dispositivo que se coloca num carro e permite ao veículo andar sozinho, mas de um conjunto de vários dispositivos que em conjunto vão permitir a condução autónoma de forma segura e cómoda. É isso que estamos a fazer neste novo centro. A ambição da Bosch é colocar veículos 100% autónomos na estrada até 2025, com os nossos clientes.

E quem são os vossos clientes para isto?
O que posso dizer é que somos uma empresa alemã e a nossa prioridade são as empresas alemãs.

Caso o presidente norte-americano, Donald Trump, avance com mais tarifas aduaneiras sobre importação automóvel, como já anunciou, isso pode ser um problema para a Bosch e para este novo Centro de Tecnologia e Desenvolvimento?
A Bosch é um fornecedor global. Temos fábricas nos diferentes mercados, na China, na Europa, nos EUA. Não me parece que essa medida venha a ter impacto no curto prazo. E também não sentimos, ainda, efeitos do Brexit. Pode vir a acontecer no futuro, mas mantemos o otimismo.

Mas depois do crescimento de 37% nas vendas da Bosch Portugal em 2017, para 1,5 mil milhões de euros, agora falam em estabilização…
O ritmo de crescimento nos últimos três anos foi alucinante e era insustentável. Em Braga, por exemplo, crescemos 49%, o que representa um esforço gigantesco de toda a equipa. 2017 foi um ano de muito sucesso, mas também de muito trabalho. Agora pensamos num crescimento muito mais ponderado. A preocupação principal tem de ser estabilizar e consolidar o que conseguimos no ano passado e preparar as bases de um novo ciclo de crescimento dentro de dois a três anos.

Foi um crescimento alicerçado em muitos investimentos…
É a prova de que a Bosch reconhece o trabalho que está a ser feito em Portugal. O investimento da Bosch no país, no ano passado, foi de 84 milhões de euros. Somando três anos, este valor sobe para 350 milhões de euros. Braga representa a principal fatia deste valor. No triénio 2016/2018 temos 240 milhões de euros de investimento aqui, 3 milhões dos quais neste novo centro que inauguramos esta quarta-feira, com 100 trabalhadores, mas que vai continuar a crescer e deverá chegar ao fim do ano com 220 pessoas.

Como é que uma fábrica de autorrádios em Portugal se transforma numa unidade de ponta na área da mobilidade?
Começamos nos anos 90 com uma joint-venture para fazer autorrádios e fomos evoluindo, sempre atentos ao mercado. Reformulámos o portfólio para sistemas de navegação e painéis de instrumentos que são projetados já com o construtor automóvel e neste momento o grande desafio é a condução autónoma, é verdade. Como conseguimos isto? Com provas dados pelo trabalho feito e, também, um bocadinho à revelia, tenho de admitir. Não foi fácil, mas começámos logo a tentar nos anos 90. Durante muito tempo, a investigação e desenvolvimento (I&D) aqui era uma operação pequena. O grande salto foi dado a partir de 2010 e da parceria que criámos com a Universidade do Minho. Os nossos colegas alemães aperceberam-se que Portugal tinha um excelente sistema de ensino, pessoas competentes, talento. Deixaram de olhar para nós como um país de manufatura para produzir o que outros desenvolviam.

Nessa atenção dada ao talento português pesaram os custos salariais competitivos…
Na área de I&D a atratividade de Portugal pelo custo já não é o trunfo principal. Estamos a falar de competência, talento, capacidade de integração, educação. Mostrámos que somos tão eficazes como em qualquer outra parte do mundo. Os nossos colegas alemães reconhecem-nos esse valor. Em Braga, há três anos, tínhamos 1800 trabalhadores. Hoje somos 3500 e este número é para continuar a crescer, em especial em áreas técnicas muito especializadas.

Continua a ser fácil contratar?
O mercado em Portugal já está um pouco esgotado. Estamos a tentar trazer de volta jovens que saíram do país nos últimos anos, quando não havia emprego para todos, e temos tido algum sucesso. Já trouxemos gente de Inglaterra, da Holanda, da Áustria, da Alemanha e queremos trazer muitos mais. Também temos mais de 150 colaboradores portugueses da Bosch espalhados pelo mundo neste momento, a chefiar projetos e fábricas, da China ao Chile. Às vezes temos de dizer ‘chega’. Também precisamos de recursos humanos aqui.

Braga é o principal polo da Bosch na área da mobilidade autónoma?
Portugal é um dos polos mais importantes nesta área. Também há desenvolvimentos na Índia e na Alemanha, por exemplo, mas Portugal será um dos centros mais fortes. Depois do desenvolvimento também queremos produzir cá, claro, mas o fundamental é garantir as competências nessas áreas. Essa é a parte mais importante do negócio. Estamos a falar de investigação ao mais alto nível, de áreas de trabalho no limiar do conhecimento, em que muito do que pensamos não existe. Muita gente não sabe que em Portugal existe tecnologia ao nível do que estamos aqui a fazer.

E qual o fator que pesou mais nesta conquista?
As competências e o talento português em primeiro lugar. As parcerias com a Universidade do Minho, os centros de conhecimento da região, como o Centro de Computação Gráfica, o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia ou o Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros também pesaram. Temos o laboratório de manufatura aditivo da Bosch, na Universidade do Minho, que nos ajuda a desenvolver peças bastante complexas, e vamos ser um dos parceiros mais fortes dos novos laboratórios colaborativos da universidade.

Mas porque é que a mobilidade autónoma é o futuro? 
Tem-se falado mais nos automóveis, mas uma das grandes vantagens nesta área será vivida pelos camiões. Ter um camião que carrega em Portugal e passados dois dias está na Suécia, sem paragens, é uma vantagem gigantesca comparativamente ao que temos hoje. Mas também podemos falar de segurança em geral, para carros e camiões. Hoje estimamos que ocorre um acidente a cada 100 mil quilómetros. Com um veículo 100% autónomo estimamos que possa ocorrer um acidente a cada 10 milhões de quilómetros. Isto é baixar a sinistralidade em 99%. Temos mais segurança, menos consumos, menos custos. Depois, se o condutor não tem de conduzir, podemos criar espaços de entretenimento no veículo.

E qual é o maior desafio que tem pela frente para manter este rumo de afirmação e crescimento no futuro?
Neste momento, o fundamental é estabilizar o que já foi conseguido. Mais difícil do que crescer é manter, conseguir incutir confiança aos clientes para continuarem a acreditar em nós no futuro.

BILHETE DE IDENTIDADE DA BOSCH PORTUGAL

Está em Portugal desde 1911 e é hoje um dos maiores empregadores do país, com 4.450 trabalhadores e vendas de 1,5 mil milhões de euros, mais de 90% das quais no mercado externo, o que também dá ao grupo alemão um lugar entre os maiores exportadores. A multinacional, com mais de 402 mil trabalhadores no mundo, está presente em Portugal com fábricas nas áreas de negócio de Soluções de Mobilidade e Energia e Tecnologia, com instalações em Braga, Aveiro e Ovar. O grupo submeteu uma candidatura a fundos europeus para projetos a serem desenvolvidos a partir do novo centro de Tecnologia e Desenvolvimento de Braga. A candidatura, em fase de aprovação, prevê um investimento de 36 milhões de euros entre 2018 e 2022 e é considerada “um passo importante para posicionar Portugal como uma localização estratégica para que a condução autónoma seja uma realidade”.

 


 

 

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