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Central de €1000 milhões vem de Tesla

Projeto de 1 GW em Santiago do Cacém prevê um parque de baterias da Tesla, inédito em Portugal

in Expresso, por Miguel Prado, 12-02-2021


É o maior e mais ambicioso projeto solar fotovoltaico a entrar em licenciamento em Portugal. A central THSiS, promovida pela empresa Sunshining, do grupo luso-espanhol Prosolia, propõe para Santiago do Cacém, no Alentejo, um investimento de €1000 milhões, que inclui não só uma central fotovoltaica de dimensão inédita no nosso país mas também um dos maiores parques de baterias da Europa.

Ao que o Expresso apurou, esta é uma das grandes centrais solares incluídas num pacote de 3,5 gigawatts (GW) que a REN — Redes Energéticas Nacionais está a articular com várias empresas no âmbito do regime de acordos de investimento, isto é, projetos que ganharão o seu ponto de ligação à rede elétrica desde que os promotores assumam os custos de reforço da rede que a REN precise de fazer para transportar a energia das centrais. Contactada, a Prosolia não quis fazer comentários sobre este projeto.

A central THSiS (acrónimo para “The Happy Sun is Shining”) poderá revolucionar o sistema elétrico nacional, crian­do um grande centro produtor na região Sul, com 1008 megawatts (MW), ou seja, mais de 1 GW, de potência fotovoltaica, quase tanto como a central termoelétrica a carvão de Sines, desativada em janeiro. Mas os promotores vão mais longe. Este projeto, se obtiver a licença ambiental e a licença de produção da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), marcará a diferença por acomodar um sistema de armazenagem inédito em Portugal.

Projeto da Prosolia já tem terrenos arrendados desde 2018 e tem envolvido conversações com a Tesla

De acordo com as informações recolhidas pelo Expresso, este empreendimento terá um parque de baterias de iões de lítio com 257 MW, que ocupará cinco hectares, tendo já os promotores iniciado conversações com a norte-americana Tesla para ser o fornecedor desse parque de baterias, que é, à data de hoje, um dos maiores projetos de armazenagem de eletricidade da Europa.

Contudo, este megainvestimento de €1000 milhões (somando a central solar de 1008 MW e o parque de baterias de 257 MW) tem ainda um caminho árduo a percorrer. Até que a REN efetivamente construa os reforços de rede necessá­rios para ligar a central THSiS poderão ainda decorrer cerca de cinco anos. Mas uma vez assinado o acordo entre a gestora da rede elétrica e obtidas as licenças, o promotor poderá avançar com a construção, de forma a ter a central pronta a injetar ao mesmo tempo que a infraestrutura da rede esteja preparada.

UM MILHÃO DE EUCALIPTOS

Este projeto começou a ser desenvolvido em 2017 e no ano seguinte os promotores firmaram um contrato de arrendamento com a família proprietária do vasto terreno de mais de 1200 hectares em Santiago do Cacém. Esse terreno é hoje ocupado por cerca de um milhão de eucaliptos. Todos os anos, uma parte das árvores é abatida, como é comum nos negócios da indústria florestal. E os proprietários do terreno acabarão por trocar o rendimento da venda dos eucaliptos pela renda paga pelos proprietários da central solar.

O facto de o terreno ser absolutamente plano joga a favor da central solar, já que sem declives não só é mais fácil instalar as longas filas de painéis como também há menos áreas de sombra e a exposição dos painéis maximiza a produção. Por outro lado, o solo arenoso e claro permitirá explorar a tecnologia dos módulos fotovoltaicos bifaciais, que produzem eletricidade não só na face diretamente exposta ao sol mas também na outra face, que recebe a luz refletida pelo solo.

A central produzirá 1761 gigawatts hora (GWh) por ano de energia limpa. É o equivalente ao consumo médio anual de eletricidade de 800 mil famílias. Mas há um detalhe: a potência de injeção na rede que a Sunshining solicitou à REN, através da DGEG, é superior à capacidade da central solar, uma vez que o promotor pretende ter a opção de injetar na rede energia das baterias durante o dia (ao mesmo tempo que os painéis produzem) e não ter de esperar pela noite, quando a capacidade de injeção fica livre pelo facto de os painéis solares não estarem a produzir.

E na capacidade de ligação à rede reside uma das curiosidades desta enorme central. Segundo fontes conhecedoras do projeto, foi solicitada à REN uma potência de injeção de 1143 MW, um valor com um simbolismo: remete para o ano do Tratado de Zamora, que marcou a independência de Portugal. Outra das curiosidades deste projeto é a sua designação, THSiS, inspirada no último poema escrito por Fernando Pessoa, “The happy sun is shining” (datado de 22 de novembro de 1935).

PRÓXIMOS PASSOS

Além do licenciamento ambiental, os promotores terão agora pela frente várias diligências. Por um lado, concretizar o acordo com a REN, que lhes garante o ponto de ligação à rede. Por outro lado, encontrar parceiros para o avultado investimento, sócios que precisarão de ter alguma visibilidade sobre como e a que preço a energia será vendida.

Esta central operará sem qualquer subsídio nem tarifas garantidas, cabendo aos promotores vender a eletricidade no mercado ou encontrar um ou mais comercializadores interessados em adquirir a energia através de um contrato de longo prazo. E, finalmente, contratar os fornecedores dos painéis solares e das baterias. Se tudo isso se concretizar, Portugal deixará de ser notícia apenas pelas megacentrais. Entraremos então no campeonato das gigacentrais.

 


NÚMEROS DA CENTRAL

1143

megawatts é a potência de ligação à rede elétrica que a Sunshining, da Prosolia, quer assegurar para a central THSiS

1262

hectares será a área ocupada pela central em terrenos arrendados em 2018 e que albergam hoje um milhão de eucaliptos

1761

gigawatts hora (GWh) é a produção anual esperada para esta central, suficiente para cobrir o consumo médio de 800 mil famílias em Portugal


O QUE SÃO OS ACORDOS COM A REN?

A legislação do sistema elétrico, revista em junho de 2019, prevê três modalidades pelas quais um promotor pode licenciar uma central de larga escala. Pode ser pedido um título de reserva de capacidade, dependente de a rede elétrica acomodar novos projetos, pode ser obtida a licença através de leilões (e o Governo já fez um em 2019 e outro em 2020) e, finalmente, pode ser conseguida a capacidade mediante um acordo entre o requerente e o operador da rede (a REN), em que o promotor assume todos os custos de reforço da rede (para que esses encargos não onerem as tarifas reguladas de eletricidade). A REN fez, em 2020, uma primeira seleção de 14 grandes centrais, com um total de 3,5 GW. Nos últimos meses apresentou o seu orçamento aos promotores. Falta agora assinar os acordos e fazer essas centrais passar pelo licenciamento ambiental.

 

Portugal tem atraído um número crescente de projetos fotovoltaicos de larga escala
FOTO GETTY IMAGES

 

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