Acordo comercial entre UE e EUA complica meta do Governo para a economia

Economia portuguesa voltou ao crescimento no segundo trimestre, mas precisa de gás na reta final do ano. Tarifas de 15% podem comprometer objetivo do Governo

in Expresso, Gonçalo Almeida e Margarida Cardoso, 31-07-2025


Se, para o Governo, atingir a meta de crescimento económico fixada para este ano já era uma missão difícil, as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos da América (EUA) à União Europeia (UE), vêm complicar ainda mais o cumprimento dos 2,4% previstos por Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças.

Depois de uma contração do produto interno bruto (PIB) de 0,4% no primeiro trimestre do ano e de um crescimento de 0,6% no segundo trimestre (dados provisórios do Instituto Nacional de Estatísticas — INE), é preciso que a economia nacional cresça mais de 1% nos últimos dois trimestres do ano, em cadeia, para atingir a meta, segundo cálculos do Expresso.

Desde que a Aliança Democrática (AD) é Governo, em abril de 2024, a economia portuguesa cresceu, em média 0,5% em cadeia por trimestre, o que significa que será agora necessário que cresça o dobro do que tem crescido com Luís Montenegro.

Mesmo com as novas alterações na retenção de IRS e o suplemento extraordinário de pensões, que podem fomentar o consumo a partir de setembro, o impacto da guerra comercial poderá minar os esforços do Executivo. A tarifa de 15% acordada entre EUA e UE fica acima do que estava a ser tido em conta pela OCDE e o BCE (apontavam para os 10%), nos cenários mais realistas. Em março, por exemplo, o Banco de Portugal (que seguiu o exemplo da OCDE) estimou um impacto negativo cumulativo de 0,7% no PIB, nos próximos três anos, sentido com mais força já em 2025.

No segundo trimestre do ano, o INE mostra que o crescimento se justifica com uma recuperação da procura interna e das exportações. Os economistas do BPI ressalvam numa nota técnica que até final do ano “a aplicação das tarifas acordadas poderá ter impacto nos dados do comércio internacional”.

O Governo está quase sozinho na ambição de crescer mais de 2%. Banco de Portugal (1,6%), Comissão Europeia (1,8%) e OCDE (1,9%) estimam menos e FMI (2%) e Conselho das Finanças Públicas (2,2%) aproximam-se.

Indústria preocupada

O aumento das taxas alfandegárias sobre as importações do país de 2,5% para 15% desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca vai ter impacto nos sectores exportadores, da indústria farmacêutica (que coloca no mercado norte-americano 34% do que faz) ao automóvel (4,9%), bens alimentares, têxteis e calçado, produtos das indústrias química, metalomecânica e de equipamentos, entre outros.

“Este é o acordo possível, mas está longe de ser o desejável”, resume Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP — Associação Empresarial de Portugal, sublinhando que “a tarifa definida para a UE, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido”. “Quando se espera um furacão, fica-se feliz com uma simples tempestade”, comenta Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP — Confederação Empresarial de Portugal, sobre um processo que começou com o Presidente dos EUA a ameaçar a Europa com tarifas de 200% e acabou num acordo que fixa um teto de 15%.

A “previsibilidade é relevantíssima” para os negócios, mas o acordo com o quarto maior mercado nacional “é desequilibrado” e terá “um impacto muito negativo nas empresas exportadoras”, admite. Diretamente, estão em causa 6,7% das exportações lusas de bens, mas as empresas receiam, também, impactos indiretos nos seus clientes europeus, a par do desvio de fluxos da China para a Europa e da desvalorização do dólar.

Economia portuguesa tem de crescer o dobro do que tem crescido com o atual Governo para atingir meta de 2,4%

Num momento em que ainda falta informação detalhada sobre o acordo, o compromisso da UE de investir 600 mil milhões de dólares (€510 mil milhões) nos EUA e comprar “grandes quantidades” de equipamento militar é mais uma preocupação: “Vai pesar negativamente no PIB, no investimento em indústria e inovação na Europa, na nossa produtividade e competitividade”, alerta José Couto, presidente da AFIA, a associação dos fabricantes da indústria automóvel, a fazer eco de um pedido transversal aos diferentes sectores exportadores para o Governo acelerar as medidas de apoio à internacionalização e competitividade das empresas.

Em 2024, Portugal exportou bens no valor de €5,3 mil milhões para os EUA, sendo que os produtos da indústria química (25%) e minerais (20%) lideraram.

Os derrotados e vencedores

Ainda é cedo para se perceber os contornos do acordo comercial atingido no passado fim de semana, na Escócia, entre Ursula von der Leyen e Donald Trump. As primeiras reações são de desânimo do lado europeu, com críticas de vários Estados-membros, sobretudo França, e de celebração em Washington.

“Os termos são extremamente punitivos para a UE. É uma grande vitória para Trump, que venceu através da intimidação”, comentou Eric Dor, economista e professor no IESEG, em França. “Tudo isto para evitar a ameaça hipotética de essas tarifas subirem para 30%, uma estratégia de intimidação”, acrescentou. O entendimento não prevê qualquer retaliação europeia, o que significa que os produtos europeus que entrem nos EUA paguem uma taxa de 15%, mas os produtos norte-americanos que entrem na Europa não. Isso poderá penalizar os consumidores do lado de lá do Atlântico, que compram muito mais produtos made in Europe do que o contrário.

No X, o economista Ricardo Reis diz que “o maior derrotado — de longe — é o consumidor americano”, afastando a ideia de que Trump ganhou. “Mais do que atingir um acordo equitativo com os EUA, este acordo reflete uma intenção da UE de minimizar os danos”, escrevem os analistas da Allianz Global Investors.

Para mitigar os efeitos, o Governo português antecipou algumas linhas de crédito a empresas para 31 de julho.


Um acordo “unilateral”

Quais serão as tarifas?

Os EUA aplicam uma tarifa máxima de 15% sobre quase todos os produtos europeus que entrem no país, sem que haja retaliação da União Europeia. Mas há produtos que continuam com taxa de 0% (aviões e componentes, alguns produtos químicos e medicamentos genéricos, equipamentos para semicondutores, alguns produtos agrícolas, mas sem grande detalhe). A lista pode sofrer alterações nos próximos dias. Há outros, como o aço e alumínio, que continuam com taxa mais elevada para já.

Quando entra em vigor?

O acordo entra em vigor esta sexta-feira, dia 1 de agosto, mas as negociações entre os dois blocos vão continuar nos próximos meses.

Que outros acordos os EUA já firmaram?

Os EUA anunciaram um acordo com o Japão com uma tarifa de 15% sobre exportações, mas com alívio nas taxas sobre o sector automóvel e investimento nipónico de 550 mil milhões de dólares nos EUA. Com a China, Trump chegou a acordo para uma taxa de 30%, em maio, face à anterior, que era de 145%. Agora, com o Reino Unido acordou tarifas de 10% e antes Canadá e México ficaram sujeitos a taxas de 35% e 30%. Em todos os casos há muitas exceções a produtos e nenhum acordo é dado por concluído. Gonçalo Almeida

Sector automóvel atingido em cheio

Da Volkswagen à Mercedes, da Stellantis à Nissan, as maiores construtoras de automóveis queixam-se do mesmo: os resultados estão em queda e a culpa é, em grande parte, das tarifas de Trump. Pelas tarifas em si e pela instabilidade quanto a prazos e tabelas finais a aplicar. Uma das fabricantes mais atingidas é a Stellantis, que no primeiro semestre passou de um lucro de €5,6 mil milhões a um prejuízo de €2,3 mil milhões, estimando para este ano um impacto de €1,5 mil milhões das tarifas. A Volkswagen já havia anunciado um impacto de €1,3 mil milhões relacionado com as tarifas. E também a Volvo Cars assumiu uma imparidade de €1,02 mil milhões, em grande parte associada às tarifas. Vítor Andrade


O Grupo Renault nomeia François Provost como Diretor Executivo e Administrador

O Conselho de Administração do Grupo Renault, reunido hoje sob a presidência de Jean-Dominique Senard, decidiu, sob recomendação do Comité de Governança e Remuneração, nomear François Provost como Diretor Executivo (CEO) da Renault S.A. e Presidente da Renault S.A.S., com efeitos a partir de 31 de julho, por um mandato de quatro anos. O Conselho também nomeou François Provost como Administrador da Renault S.A. e da Renault S.A.S.

in Grupo Renault, 30-07-2025


Anteriormente Diretor de Compras, Parcerias e Assuntos Públicos, François Provost é um executivo experiente com 23 anos de serviço no seio do Grupo Renault. Com uma sólida experiência internacional em funções operacionais e estratégicas, uma compreensão profunda dos desafios do setor e uma visão estratégica, François Provost possui as qualidades necessárias para continuar e acelerar o desenvolvimento do Grupo Renault. Além disso, as suas competências assegurarão a continuidade do desenvolvimento do Grupo, particularmente a nível internacional e através de parcerias, capitalizando a sua agilidade estratégica e mantendo elevados padrões de desempenho, em total respeito pelos valores da empresa.

No final da reunião do Conselho de Administração, Jean-Dominique Senard declarou:

Estou confiante de que François Provost liderará o Grupo com discernimento e determinação num ambiente que exige tanto rigor na execução, visão estratégica como capacidade de inovação. Num setor em rápida transformação, a sua determinação e sentido de responsabilidade serão verdadeiros trunfos para guiar as equipas e manter o nosso dinamismo. No Grupo Renault, não há lugar para o status quo. Graças à sua experiência e conhecimento da empresa, poderemos concluir a implementação do nosso plano estratégico, finalizar os termos do próximo e garantir a sua execução bem-sucedida. Estou ansioso por trabalhar com ele. Gostaria também de agradecer calorosamente a Duncan Minto por ter assegurado a interinidade nestes últimos dias.

Por ocasião da sua nomeação, François Provost declarou:

É com orgulho e gratidão que recebo esta nomeação. Gostaria de agradecer calorosamente ao meu Presidente, Jean-Dominique Senard, e ao Conselho de Administração pela confiança depositada em mim. Tenho um pensamento especial para as equipas do Grupo que me apoiaram ao longo destes 23 anos. Dedicarei toda a minha energia e paixão para contribuir – ao lado dos nossos 100.000 colaboradores, concessionários, fornecedores e parceiros – para o desenvolvimento do nosso Grupo, uma das joias da indústria francesa há 127 anos. O Grupo Renault assenta em fundamentos sólidos, com equipas empenhadas, uma gama de produtos excecional, marcas fortes e um modelo organizacional inovador. Estes serão ativos valiosos para acelerarmos a nossa transformação num ambiente cada vez mais exigente para a nossa indústria. Podem contar com o meu compromisso e determinação para juntos escrevermos a próxima página da nossa história.

O Grupo Renault publicará os seus resultados financeiros semestrais amanhã, quinta-feira, 31 de julho.


François Provost

  • Nascido em 1968, François Provost é licenciado pela École Polytechnique e Engenheiro-Chefe do Corps des Mines. Após iniciar a sua carreira na administração pública de topo, ingressou no Grupo Renault em 2002. Ocupou vários cargos executivos em França e na Europa, incluindo o de CEO da Renault-Nissan Portugal entre 2005 e 2008. Em 2010, a sua carreira ganhou um rumo internacional: tornou-se Vice-CEO da Renault Rússia com responsabilidade pelas operações e, posteriormente, Presidente e CEO da Renault Samsung Motors na Coreia durante cinco anos. Assumiu depois o cargo de COO para a China, seguido pela Ásia-Pacífico, e finalmente liderou o Desenvolvimento Internacional. Em 2023, integrou a Equipa de Liderança do Grupo como Diretor de Compras, Parcerias e Assuntos Públicos. De Lisboa a Seul, passando por Moscovo e Xangai, tornou-se num líder estratégico e experiente, desempenhando um papel fundamental no estabelecimento de grandes parcerias com grupos globais como a Nissan, Geely e Aramco.

AHenriques is now certified with ISO 45001

We’re proud to announce that AHenriques is now certified with ISO 45001 – Occupational Health & Safety Management.

in AHenriques, 30-07-2025


Our certifications now include:

  • ISO 9001 – Quality
  • IATF 16949 – Automotive Quality
  • ISO 14001 – Environment
  • ISO 50001 – Energy
  • ISO 45001 – Health & Safety

Each certification reflects our continuous drive to improve, not just as a company, but as a team that cares deeply about people, performance, and the planet.

Thank you to our entire team for making this possible!

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Empresários conformados com acordo “possível” nas tarifas. 15% são “geríveis” e melhor que 30%

Acordo fechado com os EUA é o “possível” e não beneficia nenhum setor na Europa (nem os que ficam isentos), mas quebra ciclo de incerteza que estava a originar uma quebra nas encomendas.

in ECO, por Patrícia abreu, 29-07-2025


O acordo comercial fechado este domingo entre a União Europeia e os Estados Unidos é o acordo “possível” — longe de ser o desejável — e traz um alívio relativo após meses de incerteza e resulta num desfecho “gerível”, assumem as associações que representam os setores mais expostos aos EUA. Com os clientes norte-americanos a fazerem um compasso de espera nas encomendas para perceber o rumo das negociações, os empresários aplaudem este “cessar-fogo económico”, que traz visibilidade e previsibilidade às relações económicas entre as duas economias. Ainda assim, admitem que passar de uma taxa de 10% para 15% tem um impacto muito negativo.

Depois de meses marcados por negociações duras, a União Europeia anunciou, este domingo, um acordo com os EUA que fixa um teto máximo de 15% nas taxas aduaneiras norte-americanas sobre a maioria dos bens europeus e isenções tarifárias para determinados produtos. Bruxelas comprometeu-se ainda com a compra de energia norte-americana no valor de 750 mil milhões de dólares, bem como um investimento adicional de 600 mil milhões nos EUA. “Tendo em conta o cenário alternativo de não acordo, que desencadearia uma agudização incontrolável de retaliações e contraretaliações, com consequências desastrosas para a economia europeia, é com relativo alívio que acolhemos este desfecho”, realça Rafael Alves Rocha.

Tendo em conta o cenário alternativo de não acordo, que desencadearia uma agudização incontrolável de retaliações e contrarretaliações, com consequências desastrosas para a economia europeia, é com relativo alívio que acolhemos este desfecho.

Rafael Alves Rocha | Diretor-geral da CIP

O diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal assume que este é “resultado possível” que põe fim a meses de “incerteza, ambiguidade e instabilidade nas relações comerciais entre os dois blocos económicos”. “Para as empresas portuguesas esta ‘previsibilidade’ é relevantíssima. Evitou-se uma nova escalada“, destaca o mesmo responsável.

Dito isto, Rafael Alves Rocha admite que “um impacto deste nível de 15% das tarifas face aos 10% impostos – desde abril – sobre a generalidade dos produtos, será obviamente muito negativo” e “o impacto direto será tanto maior quanto maior for a dependência relativamente ao mercado norte-americano”.

“Apesar deste acordo proporcionar estabilidade e previsibilidade para os agentes económicos – assim como referido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen -, importa realçar que a tarifa definida para a União Europeia, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido, o que reforça a ideia de que este acordo é o possível, mas longe de ser o desejável“, atira o presidente da AEP, Luís Miguel Ribeiro, manifestando a sua “preocupação” em relação a este acordo.

Apesar deste acordo proporcionar estabilidade e previsibilidade para os agentes económicos – assim como referido pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen -, importa realçar que a tarifa definida para a União Europeia, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido. O que reforça a ideia de que este acordo é o possível, mas longe de ser o desejável.

Luís Miguel Ribeiro | Presidente da AEP

Para o responsável, “este novo paradigma comercial, aliado a outros fatores relevantes, como a apreciação do euro face ao dólar americano, coloca enormes desafios à competitividade das exportações portuguesas de bens neste mercado”. Luís Miguel Ribeiro destaca ainda a importância do mercado norte-americano, que representa cerca de 6,7% das exportações portuguesas de bens e é o quarto principal cliente de bens e o primeiro não europeu.

“Relativamente aos impactos destas medidas, estes tenderão a ser maiores nos setores com maior grau de exposição aos EUA, destacando-se vários setores de elevada especialização produtiva da economia portuguesa, como os bens alimentares, os têxteis e o calçado, bem como os produtos das indústrias química, metalomecânica e de equipamentos, entre muitos outros”, detalha o presidente da AEP.

Quanto aos impactos indiretos, “uma vez que esta tarifa se aplica aos restantes 26 países da União Europeia – destino de mais de 70% das exportações portuguesas de bens”, Luís Miguel Ribeiro alerta que caso as exportações desses países para os EUA se deteriorem, “é expectável que importem menos bens de Portugal. O setor automóvel poderá ser um dos setores mais afetados de forma indireta, assim como o têxtil“.

Filipe de Botton, chairman da Logoplaste, que tem várias fábricas instaladas nos Estados Unidos, reconhece que “o mais importante em termos de gestão é a chamada previsibilidade. Desde o chamado Liberation Day temos vindo a sofrer todos”, atira. O empresário nota que esta situação resulta numa “incapacidade de tomar decisões”. “Não digo que mais vale um mau acordo do que uma boa contenda, mas temos que saber as regras com o que se pode seguir”. “O único drama é, desconhecendo a irracionalidade de quem está à frente dos EUA, saber quanto tempo irá durar” este acordo, avisa.

Apesar de o acordo estar longe de ser o desejável, os setores mais expostos ao mercado dos EUA assumem que taxas aduaneiras de 15% são “geríveis”. “Quando se pensava em 30%, um aumento de 10% para 15% parece gerível e pode ser repercutido”, admite Rafael Campos Pereira, vice-presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP).

Segundo adianta o mesmo responsável, “a dúvida está no alumínio e no aço, que mantêm os 50%, e saber se é só sobre a matéria-prima ou não”, uma questão relevante avaliar o impacto das tarifas no setor. Dependendo se as taxas sobre o aço vão incluir produtos manufaturados ou semi-manufaturados, o setor poderá estar sujeito “a taxas muito agravadas”.

Quando se pensava em 30%, um aumento de 10% para 15% parece gerível e pode ser repercutido [para os clientes].

Rafael Campos Pereira | Vice-presidente da AIMMAP

Com exportações de mil milhões de euros para os Estados Unidos, a metalurgia e a metalomecânica é um dos setores mais expostos às tarifas e tem estado a sentir o impacto das ameaças de taxas mais elevadas. No acumulado dos primeiros cinco meses do ano, as exportações do setor que tiveram como destino os EUA recuaram mais de 14%, passando de 320 para 274 milhões de euros até maio. Apesar de Rafael Campos Pereira dizer que no setor “ninguém é beneficiado”, a “boa notícia é a clarificação”. “A confirmar-se a taxa de 15% é pior que tínhamos, mas é melhor do que todos prevíamos”.

No calçado, onde as vendas para os EUA cresceram 25% nos últimos três anos para dois milhões de pares, ou 97 milhões de euros, e são atualmente o sexto maior mercado da indústria, a solução anunciada de tarifas de 15% apresenta-se como “uma solução adequada”. “Garante previsibilidade e estabilidade”, destaca Paulo Gonçalves, porta-voz da APICCAPS, a associação que representa o setor.

“A instabilidade é altamente penalizadora para os negócios. O setor vinha a crescer 5% até maio e o único mercado onde não cresce é nos EUA“, refere. “A confirmar-se a taxa de 15% é pior que tínhamos, mas é melhor do que todos prevíamos”, aponta. Paulo Gonçalves lembra que este é mais um passo na normalização do comércio internacional, mas “agora é importante ver que outros acordos são concluídos com outros players“, nomeadamente com a China.

Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, diz que “haver uma previsibilidade já é bastante bom. Há bastantes meses que estávamos nesta incerteza e isso traz muito distúrbio e quebra de encomendas“. O representante do setor dos vinhos, que vende 102 milhões de euros para os EUA, com uma quota de exportação de 10,58%, ainda está confiante que o setor consiga fugir às tarifas. “O que gostaríamos era ter taxa 0% em vinhos”, afirma, mostrando-se confiante que o vinho ainda seja incluído na lista de produtos que vão ser excluídos das tarifas.

“Não conseguindo, os 15% podem ser perigosos porque com 15%, as margens levam a aumentos superiores a 20%, porque o mercado americano está organizado em três níveis: exportador, distribuidor e retalhista e todos levam a sua margem. O consumidor vai ter um aumento superior a 20%. É um aumento grande”, alerta.

Segundo o presidente da ViniPortugal, “um impacto de 10% levou a quebras de 12% nas vendas na Europa e mais de 9% em Portugal. Passando as taxas de 10 para 15%, vamos perder se calhar 20% do mercado“, calcula. Até agora, as empresas do setor têm lidado com as tarifas de três formas: “algumas adiantaram vendas de seis meses, outras absorveram 10% e outras 5%”. “Reduzir ou baixar os preços para 15% dificilmente as empresas portuguesas conseguem. O impacto de 15% vai ser muito maior do que os 10%“, atira.

“A principal virtude do acordo alcançado reside na previsibilidade que devolve à economia internacional, após um período marcado por incerteza tarifária associada a uma política comercial errática protagonizada pelo atual executivo norte-americano, liderado pelo Presidente Trump, que vinha a comprometer seriamente o ambiente de confiança para o investimento e para as exportações europeias”, comenta Aurélio Caldeira, diretor-geral da ANIMEE, a associação que representa empresas do setor elétrico e eletrónico.

À luz do que este executivo norte-americano nos habituou nos últimos meses, este acordo deve ser lido como um cessar-fogo económico, e não como um tratado de paz duradouro. No entanto, a previsibilidade que proporciona é valiosa.

Aurélio Caldeira | Diretor-geral da ANIMEE

O responsável destaca que “à luz do que este executivo norte-americano nos habituou nos últimos meses, este acordo deve ser lido como um cessar-fogo económico, e não como um tratado de paz duradouro. No entanto, a previsibilidade que proporciona é valiosa”.

“É um mau acordo, mas é o possível, porque a Europa não estava em condições de suportar uma guerra comercial com os EUA”, atira Mário Machado, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, à RTP3. Com exportações de 500 milhões de euros para os EUA, o equivalente a 10% das exportações do têxtil e vestuário, os EUA são atualmente o quarto maior mercado do setor têxtil. Num momento em que o setor enfrenta crescente concorrência sobretudo da China, as tarifas nos EUA vêm aumentar a lista de desafios que o setor enfrenta.

No automóvel, a AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, também destaca que o acordo, no mínimo, “traz estabilidade ao comércio”. “Contudo havendo ainda incerteza quanto ao texto final a Indústria de Componentes Europeia está preocupada quanto há aplicabilidade, em virtude de não ser conhecido se os fornecedores de componentes automóveis estão englobados nas tarifas, previstas na Secção 232, isto é, se os componentes e peças automóveis estão incluídas”, explica. “Se se verificar a exclusão poderá verificar-se tarifas mais elevadas para os fornecedores de componentes automóveis do que para os construtores de automóveis (OEM)”, alerta a AFIA.

Sobre a aplicação de um teto tarifário único e abrangente de 15% para setores-chave, como automóveis, semicondutores e outros, a associação diz que este cenário “oferece a clareza necessária para o planeamento industrial a longo prazo“.

Ramiro Brito, presidente da AEMinho também faz uma leitura negativa do pacto com os EUA: “Este acordo não me parece ser um bom sinal a médio/longo prazo. Ele acaba por ser a cedência da Europa aos devaneios de um líder da maior potência do mundo que não tem visão estratégica de cooperação”.

Para o representante dos patrões do Minho, com o acordo “ganham os setores da defesa norte americanos, ganha a economia americana a curto prazo, a médio logo veremos. Do nosso lado ninguém ganha, alguns perdem menos, que é uma perspetiva diferente”. “As tarifas de 30 passam a 15 (os 30 eram claramente bluff para ganhar posição negocial), há setores que não serão tarifados mas que acabarão por ser também afetados pela conjuntura. Não vejo nenhuma perspetiva positiva”, remata.

Para José Eduardo Carvalho, presidente da AIP, “a tarifa acordada agora de 15% é sempre positiva face aos 30% anunciados por Trump recentemente. Mas é pior do que a tarifa zero almejada pela União Europeia (EU) – a EU propôs uma reciprocidade “zero por zero” para um regime não tarifário sobre mercadorias e, inclusive, ofereceu-se para comprar energia, tecnologia e produtos agrícolas dos EUA para pôr fim à guerra comercial lançada pelos EUA em meados de março”.

O mesmo responsável acrescenta que, para já, é cedo para tirar conclusões sobre o real impacto das tarifas para os vários setores. Quanto a investimentos no país, diz que “algumas empresas com maior exposição ao mercado norte-americano estão a considerar estratégias de investimento direto nos EUA como forma de contornar as barreiras tarifárias, embora estas decisões exijam uma análise cuidadosa e ponderada”.


AFIA espera “recuperação da normalidade” com tarifas de 15% sobre componentes automóveis

A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) sinaliza, porém, que as tarifas terão “um efeito pernicioso sobre o produto final”, mas que há que contar com a capacidade da indústria para as absorver.

in Jornal de Negócios, por Diana do Mar, 29-07-2025


O tecto de 15% nas tarifas, previsto no acordo alcançado entre Bruxelas e Washington, também se aplica a componentes automóveis. Dúvida que havia na segunda-feira foi desfeita nesta terça-feira por Bruxelas e agrada à Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) que deposita expectativas numa “recuperação da normalidade” que pode até levar a um aumento, ainda que ligeiro, das vendas para os EUA, mercado que representa sensivelmente 5% das exportações nacionais de componentes.

Em comunicado, a Comissão Europeia esclareceu que à luz do acordo, o tecto de 15% também se aplica a automóveis e peças de automóveis, atualmente sujeitos a uma tarifa de até 25%, com uma tarifa de nação mais favorecida (MFN, na sigla em inglês) adicional de 2,5%, destacando que tal proporciona assim “um alívio tarifário imediato”.

“Fazendo jus ao informado pela Comissão Europeia há uma efetiva redução das taxas que tínhamos que enfrentar (25%+2,5%), desde que se iniciou este confronto, portanto, passamos a ter 15% para todos os produtos ligados ao automóvel, o que sendo diferente do que existia, inicialmente, é claramente melhor do que estava na mesa no início das negociações”, diz o presidente da AFIA, José Couto, numa resposta escrita ao Negócios.

Além disso – reforça – “teremos que juntar um ambiente de estabilidade no relacionamento comercial, o que tem um valor intangível significativo, nomeadamente nos planos de investimentos, muito necessários, na cadeia de valor da indústria automóvel, para que a Europa possa recuperar a competitividade e a afirmação de uma liderança tecnológica”.

Em face do atual cenário, José Couto mostra-se otimista quanto ao desempenho das vendas para os Estados Unidos, que representam sensivelmente 5% das exportações totais de componentes, apontando que “poderão estabilizar ou na melhor hipótese ter um ligeiro aumento”.

“Temos que ter em atenção às vendas da indústria de componentes a clientes europeus que se dirigiam ao mercado dos EUA”, diz, sublinhando que “as componentes nacionais que se juntavam a outras componentes produzidas na Europa poderão ter um efeito mais positivo”.

As exportações nacionais para o mercado norte americano poderão estabilizar ou na melhor hipótese ter um ligeiro aumento.

José Couto, presidente da AFIA.

“A nossa expectativa é a de que possa haver uma paragem da degradação das relações comerciais e que possa haver uma recuperação da normalidade”, sustenta o líder da AFIA, reconhecendo, porém, que “a tarifa de 15% terá um efeito pernicioso sobre o produto final, mas haverá que contar com a capacidade da Indústria para absorver este valor”.

Segundo dados da AFIA, a indústria de componentes para automóveis em Portugal agrega cerca de 360 empresas e emprega diretamente 64.000 trabalhadores. Em 2024 faturou 14 mil milhões de euros, com uma quota de exportação superior a 85%.

85 Quota de exportação

Em 2024, a indústria de componentes para automóveis em Portugal faturou14 mil milhões de euros, com uma quota de exportação superior a 85%.

ERT partilha inovação em sustentabilidade e eficiência industrial

A ERT marcou presença, no passado mês de junho, na TECNET Trends 2025, evento dedicado à digitalização e sustentabilidade, que decorreu em São João da Madeira.

in Jornal T, por Bebiana Rocha, 29-07-2025


Ao longo de dois dias, a empresa, com forte ligação ao setor automóvel, deu a conhecer os avanços de três projetos em que está envolvida — TEXP@CT, Be@t e tExtended — que refletem o seu compromisso com uma operação mais eficiente e sustentável.

Em declarações ao T Jornal, David Macário contextualizou o papel da ERT em cada uma destas iniciativas. “No âmbito do TEXP@CT, estamos focados na otimização de processos industriais, na redução do uso de matéria-prima e na eficiência energética”, explica.

Já no projeto Be@t, centrado na bioeconomia, o objetivo passa pelo desenvolvimento de materiais para o automóvel do futuro, recorrendo a matérias-primas de origem biológica. “Tentamos afastar-nos o mais possível de fontes fósseis, explorando peças compósitas com base bio, sem comprometer as exigências técnicas do setor automóvel”, sublinha.

O terceiro projeto, tExtended, tem uma dimensão europeia e está centrado na valorização de resíduos automóveis, como espumas e napas, procurando dar-lhes uma nova vida, mesmo que noutras indústrias. “Estamos já numa fase avançada nestes três projetos. Agora, tudo depende da resposta do mercado”, adianta David Macário, acreditando que a escassez de recursos e a pressão política irão acelerar a procura por soluções sustentáveis.

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TMG Automotive mais sustentável em 2024

Menos emissões de gases com efeito de estufa de âmbitos 1 e 2 e maior percentagem de eletricidade de fontes renováveis são alguns dos desenvolvimentos apontados pela empresa no seu mais recente relatório de sustentabilidade.

in Portugal Têxtil, 28-07-2025


Desde 2019 que a TMG Automotive publica anualmente o seu relatório de sustentabilidade, onde apresenta os principais desenvolvimentos no âmbito ambiental, social e de governação (ESG).

Nesta última edição, com dados relativos a 2024, a empresa revela ter tido um volume de negócios superior a 134 milhões de euros, o que representou uma descida face aos 141 milhões de euros de 2023, e destaca, com um dos principais acontecimentos do ano, o anúncio da criação de uma joint-venture nos EUA com o parceiro Haartz, que permitirá à TMG produzir localmente e reforçar a sua capacidade de resposta no mercado norte-americano.

«Ao fortalecermos a nossa presença e aproximarmos a produção dos nossos parceiros, reforçamos o nosso compromisso em entregar valor, qualidade e soluções sustentáveis onde quer que os nossos clientes estejam», refere Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive, na introdução do documento.

No ano passado, a empresa registou uma redução de 8% nas emissões combinadas dos âmbitos 1 e 2. O consumo de gás natural diminuiu 3% face ao ano anterior e 65% da eletricidade consumida teve origem em fontes renováveis. A produção de eletricidade própria representou 10,8% do consumo total.

A empresa tem como objetivo atingir a neutralidade carbónica até 2050, compromisso assumido junto da iniciativa Science-Based Targets (SBTi). As metas intermédias incluem a diminuição de 42% das emissões de gases com efeito de estufa nos âmbitos 1 e 2, tendo como referência o ano de 2021, e uma redução de 25% nas emissões do âmbito 3 até 2030.

A TMG Automotive continua ainda a investir na reformulação do seu portefólio, com enfoque na utilização de matérias-primas com menor impacto ambiental. Em 2024, 4,5% das vendas corresponderam a produtos com mais de 25% de carbono renovável, superando a meta anual. Foram ainda validadas novas opções sustentáveis e realizados 260 estudos de análise de ciclo de vida (LCA), todos desenvolvidos internamente.

No capítulo da gestão de resíduos, a empresa teve um aumento no custo de tratamento de resíduos não perigosos e assumiu como prioridade a redução da geração de desperdício. Foi destacada a participação no projeto europeu Eupolycep, que visa a reciclagem de materiais compósitos em fim de vida, com os primeiros testes realizados em 2024 numa unidade-piloto na Bélgica.

No final do ano passado, a TMG Automotive empregava 881 colaboradores, dos quais 24% mulheres, com uma média de idades de 38 anos. A empresa sublinha que 29% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres e que foram promovidas medidas de formação, conciliação trabalho-família e reconhecimento da antiguidade, bem como ações de melhoria das condições de trabalho e auditorias internas.

A empresa reforçou igualmente o alinhamento entre desempenho financeiro e desempenho ambiental. O seu enquadramento de financiamento vinculado à sustentabilidade – Sustainability-Linked Loan Framework – inclui metas específicas, como a redução da intensidade carbónica (emissões/receita) em 25% até 2027, e o aumento da proporção de vendas com mais de 25% de carbono renovável para 15% até 2027.

A avaliação externa inclui uma pontuação de 81/100 na Ecovadis (medalha Gold) e uma classificação de B91 na plataforma Supplier Assurance, com 43% dos fornecedores de matérias-primas a ultrapassarem a nota de 60 pontos, salienta.

O relatório inclui ainda uma análise de dupla materialidade e marca os primeiros passos da empresa rumo à conformidade com a diretiva europeia CSRD. A TMG planeia implementar integralmente os European Sustainability Reporting Standards (ESRS) até 2028.

«A transformação sustentável leva tempo, especialmente quando se parte de uma base já eficiente. Mas estamos confiantes: estamos no caminho certo e mantemos o compromisso de atingir as nossas metas para 2027», resumiu Nuno Lima, diretor de sustentabilidade da TMG Automotive.

 

 

 

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Joaquim Menezes, presidente da Iberomoldes: “Nós nascemos operários da indústria de moldes, não nascemos patrões”

Começou a trabalhar aos 15 anos, como aprendiz na indústria de moldes, sem antecipar que um dia passaria de operário a empresário. Fundou a Iberomoldes nos pós-revolução dos cravos e dedicou-se de corpo e alma à sua expansão. Hoje, com 78 anos, a sucessão é o seu maior desafio. Joaquim Menezes, presidente da Iberomoldes, é o convidado do último episódio do podcast “O CEO é o limite”, antes da pausa para férias

in Expresso, por Cátia Mateus (jornalista), Tomás Delfim, Salomé Rita (sonoplasta), Nuno Fox (fotojornalista), 28-07-2025


Joaquim Menezes, fundador e presidente da Iberomoldes, o grupo português especialista na engenharia de moldes e desenvolvimento de produto, é uma referência entre pares na indústria em que opera. Em Portugal e lá fora, o empresário é apontado como um visionário da inovação e um arquiteto de consensos e parcerias. Mas quem hoje o vê, com 78 anos, ao leme da empresa que criou, não imagina que a sua caminhada começou com apenas 15 anos, como aprendiz na Aníbal H. Abrantes, empresa pioneira na indústria nacional de moldes.

“Tirei um curso que era o curso normal para jovens de famílias humildes, como a minha, o curso de serralheiro”, recorda, para de imediato acrescentar que só se tornou engenheiro porque seguiu o sonho dos pais: “viemos de famílias humildes, muito humildes. Para os meus pais ter um filho engenheiro era o que mais ambicionavam deixar como legado de vida”. Fez-lhes a vontade e mais do que engenheiro, tornou-se empresário.

Aos 28 anos fundou com Henrique Neto, antigo colega de trabalho na Aníbal H. Abrantes, a Iberomoldes. “Nós nascemos operários da indústria de moldes, não nascemos patrões”, sublinha, ao mesmo que explica que essa condição foi decisiva para a cultura de proximidade e desenvolvimento que conseguiu implementar na empresa ao longo das últimas décadas. Com uma ambição global desde a sua fundação, Joaquim Menezes transformou a empresa que tutela sozinho desde 2009, num grupo global com operações em mais de uma centena de países, presença em quatro continentes e um papel vital no ecossistema da inovação industrial em Portugal.

Natural de Coimbra, Joaquim formou-se em Engenharia Eletromecânica, mas nunca deixou de procurar constantemente o conhecimento. Passou pela Harvard Business School e pelo Japan Center, em Tóquio, para aprofundar estudos em gestão e inovação que aplicou diretamente na empresa. “Nunca sabemos o suficiente”, garante. Aos 78 anos, Joaquim Menezes mantém-se na liderança da empresa que fundou. E a sucessão, admite, “é uma preocupação”.

“A minha escolha foi dedicar-me um bocadinho em sacerdócio à minha vida profissional e aos meus projetos empresariais e associativos. Isto é o meu combustível”, admite, reconhecendo que essa aposta “fez com que eu desprezasse quase integralmente a minha vida pessoal. Chego aos 78, quase 79 anos e vejo-me sem descendentes, nunca casei e nunca tive filhos”.

Com a responsabilidade de quem sabe que mais do que sua, a Iberomoldes é dos que nela trabalham e que a ela dedicam a sua vida, o presidente admite que a venda da empresa é a solução para garantir a sua sustentabilidade. “Não estarei cá aos 120 anos e é importante garantir que as pessoas que trabalham comigo, sobretudo os mais jovens têm o futuro pela frente na empresa”, nota.

O ideal, sublinha Joaquim Menezes, “era encontrar um parceiro que assumisse a empresa, sem me deixar muita margem para eu intervir. Ou há uma venda integral da Iberomoldes, ou, de forma pragmática, não faz sentido”.

O CEO é o limite é o podcast de liderança e carreira do Expresso. Todas as semanas a jornalista Cátia Mateus mostra-lhe quem são, como começaram e o que fizeram para chegar ao topo os gestores portugueses que marcaram o passado, os que dirigem a atualidade e os que prometem moldar o futuro. Histórias inspiradoras, contadas na primeira pessoa, por quem ousa fazer acontecer.


Setor automóvel preocupados com o acordo comercial de Trump com Europa (com ÁUDIO)

Os fabricantes do setor automóvel estão preocupados com o acordo comercial entre a Europa e os Estados Unidos. O acordo fixa em 15por cento as tarifas aduaneiras norte-americanas sobre os produtos europeus.

in Antena 1, 28-07-2025


Em declarações à Antena 1, o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, José Couto, explicou que há uma grande incerteza no mercado das exportações internas.

Contudo o presidente da associação está satisfeito com o facto de já existir um acordo sobre as tarifas, mas diz que ainda há muitas pontas soltas.

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Tarifas: “É o acordo possível, mas está longe de ser o desejável”: o resultado final “é desequilibrado”, diz indústria

“Quando se espera um furacão, fica-se feliz com uma simples tempestade”, diz CIP sobre o acordo ente UE e EUA. Reino Unido “negociou melhor”, afirma AEP

in Expresso, por Margarida Cardoso, 28-07-2025


Os principais índices das bolsas europeias podem ter reagido em alta ao anúncio do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos, as ações das principais construtoras automóveis da Europa podem ter valorizado, mas a preocupação na indústria portuguesa continua. “A ansiedade de não sabermos o que temos pela frente acalmou, mas continuamos sem informações exatas sobre o que está em jogo e o que teremos de enfrentar”, diz ao Expresso José Couto, presidente da AFIA, a associação dos fabricantes da indústria automóvel, com dúvidas sobre a capacidade da Europa manter o registo das exportações nas 750 mil viaturas vendidas aos EUA em 2024.

Neste momento, diz, “é difícil saber se temos um bom acordo neste acordo possível, ou se a UE simplesmente se curvou perante os EUA”, afirma o empresário e dirigente associativo “pouco convencido de que o teto máximo de 15% nas tarifas sobre as importações europeias seja exatamente isso”. “É urgente a Comissão Europeia vir esclarecer os termos do acordo”, sustenta,

Na AEP – Associação Empresarial de Portugal, Luís Miguel Ribeiro não tem dúvidas de que “este é o acordo possível, mas está longe de ser o desejável”. Desde logo porque “a tarifa definida para a União Europeia, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido, o que significa que eles conseguiram negociar melhor”.

“Faltam ainda muitos detalhes sobre o acordo”, mas “há um aumento significativo das tarifas para as nossas empresas que exportam para os EUA diretamente ou através de outros países europeus. E isso significa perda de competitividade”, sublinha.

É verdade que depois de Trump ameaçar a Europa com tarifas de 200%, entretanto limitadas a 50% e, mais recentemente a 30%, fechar um acordo nos 15% pode ser “melhor do que nada”. “Quando se espera um furacão, fica-se feliz com uma simples tempestade”, como resume Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal. Mais: “Tendo em conta o cenário alternativo de não acordo, que desencadearia uma agudização incontrolável de retaliações e contrarretaliações, com consequências desastrosas para a economia europeia, é com relativo alívio que acolhemos este desfecho. Para as empresas portuguesas esta previsibilidade é revelantíssima e a aparente acalmia dos mercados assim o confirma”, nota.

Impacto “muito negativo” para empresas

Contudo, sublinha, “estamos perante um aumento de taxas alfandegárias de um nível médio em torno de 2,5% antes da tomada de posse do Presidente Trump, de acordo com os cálculos da Organização Mundial de Comércio, para os 15% agora acordados”, não havendo reciprocidade do lado da UE “o resultado final afigura-se obviamente desequilibrado” e o impacto direto “será obviamente muito negativo para as empresas”.

E quais os sectores que serão mais afetados? As respostas coincidem. Para a CIP, um dos alvos principais é a indústria farmacêutica. O que se vai passar exatamente com os medicamentos ainda não está bem definido, mas em Portugal este é um dos sectores que regista maior exposição direta aos EUA, com uma quota de 34% nas exportações da fileira em 2024.

“Mesmo os setores em que o mercado norte-americano tem menor expressão não deixarão de ser certamente afetados. Tal será, por exemplo, o caso do setor automóvel, que não tem uma grande exposição direta ao mercado norte-americano, mas que exporta para empresas europeias muito dependentes deste mercado”, refere.

“O nosso mercado indireto é o que mais nos preocupa”, confirma José Couto, precisando que os EUA absorvem apenas 4,9% das exportações da indústria lusa de componentes, mas parte do que é vendido para países como Alemanha, França ou Espanha também atravessa, depois, o Atlântico. Admite, ainda, ter “muitas dúvidas sobre a possibilidade dos 15% anunciados virem efetivamente substituir em baixa as tarifas atuais de 27,5% em vigor sobre as importações de veículos europeus.

Para Luís Miguel Ribeiro, tão importante como o facto dos EUA representarem 6,7% das exportações portuguesas de bens, sendo o quarto mercado nacional e primeiro não europeu, é exatamente o peso das exportações indiretas: “uma vez que esta tarifa se aplica aos restantes 26 países da União Europeia – destino de mais de 70% das exportações portuguesas de bens. Caso as exportações de bens desses países para os EUA se deteriorem, é expetável que importem menos bens de Portugal. O setor automóvel poderá ser um dos setores mais afetados de forma indireta, assim como o têxtil”, precisa.

Alerta para acelerar apoios

Em termos gerais, relativamente ao impacto do acordo,, “tenderá a ser maior nos setores com maior grau de exposição aos EUA, destacando-se vários setores de elevada especialização produtiva da economia portuguesa, como os bens alimentares, os têxteis e o calçado, bem como os produtos das indústrias química, metalomecânica e de equipamentos, entre muitos outros”, afirma.

Outra preocupação transversal aos diferentes sectores é o compromisso da UE investir 600 mil milhões de dólares” (510 mil milhões de euros) nos Estados Unidos, comprar “grandes quantidades” de equipamento militar e 750 mil milhões de dólares (638 mil milhões de euros) em produtos energético. “Isso vai pesar negativamente em termos de PIB europeu, investimento em indústria e em Investigação e Desenvolvimento na Europa. Vai pesar na nossa produtividade e competitividade”, diz José Couto. “É um alerta para acelerar as medidas de apoio à internacionalização e competitividade das empresas”, acrescenta Luís Miguel Ribeiro.

E em cima de tudo isto, é preciso considerar, impacto decorrente das tarifas impostas pelos EUA a importações de outros países, designadamente a China. “Temos as vendas de automóveis na Europa a cair 1% e a indústria automóvel europeia a perder 12% porque a venda de viaturas de marcas chinesas está a aumentar”, alerta José Couto. “O mercado europeu já está a sentir uma maior pressão dos produtos chineses”, concorda Luís Miguel Ribeiro, da AEP. “Há que ter em conta o aumento de concorrência provocado pelo desvio dos fluxos comerciais do resto do mundo para os mercados europeus”, destaca também Rafael Alves Rocha, da CIP.