Economia portuguesa voltou ao crescimento no segundo trimestre, mas precisa de gás na reta final do ano. Tarifas de 15% podem comprometer objetivo do Governo
in Expresso, Gonçalo Almeida e Margarida Cardoso, 31-07-2025
Se, para o Governo, atingir a meta de crescimento económico fixada para este ano já era uma missão difícil, as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos da América (EUA) à União Europeia (UE), vêm complicar ainda mais o cumprimento dos 2,4% previstos por Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças.
Depois de uma contração do produto interno bruto (PIB) de 0,4% no primeiro trimestre do ano e de um crescimento de 0,6% no segundo trimestre (dados provisórios do Instituto Nacional de Estatísticas — INE), é preciso que a economia nacional cresça mais de 1% nos últimos dois trimestres do ano, em cadeia, para atingir a meta, segundo cálculos do Expresso.
Desde que a Aliança Democrática (AD) é Governo, em abril de 2024, a economia portuguesa cresceu, em média 0,5% em cadeia por trimestre, o que significa que será agora necessário que cresça o dobro do que tem crescido com Luís Montenegro.
Mesmo com as novas alterações na retenção de IRS e o suplemento extraordinário de pensões, que podem fomentar o consumo a partir de setembro, o impacto da guerra comercial poderá minar os esforços do Executivo. A tarifa de 15% acordada entre EUA e UE fica acima do que estava a ser tido em conta pela OCDE e o BCE (apontavam para os 10%), nos cenários mais realistas. Em março, por exemplo, o Banco de Portugal (que seguiu o exemplo da OCDE) estimou um impacto negativo cumulativo de 0,7% no PIB, nos próximos três anos, sentido com mais força já em 2025.
No segundo trimestre do ano, o INE mostra que o crescimento se justifica com uma recuperação da procura interna e das exportações. Os economistas do BPI ressalvam numa nota técnica que até final do ano “a aplicação das tarifas acordadas poderá ter impacto nos dados do comércio internacional”.
O Governo está quase sozinho na ambição de crescer mais de 2%. Banco de Portugal (1,6%), Comissão Europeia (1,8%) e OCDE (1,9%) estimam menos e FMI (2%) e Conselho das Finanças Públicas (2,2%) aproximam-se.
Indústria preocupada
O aumento das taxas alfandegárias sobre as importações do país de 2,5% para 15% desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca vai ter impacto nos sectores exportadores, da indústria farmacêutica (que coloca no mercado norte-americano 34% do que faz) ao automóvel (4,9%), bens alimentares, têxteis e calçado, produtos das indústrias química, metalomecânica e de equipamentos, entre outros.
“Este é o acordo possível, mas está longe de ser o desejável”, resume Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP — Associação Empresarial de Portugal, sublinhando que “a tarifa definida para a UE, embora igual à aplicada ao Japão, é superior à concedida ao Reino Unido”. “Quando se espera um furacão, fica-se feliz com uma simples tempestade”, comenta Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP — Confederação Empresarial de Portugal, sobre um processo que começou com o Presidente dos EUA a ameaçar a Europa com tarifas de 200% e acabou num acordo que fixa um teto de 15%.
A “previsibilidade é relevantíssima” para os negócios, mas o acordo com o quarto maior mercado nacional “é desequilibrado” e terá “um impacto muito negativo nas empresas exportadoras”, admite. Diretamente, estão em causa 6,7% das exportações lusas de bens, mas as empresas receiam, também, impactos indiretos nos seus clientes europeus, a par do desvio de fluxos da China para a Europa e da desvalorização do dólar.
Economia portuguesa tem de crescer o dobro do que tem crescido com o atual Governo para atingir meta de 2,4%
Num momento em que ainda falta informação detalhada sobre o acordo, o compromisso da UE de investir 600 mil milhões de dólares (€510 mil milhões) nos EUA e comprar “grandes quantidades” de equipamento militar é mais uma preocupação: “Vai pesar negativamente no PIB, no investimento em indústria e inovação na Europa, na nossa produtividade e competitividade”, alerta José Couto, presidente da AFIA, a associação dos fabricantes da indústria automóvel, a fazer eco de um pedido transversal aos diferentes sectores exportadores para o Governo acelerar as medidas de apoio à internacionalização e competitividade das empresas.
Em 2024, Portugal exportou bens no valor de €5,3 mil milhões para os EUA, sendo que os produtos da indústria química (25%) e minerais (20%) lideraram.
Os derrotados e vencedores
Ainda é cedo para se perceber os contornos do acordo comercial atingido no passado fim de semana, na Escócia, entre Ursula von der Leyen e Donald Trump. As primeiras reações são de desânimo do lado europeu, com críticas de vários Estados-membros, sobretudo França, e de celebração em Washington.
“Os termos são extremamente punitivos para a UE. É uma grande vitória para Trump, que venceu através da intimidação”, comentou Eric Dor, economista e professor no IESEG, em França. “Tudo isto para evitar a ameaça hipotética de essas tarifas subirem para 30%, uma estratégia de intimidação”, acrescentou. O entendimento não prevê qualquer retaliação europeia, o que significa que os produtos europeus que entrem nos EUA paguem uma taxa de 15%, mas os produtos norte-americanos que entrem na Europa não. Isso poderá penalizar os consumidores do lado de lá do Atlântico, que compram muito mais produtos made in Europe do que o contrário.
No X, o economista Ricardo Reis diz que “o maior derrotado — de longe — é o consumidor americano”, afastando a ideia de que Trump ganhou. “Mais do que atingir um acordo equitativo com os EUA, este acordo reflete uma intenção da UE de minimizar os danos”, escrevem os analistas da Allianz Global Investors.
Para mitigar os efeitos, o Governo português antecipou algumas linhas de crédito a empresas para 31 de julho.
Um acordo “unilateral”
Quais serão as tarifas?
Os EUA aplicam uma tarifa máxima de 15% sobre quase todos os produtos europeus que entrem no país, sem que haja retaliação da União Europeia. Mas há produtos que continuam com taxa de 0% (aviões e componentes, alguns produtos químicos e medicamentos genéricos, equipamentos para semicondutores, alguns produtos agrícolas, mas sem grande detalhe). A lista pode sofrer alterações nos próximos dias. Há outros, como o aço e alumínio, que continuam com taxa mais elevada para já.
Quando entra em vigor?
O acordo entra em vigor esta sexta-feira, dia 1 de agosto, mas as negociações entre os dois blocos vão continuar nos próximos meses.
Que outros acordos os EUA já firmaram?
Os EUA anunciaram um acordo com o Japão com uma tarifa de 15% sobre exportações, mas com alívio nas taxas sobre o sector automóvel e investimento nipónico de 550 mil milhões de dólares nos EUA. Com a China, Trump chegou a acordo para uma taxa de 30%, em maio, face à anterior, que era de 145%. Agora, com o Reino Unido acordou tarifas de 10% e antes Canadá e México ficaram sujeitos a taxas de 35% e 30%. Em todos os casos há muitas exceções a produtos e nenhum acordo é dado por concluído. Gonçalo Almeida
Sector automóvel atingido em cheio
Da Volkswagen à Mercedes, da Stellantis à Nissan, as maiores construtoras de automóveis queixam-se do mesmo: os resultados estão em queda e a culpa é, em grande parte, das tarifas de Trump. Pelas tarifas em si e pela instabilidade quanto a prazos e tabelas finais a aplicar. Uma das fabricantes mais atingidas é a Stellantis, que no primeiro semestre passou de um lucro de €5,6 mil milhões a um prejuízo de €2,3 mil milhões, estimando para este ano um impacto de €1,5 mil milhões das tarifas. A Volkswagen já havia anunciado um impacto de €1,3 mil milhões relacionado com as tarifas. E também a Volvo Cars assumiu uma imparidade de €1,02 mil milhões, em grande parte associada às tarifas. Vítor Andrade